BCE. Lagarde vê cada vez menos retoma ao fundo do túnel

Subida de preços na zona euro precisa de ser detida, mas pode haver um custo grande a pagar mais à frente: menos investimento, emprego, inovação e poder de compra salarial.

Luís Reis Ribeiro
Christiane Lagarde, no Fórum BCE, em Sintra, Portugal. 28 de julho de 2022. © Banco Central Europeu

A inflação parece estar a contaminar a economia como um todo e isso levanta novos problemas e desafios, além do mais imediato que é ter o Banco Central Europeu (BCE) a subir juros para travar os preços o que começa a apanhar na curva os mais endividados: países, empresas e famílias.

A inflação na zona euro, que já vai em mais de 8% em variação anual (maio), precisa de ser detida porque é destrutiva para a economia e um imposto pesado para os mais pobres, mas pode haver um preço alto a pagar mais à frente na sequência desta luta: menos investimento, menos emprego, menos negócios a nascer, menos poder de compra (mesmo com salários a crescer) e menos crescimento.

Ontem, no primeiro dia completo do Fórum BCE, em Sintra, a presidente da instituição, Christine Lagarde, sinalizou que, de facto, se começa a ver menos retoma ao fundo deste túnel incerto que é a senda contra a inflação.

A banqueira central alertou que o choque inflacionista (agravado pelo início da guerra contra a Ucrânia) parece agora mais persistente. Há uns meses, dizia que parecia apenas temporário. Isso tem "implicações sobre o crescimento" e a guerra não parece ter fim à vista.

Como referido, Lagarde mostrou-se mais determinada do que nunca na tarefa de debelar a subida explosiva dos preços.

A subida dos juros vai ser musculada, mas combinada com outras ferramentas que possam amaciar o impacto nos mais endividados (como Portugal, Grécia e Itália, por exemplo), assegurando uma "transmissão monetária" correta. Que é como quem diz: as medidas do BCE surtem os efeitos desejados e não deixam ninguém para trás nem fazem descarrilar o comboio do euro numa fase tão crítica quanto a atual.

No entanto, com a inflação de 8% em mente e com outros números preocupantes que foi referindo, Lagarde teve o seu momento Mario Draghi. Usou palavras mais fortes. "Iremos tão longe quanto for necessário para assegurar que a inflação estabiliza na nossa meta de 2%, no médio prazo".

Há dez anos, na crise de 2012, Draghi, o antecessor de Lagarde à frente do BCE, fez o célebre discurso do "faremos o que for necessário" para impedir a implosão da zona euro. Mas a ideia dele era a oposta da que hoje impera: na altura, era urgente descer juros.

 © Eurostat

Hoje não é assim. Lagarde disse aos economistas e decisores políticos e financeiros sentados em Sintra que "a inflação na zona euro está indesejavelmente elevada e prevê-se que se mantenha assim durante algum tempo".

O banco central dos 19 países que partilham o euro tem vindo a "normalizar" a sua política (isto é, a tomar decisões que agravam juros) desde dezembro do ano passado.

"As compras líquidas de ativos dos nossos vários programas chegarão ao fim esta semana", constatou a ex-chefe do FMI. E "em julho tencionamos aumentar as nossas taxas de referência pela primeira vez em 11 anos". A taxa de refinanciamento (a principal referência do BCE) está em 0% desde 2011, mas em julho deve subir para 0,25%.

E "continuaremos esta via de normalização - e iremos até onde for necessário para assegurar que a inflação estabiliza no nosso objetivo de 2% a médio prazo", disse.

Em setembro, se os dados da inflação se confirmarem insustentáveis na ótica do BCE, então as taxas de referência devem subir ainda mais do que 0,25%, reiterou Lagarde.

Podemos estar a falar de um agravamento de 0,5 pontos percentuais, colocando o custo de refinanciamento dos bancos comerciais junto do BCE nos 0,75%. Ou mais, depende da gravidade da inflação e da crise que se está a instalar.

Em "separado", o BCE está a preparar um escudo para defender os países mais "vulneráveis" do euro deste ambiente de juros cada vez maiores. Pode passar por um esquema de compras direcionadas de ativos que aliviem os países, mas o BCE ainda está a desenhar essa ferramenta.

A chefe do BCE fez questão de avisar que a nova ajuda não pode ser um incentivo para os governos pararem de fazer o trabalho de casa e deixem de ter "ímpeto" nas "políticas públicas sãs". Défices e dívidas têm de continuar a cair.

"Retoma incerta"

Dito isto, Lagarde enumerou os novos perigos no horizonte. As importações (energia, alimentos e não só) estão cada vez mais caras o que, na prática, é um novo "imposto" sobre os europeus.

Os metais e minerais raros custam mais e isso leva a mais inflação e a custos maiores de investimento em tecnologias limpas, o que pode "atrasar" a desejada transição energética da Europa. Lagarde constatou que há empresas que começaram a "adiar investimentos" e há inquéritos a gestores e empresários (como o PMI) que indicam que o crescimento de novos negócios acaba de estagnar.

O crescimento dos salários está a incorporar a pressão da inflação, devendo avançar 4% em 2022 e 2023. Lagarde acha que é muito: é quase o dobro da média histórica até antes da pandemia começar.

Mas, mesmo desagradada com este ritmo salarial, a líder do BCE diz que se a inflação continuar a ser superior ao ritmo das remunerações (o que já acontece e vai continuar segundo as previsões) então a perda de poder de compra das famílias vai ser ainda mais cavada, o que pode levar a uma erosão da poupança acumulada durante a pandemia.

Aliás, segundo revelou a alta responsável, as famílias até já começaram a perder poder de compra (há dois trimestres consecutivos que assim é) e os estudos mais recentes indicam que estão à espera de dificuldades prolongadas desse género no ano que vem.

Tudo somado, a crise, parte dela importada, tem potencial para arrastar a Europa para um quadro de menos consumo e menos emprego. O desemprego baixo ou contido devido às medidas da pandemia pode ter os dias contados. Lagarde falou destes perigos, mas em ponto algum mencionou as palavras estagnação ou recessão.

O Fórum BCE continua hoje em Sintra com a participação de Jerome Powell, presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, e Andrew Bailey, governador do Banco de Inglaterra. É o último dia do evento que começou na segunda-feira (dia 27).

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