Como a dívida de Luís Filipe Vieira acabou no Novo Banco

Em setembro de 2017, o Grupo Promovalor, holding de imobiliária de Luís Filipe Vieira tinha uma dívida ao Novo Banco superior a 227 milhões, segundo os números divulgados pelo presidente do Benfica na segunda-feira no Parlamento.

Sara Ribeiro
O presidente do Conselho de Administração da Promovalor, Luís Filipe Vieira, fala perante a Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução, na Assembleia da República, em Lisboa © TIAGO PETINGA/LUSA

A construção e o imobiliário encabeçam os setores que deixaram maiores dívidas no Novo Banco, herdadas ainda do BES. E o Grupo Promovalor, liderado por Luís Filipe Vieira, é uma das empresas deste universo com maior exposição, razão pela qual o presidente do Benfica foi chamado ao Parlamento para explicar os empréstimos em causa.

Na comissão parlamentar de inquérito às perdas do Novo Banco, Luís Filipe Vieira começou por explicar que a Promovalor foi criada com "capitais próprios de 35 milhões de euros". "Não foi dinheiro dos bancos, foi património pessoal e das minhas empresas, fruto do meu trabalho e do trabalho de todos aqueles que me apoiaram nos mais de 30 anos que já levava como empresário", sublinhou Luís Filipe Vieira na intervenção inicial.

Neste trajeto, o líder da Promovalor contou com o apoio de instituições financeiras, mas não por ser presidente do Sport Lisboa e Benfica", mas "naturalmente porque os projetos que eram apresentados mereciam uma análise positiva por parte do sistema bancário", apontou Filipe Vieira.

Tal como as restantes empresas do setor, a Promovalor não escapou às dificuldades económicas que começaram a ser sentidas em 2011 e que se agravaram com a chegada da troika. Isto ao mesmo tempo que os negócios que a empresa tinha nos mercados do Brasil e Moçambique começavam a ressentir-se. Um cenário difícil que se complicou ainda mais em 2014 com a queda do BES, que financiou alguns dos investimentos das empresas do presidente do Benfica. É nesta altura que os créditos, que já somariam pelo menos duas centenas de milhões de euros, passam para a esfera do Novo Banco.

Segundo Filipe Vieira, a Promovalor "procurou encontrar uma forma de cumprir com as suas obrigações, em particular com o Novo Banco". As soluções encontradas "mereceram o acompanhamento e a autorização das entidades de supervisão do Novo Banco, nomeadamente do Fundo de Resolução", que tem sido chamado a cobrir as perdas do banco liderado por António Ramalho, com recurso a empréstimos do Tesouro público.

Em 2017, grande parte dos créditos são reestruturados, passando parte dos ativos do Grupo Promovalor para o Fundo de Investimento Alternativo Especializado (FIAE) - criado em Novembro deste ano e detido em 96% pelo NB e 4% por Filipe Vieira. Este fundo é gerido pela C2 Capital Partners, uma empresa do antigo vice-presidente do Benfica Nuno Gaioso Ribeiro.

Antes, em 211, já tinha havido uma reestruturação de parte dos ativos da Promovalor através de Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis (VMOC), instrumento financeiro que prevê no caso de não haver lugar ao reembolso do empréstimo, o mesmo poder ser convertido em capital pelo banco. Algo que deverá mesmo acontecer já em agosto deste ano, como confirmou Luís Filipe Vieira: "É este ano

que se vence e que se vai processar a operação", revelou. Nuno Gaioso Ribeiro também já tinha dito no Parlamento que "dificilmente" o fundo iria cumprir o objetivo de avançar com o pagamento dos 160 milhões que tem em VMOC no banco.

De acordo com dois relatórios de auditoria da PwC e da EY, posteriores à resolução do BES, a Promovalor e outras empresas de Filipe Vieira deviam 304 e 487 milhões de euros, respetivamente, sendo a diferença atribuível ao perímetro de análise dos grupos. Já segundo as contas de Luís Filipe Vieira, em 2017, a exposição rondava os 227 milhões de euros.

Os outros grandes devedores

1. Ongoing

Em 2015, a exposição da Ongoing, que em 2016 chegou a ter quase 10% da antiga PT ascendia a 605 milhões de euros. Um valor que coloca também a empresa, entretanto declarada insolvente, na lista das maiores devedoras do banco. Razão pela qual Nuno Vasconcelos também foi um dos nomes chamados pelos deputados à Comissão de Inquérito às perdas registadas pelo NB.

Número: 600 milhões de euros

2. Moniz da Maia

A Sogema, da família Moniz da Maia, integra a lista dos maiores devedores com uma dívida superior a 500 milhões, vendida em 2019 ao fundo americano Davidson Kempner. Quando foi chamado ao Parlamento, Bernardo Moniz da Maia, disse que não compreendia por que razão o banco vendeu a dívida por 10% do valor.

Número: 500 milhões de euros

3. Prebuild

A Prebuild, conglomerado industrial sobretudo ligado à área da construção, foi liquidada em 2019. A falência da empresa criada por João Gama Leão, deixou um rasto de 334 milhões de euros de dívidas ao Novo Banco, credor de 85% do total da dívida.

Número: 330 milhões de euros

4. Berardo

O nome do empresário Joe Berardo também está entre os devedores do Novo Banco. Em 2014, tinha uma dívida de cerca de 280 milhões de euros, uma exposição que foi reduzida não sendo público o valor atual dos créditos. Como foi noticiado pelo Expresso, em abril deste ano, o Novo Banco avançou com ação de execução contra duas empresas de José Berardo (Metalgest e a IPSS) no valor de 3,5 milhões de euros.

Número: 280 milhões de euros

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