Centeno diz que salários do privado já começaram a perder poder de compra

Mesmo assim, Centeno avisa que é preciso estar alerta e "evitar aumentos de salários que possam gerar pressões persistentes sobre os preços".

Luís Reis Ribeiro
O governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, intervém durante a sessão comemorativa dos 10 anos da sede do Banco de Portugal, Lisboa, 26 de setembro de 2022. MANUEL DE ALMEIDA/LUSA © LUSA

Os salários reais do setor privado (salários nominais descontando o efeito da inflação) já estão a perder poder de compra, indica o Banco de Portugal (BdP), no novo boletim económico divulgado esta quinta-feira. Assim é desde o segundo trimestre, aliás, mostra o Banco no mesmo estudo.

A quebra no poder de compra dos privados acontece num contexto de inflação muito elevada, que o banco central governado por Mário Centeno estima que possa chegar a 7,8% este ano.

E acontece justamente quando o governo está a tentar fazer um acordo de rendimentos com os parceiros sociais, agora que o PS (ainda que tenha maioria absoluta) não tem parceiros no Parlamento.

A quebra nos salários reais vem somar pressão aos argumentos dos sindicatos, que querem um acordo com metas mais ambiciosas para a progressão de salários e direitos ao longo dos próximos anos.

Esta quinta-feira ao final do dia, haverá uma nova reunião de concertação social sobre o tema.

Segundo o BdP, o valor do salário nominal por trabalhador até cresce mais este ano (5,4%) do que em 2021 (4,9%), mas a inflação de 7,8% provoca um rombo real de aproximadamente 2,4%.

Num gráfico que acompanha o boletim, o BdP mostra que os salários reais começaram a perder poder de compra logo no segundo trimestre deste ano, período em que a inflação disparou na sequência da guerra da Rússia contra a Ucrânia, que começou no final de fevereiro.

 © Banco de Portugal

Inflação corrói rendimento disponível

Além disso, a inflação também corrói o rendimento disponível das famílias (que é o rendimento que fica tirando impostos e somando apoios sociais, grosso modo).

Mesmo com aumentos salariais nominais, as famílias estarão já a experimentar uma estagnação nesses rendimentos finais, os valores que levam efetivamente para casa, por assim dizer.

"O rendimento disponível real estagna , condicionado pelo perfil da inflação, enquanto a taxa de poupança se reduz de 9,8% para 4,9%", começa por dizer o BdP.

"O enquadramento externo e financeiro tem vindo a deteriorar-se pela via de aumentos da inflação e das taxas de juro, que têm efeitos adversos sobre o rendimento disponível real", no entanto, "estes efeitos são atenuados em 2022 pelo bom desempenho do mercado de trabalho, refletido no dinamismo do emprego e dos salários nominais".

Mas o banco central insiste no alerta. "A trajetória esperada de subida das taxas de juro dos empréstimos às sociedades não financeiras e a particulares no próximo ano - em linha com as expectativas implícitas em instrumentos de mercado - terá um impacto não negligenciável sobre o rendimento disponível das famílias e a situação financeira das empresas".

"No entanto, não se antecipa que o rácio da despesa com juros sobre o rendimento das famílias ou sobre os resultados das empresas se aproxime dos valores máximos observados no passado", contrabalança o Banco.

Mesmo assim, com os salários nominais a subir e com os apoios do Estado e da Segurança Social, "o rendimento disponível real estagna em 2022 (0,2%, após 2,2% em 2021)", condicionado pelo referido perfil "marcado" da inflação.

"Em termos nominais, este agregado acelera de 3,6% para 6,5%, refletindo o comportamento das remunerações do trabalho - num contexto de crescimento do emprego e dos salários por trabalhador - e das transferências internas. As medidas anunciadas em setembro pelo Governo português deverão ter um contributo de 1,4 pontos percentuais para a variação do rendimento disponível em 2022."

Salários ainda não reagiram a sério à inflação alta

Segundo o BdP, "os salários por trabalhador no setor privado crescem 5,4% (4,9% em 2021), implicando uma queda em termos reais no ano, mas mantendo ganhos reais face a 2019".

"Este crescimento incorpora o aumento de 6% do salário mínimo no início do ano e refletirá também um elevado dinamismo dos salários ao longo de toda a distribuição", acrescenta o Banco de Portugal.

Para já, a instituição de Mário Centeno ainda não está muito preocupada com subidas excessivas dos salários (que no seu entender podem alimentar ainda mais a inflação, os chamados efeitos de segunda ordem).

Isso acontece porque a inflação subiu muito de repente (sobretudo após a invasão da Ucrânia pela Rússia) e porque a criação de emprego em Portugal estará muito concentrada nos salários mais baixos, como é costume.

"De facto, a evolução do salário médio, num contexto de crescimento significativo do emprego, é compatível com variações bastante superiores dos salários individuais, dada a presença de fortes efeitos de composição negativos (o aumento do emprego estará a ser mais concentrado nos escalões salariais mais baixos)", refere o BdP.

Acresce que "a subida abrupta e não antecipada da inflação ao longo do ano pode justificar um impacto reduzido de efeitos sobre os salários em 2022" e que "adicionalmente, cerca de 80% dos salários são definidos no âmbito de instrumentos de regulamentação coletiva em Portugal, o que pode introduzir um elemento de rigidez na transmissão da inflação aos salários".

Mas Centeno avisa na mesma que é preciso estar alerta e "evitar aumentos das margens das empresas e de salários que possam gerar pressões persistentes sobre os preços" nos próximos tempos.

(atualizado 13h25)

Mais Notícias

Veja Também

Outros Conteúdos GMG