Desperdício alimentar atinge 1000 000 de toneladas por ano em Portugal

Movimento Unidos Contra o Desperdício, que revela que se o desperdício alimentar fosse um país, estaria entre os 7% mais ricos, leva a cabo o evento "Desperdício Zero" para alertar para o problema e consciencializar os portugueses para a necessidade de não deitar comida fora.

Mónica Costa
Se o desperdício alimentar fosse um país estava entre os 7% mais ricos © Ivo Pereira / Global Imagens

Cada português desperdiça, por ano, cerca de 100 quilos de alimentos, mas em Portugal cerca de um milhão e 600 mil pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza e 360 mil têm carências alimentares.

No entanto só no nosso país e no espaço de 12 meses, são deitados para o lixo cerca de 1000 000 de toneladas de alimentos.

Os números são avançados pelo Movimento Unidos Contra o Desperdício, que, citando ainda o último estudo do BCG - Boston Consulting Group, revela que se o desperdício alimentar fosse um país, estaria entre os 7% mais ricos.

Em 2030 o impacto do desperdício, em todo o mundo, será de 1,5 biliões de euros e, em termos ambientais, - se estivéssemos a falar de um país - seria o terceiro maior emissor de gases com efeitos de estufa, com aproximadamente 10% do total das emissões de CO2 no Mundo.

Cada agregado familiar desperdiça, a nível global, cerca de 75 quilos de alimentos por ano, sendo que a maior fonte de desperdício (40%) está no consumo.

Nesta quinta-feira, no dia em que se assinala o Dia Internacional da Consciencialização Sobre Perdas e Desperdício Alimentar, decretado pela ONU, pela primeira vez, a 29 de setembro de 2020 e também quando nasceu o Movimento Unidos Contra o Desperdício, acontece em Lisboa o evento "Desperdício Zero", que pretende alertar para este problema, ao mesmo tempo que visa demonstrar como é fácil fazer receitas que reaproveitam as sobras e evitam desperdícios.

Combater o desperdício

Dois anos depois da criação, o Movimento Unidos Contra o Desperdício conta já com 310 empresas/entidades e três mil particulares aderentes, que pretendem alertar os portugueses para esta questão e consciencializar para a importância de mudar comportamentos. Em jeito de balanço, o seu coordenador Francisco Mello e Castro considera, ainda, ser difícil medir os resultados do movimento neste combate. "Sabemos, no entanto, que muitos têm sido os casos de sucesso neste combate, já que inúmeras empresas e cidadãos comuns estão a mudar os seus processos e estilos de vida com a ajuda da influência positiva do Movimento e das suas campanhas", declara.

O responsável revela, ao Dinheiro Vivo, que ao contrário do que se possa pensar não é no retalho que se regista o maior desperdício. "As principais insígnias da distribuição alimentar estão hoje muito mais eficientes e eficazes no combate ao desperdício dentro das suas estruturas, doando milhares de toneladas de alimentos em perfeitas condições de consumo a entidades como o Banco Alimentar, por exemplo", afirma.

Embora muitos alimentos fiquem pelo caminho, entre a produção até ao consumo final a realidade é que é mesmo nas nossas casas que se desperdiça comida. Das 1000 000 de toneladas de alimentos desperdiçados, 40% tem origem nos lares.

Para Francisco Mello e Castro, "a forma mais eficaz de alertar consciências e fazer com que o consumidor possa realmente mudar o seu comportamento em torno deste problema é começar por fazê-lo entender a realidade do mesmo, com todos os seus impactos". E, remete para os impactos do desperdício no meio ambiente. Para vincar a ideia, recorda ainda os portugueses que vivem com menos de 540 euros por mês (abaixo do limiar da pobreza) e que poderiam conseguir uma melhor alimentação se pudessem recorrer a estes alimentos desperdiçados.

E, acrescenta ainda que "segundo dados da ONU, a comida que é desperdiçada no mundo, todos os anos, daria para alimentar 1,26 biliões de pessoas. A FAO estima que em 2020 tivemos 828 milhões de pessoas que passaram fome", lamenta.

Mas o caminho para a melhoria, embora lento, está a ser feito. "Há muito que as empresas já estão a fazer no sentido de minorar este problema", afirma, apelando assim aos consumidores. "O grande foco tem que estar no esforço conjunto dos cidadãos, porque, sem eles o esforço das empresas será inglório. Em jeito de exemplo e provocação, deixo a pergunta: as frutas "feias" ficam no chão dos campos agrícolas porque os supermercados não as querem, ou são os consumidores que, na hora de escolherem entre uma fruta bonita e outra mais "feia", escolhem a mais bonita?", questiona.

Mais Notícias

Veja Também

Outros Conteúdos GMG