Caminhos em 2022: Investimento, consumo e boas contas marcam tendências no "ano do capital humano"

A incógnita sobre o novo governo não abala a confiança dos banqueiros que desenham no Dinheiro Vivo um quadro de recuperação, assim se use bem a oportunidade única dos fundos e se enfrente riscos como a inflação e o fim dos estímulos europeus. Fortalecer a economia é prioritário, com foco na industrialização, na transformação energética e digital e na fixação de talento, mantendo custos controlados.

Joana Petiz
 © Ilustração: Vítor Higgs
Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander Portugal © João Sousa/GI
Bernardo Meyrelles do Souto, country manager do EFG © DR
António Ramalho, CEO do NB © André Luís Alves/GI

"Controlar custos fixos para mitigar os variáveis, traduzir o aumento desses nos preços dos produtos, para proteger a margem do negócio, e ter cautela nas revisões salariais de início do ano, para que não se tornem custos estruturais" são os cuidados prioritários para as empresas neste ano. E enfrentam um desafio titânico: "Depois de um 2021 de muitíssima circulação de pessoas, este ano será de particular necessidade de retenção de talentos", identifica António Ramalho, que não tem dúvidas quanto ao maior repto que se apresenta aos gestores. "2022 é o ano do capital humano."

Para o presidente do Novo Banco, o desafio é maior porque é fundamental controlar custos da negociação salarial. "Os princípios que devem nortear as empresas são uma enorme atenção aos custos fixos como forma de absorver e mitigar o aumento temporário dos variáveis (logística, energia...), que estão a demorar mais do que se esperava a passar tornando-se potencialmente conjunturais; maior flexibilidade no ajustamento de preços - é necessário refletir no consumidor os aumentos para preservar a margem; e extrema cautela com um custo específico que vai ser determinante para dar ou não caráter estrutural à inflação: os custos da negociação salarial", explica ao DV.

A trajetória de subida sustentada tem levado a taxas de inflação médias que se antecipam nos 2%, pressionando para cima os salários - custos estruturais que, uma vez assumidos, não podem ser retirados. Para o banqueiro, a gestão dos modelos de retenção de pessoas não deve por isso ter na remuneração o fator primordial. "Até no quadro da política de investimento que o PRR traz, não podemos esquecer que está em causa um modelo de indústria diferenciada e sustentável num processo de transição digital e energética, o que implica mais talento permanente numa área de pleno emprego. É preciso conjugar o contexto de concorrência com a Europa, em que o trabalho livre permite funções remotas e as exigências de talento são bastante diferenciadas, havendo mais procura do que oferta. E segurar custos."

<strong>Fim dos apoios, juros e inflação</strong>
Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander Portugal © João Sousa/GI

Num quadro de expectativa de "normalização da atividade, após o maior choque da pandemia (com efeitos pontuais fruto de novas vagas e/ou variantes", Pedro Castro e Almeida vê a economia europeia e a portuguesa a crescer ligeiramente acima de 5%, beneficiando também da execução do PRR. "É neste contexto de normalização que devemos ver a redução do programa de estímulos do BCE: os efeitos do PEP vão continuar a fazer-se sentir, com reforço temporário do APP. As taxas de juro, em especial de longo prazo, já ultrapassaram níveis mínimos e caberá agora ao BCE equilibrar expectativas de inflação num quadro de perturbações transitórias ainda devido à covid." Para o CEO do Santander, é essencial, por isso, que as empresas antecipem o risco de subida de juros, "aproveitando as condições de mercado para fixar custos de financiamento".

Bernardo Meyrelles encontra aí - e na possibilidade de novas reincidências e estirpes - um dos maiores riscos deste ano. "A possibilidade de os banqueiros centrais cometerem o erro de endurecer a política monetária muito rapidamente" pode trazer perigo a economias e investidores, que já têm de olhar com cautela fatores externos incluindo "o ressurgimento de tensões políticas entre EUA e Rússia, com a Europa vulnerável a uma retaliação russa", lembra o country manager do EFG.

A nível europeu, o CEO do Novo Banco identifica três perigos: "A reorganização da estrutura industrial e de consumos, com maior regionalização, proximidade e fiabilidade na cadeia de fornecimento não é instantânea e pode levar a quebras, como aconteceu com os chips, e a insuficiência de recursos humanos para assegurar as funções; a tensão entre política monetária e inflação pode gerar uma crise; e por fim o efeito que isso pode ter na sustentabilidade da dívida. Enquanto a Europa se mantiver como um todo, haverá equilíbrio global, mas se os juros sobem também o prémio de risco das dívidas aumenta e se isso não for acompanhado por medidas de estruturação das contas públicas de cada país pode trazer dissabores à perceção da dívida, hoje atenuadas pelo PRR e pelo alinhamento das políticas estruturais do BCE para proteção das dívidas públicas."

<strong>Reindustrialização, investimento e consumo</strong>

Castro e Almeida encontra, ainda assim, oportunidades "abrangentes" para as empresas portuguesas, considerando a trajetória de crescimento das exportações de bens. Antecipando o caminho do investimento, o líder do Santander aponta aqui três drivers: "O processo de relocalização de atividades para a Europa; a transição digital, com maior foco na capacidade de as empresas melhorarem processos e serem mais eficientes e de incorporarem no processo produtivo maior volume de serviços de maior valor acrescentado; e a transição climática, com maior foco em serviços."

António Ramalho, CEO do NB © André Luís Alves/GI

A visão é partilhada por Ramalho: "Há três áreas comuns fundamentais: digitalização, controlo de custos e eficiência, e dimensão da estrutura empresarial. É preciso que as nossas empresas se virem para fora, para o mercado ibérico e europeu, ganhando dimensão."

Nesta recuperação económica, o ressurgir do consumo vai desempenhar papel primordial. "Parte do aumento da poupança decorreu da impossibilidade de realizar despesa, fruto dos confinamentos", explica Castro e Almeida. "A reabertura das atividades deverá resultar em redução da poupança, mas ainda acima do pré-pandemia, e isso, juntamente com um desemprego abaixo de 7%, deverá permitir às famílias - que já entraram na pandemia com menores níveis de endividamento - dispor de uma almofada para fazer face a eventuais riscos de subida das taxas de juro", acredita o banqueiro.

"A poupança que temos é conjuntural, nasceu por obrigação de saúde", concorda o líder do NB, que antecipa que o desconfinamento total (com vacinação, testes e medicamentos a reduzir a letalidade) resultará na "explosão do consumo". "Se não tivermos outra crise além dos efeitos do realinhamento das economias, este pode ser um ano de bastante mais consumo - esperemos que responsável", conclui.

"À medida que a pandemia for retrocedendo, os consumidores estarão dispostos a gastar mais, especificamente em lazer e saúde; a confiança aumentará e as pessoas usarão parte das economias acumuladas", diz também o líder do EFG, fazendo corresponder a abertura das atividades e a recuperação da liberdade ao regresso do consumo e prevendo ainda a recuperação de "tratamentos e serviços de saúde postos em espera, que irão recuperar à medida que a situação se normalize". Por isso mesmo, "bens de consumo, saúde e energia verde são os nossos setores preferidos" de investimento, aponta. "E em mercados emergentes favorecemos setores que possam beneficiar da digitalização contínua", esclarece o responsável do banco centrado na gestão de rendimento e património elevado.

<strong>Eleições e prioridades para o governo que há de vir</strong>

Questionados sobre o foco da ação do executivo que sair das legislativas de dia 30, os banqueiros estão em sintonia. "Deve aproveitar a conjuntura de crescimento para retomar a redução do défice e da dívida, assim contribuindo para sustentabilidade da recuperação", resume o CEO do Santander, com António Ramalho a apontar duas prioridades, saúde e investimento, sobre as quais assentam as maiores oportunidades do país. "Há que corrigir o efeito da pandemia no SNS e conjugar no PRR, com inteligência, setores público e privado para cumprir esta oportunidade única", explica.

E a instabilidade governativa não preocupa? "Acho que os portugueses aprenderam e veem que as soluções, maioritárias ou minoritárias, têm de garantir estabilidade; isso não tem que ver com o resultado eleitoral mas com o que se faz com ele", defende Ramalho. "Criou-se nestes anos uma volatilidade com moções de confiança anuais que davam pelo nome de Orçamento do Estado (OE), e a sociedade está hoje menos pronta a aceitar que o OE se torne numa moção, exigindo que se governe com estabilidade estrutural." Ou seja, ter PS e PSD como partidos mais votados será sinal de desejo de estabilidade e "os nossos políticos tendem a ser bons intérpretes da vontade de quem vota".

Bernardo Meyrelles do Souto, country manager do EFG © DR

Bernardo Meyrelles reconhece o peso de alguma incerteza causada por eleições e perspetivas para o OE2022 - "podem revelar-se menos estimulantes, dependendo do resultado" - mas vê outros sinais de perigo, nomeadamente no rácio de crédito incumprido, um dos mais altos da Europa. Pelo que é importante o novo governo "implementar políticas que acelerem o processo de insolvência de empresas".

De resto, os banqueiros são unânimes em considerar que há mais nuvens vindas de fora. "Muitos dos nossos riscos são semelhantes aos de outras nações europeias. Como o BCE assustar-se com a inflação e retirar estímulos muito depressa, com efeito agravado se outros bancos centrais replicarem a ação, resultando num aperto global excessivo das condições monetárias que poderia prejudicar a recuperação", aponta o líder do EFG. "O risco de as cadeias de abastecimento não serem desbloqueadas tão rapidamente quanto esperado, frustrando a produção e pressionando a inflação, e taxas de infeção de covid elevadas obrigando a manter restrições à atividade" são outros obstáculos que podem afetar a retoma.

Para o CEO do Santander, o maior risco é mesmo "considerar-se o mundo pós-pandemia similar ao pré-covid: num contexto de transição climática e digital a reforçar-se, o contexto competitivo em que operam as empresas será mais exigente". Castro e Almeida vê por isso na execução do PRR o fator-chave "para que se produza os desejados efeitos em termos de melhoria do potencial de crescimento".

As oportunidades do PRR e a alteração que trazem à economia europeia, com "estruturas mais compliance, próximas e fiáveis", são também apontadas pelo CEO do NB. "Pela primeira vez, podemos subir e descer na cadeia de valor: há uma tendência europeia de regionalização industrial que permitirá a países muito adaptáveis, como Portugal, serem rápidos a preencher vazios à escala europeia. Nós temos um belíssimo track record na aplicação de fundos, o tema é que só os aplicamos no fim - e desta vez não há tempo para atrasos, é um projeto de rápida execução (sobretudo os 16 mil milhões do PRR). Por outro lado, em sete anos teremos mais e 60 mil milhões, um montante que não temos experiência de aplicar." O banqueiro está, ainda assim, confiante: "Seremos bem-sucedidos."

<strong>E onde há oportunidades de investimento?</strong>

Com o quadro macroeconómico "otimista e positivo", "favorável às empresas e a ativos de risco como ações", o líder do EFG vê no "apoio governamental contínuo a criação de oportunidades e incentivos para que as empresas invistam em áreas como economia verde". Aposta acarinhada por Ramalho. "Devemos apostar fortemente na economia verde e azul, potenciar o sucesso que temos tido na estrutura agroindustrial e na indústria do mar, onde temos vantagem competitiva."

Meyrelles concretiza caminhos de investimento neste ano em setores como "saúde, energia verde e digitalização", mas vê também com interesse o segmento de dívida de taxa fixa. "Embora os rendimentos sejam baixos e os spreads reduzidos, há oportunidades seletivas nos mercados emergentes, uma vez que subidas de juros já foram implementadas em alguns. E os problemas do setor imobiliário chinês estão descontados." A visão favorável estende-se às ações japonesas - "as margens são altas, as exportações e as vendas internas devem aumentar, o iene permanece competitivo e há potencial para interesse estrangeiro" - e às commodities, ainda que algumas delas "continuem a beneficiar com o endurecimento de políticas ambientalmente corretas e sustentáveis, como se vê no transporte".

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