Portugal é a segunda maior delegação estrangeira na mais competitiva feira industrial do mundo

Empresas quadruplicam a sua presença na edição em que Portugal é o país parceiro da Hannover Messe, à conquista de clientes, mas também de investimento direto estrangeiro, num ano em que o país regista um aumento de 60% na procura por parte de potenciais investidores, designadamente de alemães, franceses e americanos.

Ilídia Pinto
 © Vítor Higgs

A Hannover Messe, a maior feira de indústria e tecnologia do mundo, arranca segunda-feira na cidade alemã com o mesmo nome e Portugal, que é o país-parceiro desta edição, faz-se representar por 109 empresas, quase quatro vezes mais do que a presença habitual. Um momento único, para o qual o país se preparou nos últimos dois anos, com um investimento global de promoção na ordem dos quatro milhões de euros. Para o presidente da AICEP, Portugal estará no "maior palco industrial do mundo" a apresentar as suas valências e o talento nacional, sendo que se espera que este momento resulte no aumento das exportações, nos próximos três a cinco anos, em "centenas de milhões de euros". Para o primeiro-ministro, esta é uma "oportunidade extraordinária" para Portugal mostrar ao mundo que é mais que sol e praias, além de constituir uma participação "estratégica" para o futuro do país.

"Numa altura em que a Europa percebeu que tem de recuperar a produção que deslocalizou no passado, Portugal posiciona-se como plataforma privilegiada de localização nesse esforço de reindustrialização, quer pelas suas características geográficas, quer pela sua segurança - Portugal é o quarto país mais seguro do mundo -, quer pela qualificação dos seus recursos humanos, quer ainda pela capacidade científica e tecnológica que já alcançámos, gerando um ecossistema indispensável ao cumprimento da transição energética e digital que temos de fazer", avançou António Costa ao Dinheiro Vivo.

O governante, que participará em vários momentos do certame, designadamente na cerimónia de abertura da feira, no domingo, e na de boas-vindas, logo ao início da manhã de segunda-feira, com o chanceler alemão Olaf Scholz, defende que esta é uma "oportunidade extraordinária" para mostrar ao mundo que Portugal é mais do que aquilo que o mundo já conhece. "Além do sol, das praias e da gastronomia, Portugal é um país que produz, e que produz produtos e serviços inovadores de alta qualidade tecnológica. E são esses produtos que vão estar no palco desta feira que proporcionará seguramente novas parcerias e novos negócios aos nossos empresários", argumenta.

Já o presidente da AICEP fala numa operação de "larga escala" em Hannover, tendo em vista mostrar a real dimensão da competitividade da indústria portuguesa. "O nosso objetivo é surpreender o decisor alemão com factos concretos e conquistas industriais efetivas - seja que 30% das exportações nacionais são da metalurgia e metalomecânica, ou que Portugal tem uma capacidade de geração de talento única, multilingue e multicultural, ou ainda que as construtoras automóveis alemãs têm hoje presença significativa a desenvolver software a partir de Portugal - e, por isso, levamos um conjunto de casos de sucesso de soluções de investigação e desenvolvimento tecnológico criadas, de raiz, em parceria com centros universitários portugueses", diz Luís Castro Henriques.

O objetivo é criar novas parcerias, quer para produção em Portugal, mas também para cocriação, tirando partido das competências de desenvolvimento nacionais. A captação de novos investidores é outra das prioridades. Recorde-se que, em 2021, o investimento contratualizado com a AICEP mais do que triplicou comparativamente a 2019, o anterior recorde, para um total de 2,7 mil milhões de euros. Destes, 52% foram de investimento direto estrangeiro, sendo que o capital alemão representou cerca de 20%.

AICEP: procura de investidores está em alta

Este ano, a procura continua a crescer. E embora haja quem aponte a guerra na Ucrânia como um fator determinante, já que as cablagens para a indústria automóvel alemã vinham desta geografia, Luís Castro Henriques recusa fazer essa ligação. "A concentração das cadeias de valor é uma macrotendência que já vinha de trás e que foi ampliada pelas incertezas no mercado", refere, sublinhando que o aumento da procura está muito ligado ao setor automóvel, mas não só.

E embora não aponte objetivos ou metas, assume que os dados são animadores. "Não sabemos se vamos ter novo recorde ou não, mas sabemos que, em termos de captação de novos clientes, vai ser, de novo, um ano muito muito forte", diz o presidente da AICEP, sublinhando que a procura está 60% acima do ano passado. O que não significa que todos se venham a concretizar, alerta. A transição entre quadros comunitários não ajuda e a contratualização vai depender do calendário de avisos do novo PT 2030. De qualquer forma, e entre os que procuram informações sobre localizações possíveis para se instalarem em Portugal as empresas alemãs têm "um peso relevante", a par das francesas e americanas.

É sob o lema Portugal makes sense que as empresas nacionais se apresentam na Hannover Messe, para mostrar o que de melhor sabem produzir, assentes no talento nacional, o principal fator de competitividade que se pretende dar a conhecer. "É isso que tem sido diferenciador para aumentar a complexidade do que produzimos, mas, sobretudo, do que desenvolvemos", diz o presidente da AICEP. E se é verdade que a falta de mão-de-obra preocupa, não é menos certo que esse é um problema europeu e não exclusivamente nacional, frisa.

"Acreditamos que, sendo Portugal o terceiro país da Europa que mais engenheiros produz em proporção da sua população, vamos conseguir continuar a manter uma cadência de produção de talento que conseguirá acompanhar o aumento do investimento e da procura por empresas estrangeiras ou nacionais", refere Luís Castro Henriques, que sublinha ser uma "prioridade" para Portugal "manter uma formação de talento permanente" para continuar a crescer.

Voltando à feira, Portugal faz-se representar em quatro grandes espaços distintos, sendo que no pavilhão institucional de Portugal estarão presentes os tais casos de sucesso, desenvolvidos e criados em Portugal em parceria com grandes empresas alemãs como a Bosch, Continental, Grohe, Leicca, Schmitt ou Siemens. Um destaque que ajudará a conquistar novos clientes entre as pequenas e médias empresas alemãs, que à luz da nossa realidade são grandes empresas, com faturações na ordem dos 500 e 600 milhões de euros ao ano, lembra o vice-presidente da associação da metalurgia, a AIMMAP, e que, com o especial destaque que Portugal terá sob os holofotes de país-parceiro, irão perceber, de forma mais evidente, que os portugueses são já fornecedores destas grandes multinacionais.

Para Rafael Campos Pereira, a possibilidade de Portugal ser país-parceiro é "de uma relevância enorme", garante, na medida em que se trata de uma "honra" normalmente reservada a grandes economias, como os EUA, Indonésia, Brasil ou Rússia, ou a países "altamente tecnológicos e sofisticados", caso da Suécia e Países Baixos. "Sermos país-parceiro coloca-nos no palco principal de uma feira que faz parte do motor da economia alemã", frisa.

Das 109 empresas que estarão em Hanôver, numa presença organizada pela AIMMAP, quase 70 são do cluster da Engineered Parts & Solutions, ou seja, das peças técnicas e da subcontratação de elevado valor acrescentado, a área mais forte para a metalurgia e metalomecânica nacionais. Na área dos ecossistemas digitais e das tecnologias de informação estarão 15 empresas, bem como 13 no pavilhão das soluções energéticas. O mesmo número das entidades nacionais especializadas na área da automação e da robótica. A esmagadora maioria vai pela primeira vez, e a expectativa é que muitos possam regressar em 2023. "Este não é um evento para fechar negócio, é um espaço para procura de bons contactos com possíveis clientes, sendo que é a feira de referência por onde passam todos os compradores mais importantes. Esperamos que, para o ano, as empresas regressem para consolidar a sua participação nos próximos anos", diz Rafael Campos Pereira.

Também Markus Kemper, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã (CCILA), fala numa "oportunidade única" para as empresas portuguesas, já que, dos mais de 100 mil visitantes que se esperam que visitem a Hannover Messe, estão decisores responsáveis por decisões de investimento de mais de 50 mil milhões de euros. "A Alemanha é o terceiro maior destino das exportações portuguesas, com uma quota de 12% do total. E a guerra na Ucrânia, sendo um acontecimento terrível, constitui uma enorme oportunidade, já que boa parte do setor automóvel alemão está parado e á procura de locais para investir", defende.

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