Guerra leva a corrida portuguesa às importações de Angola, Brasil, Espanha, Congo e Tobago

Procura de alternativas à energia russa e aos cereais da Ucrânia trazem para a ribalta novos fornecedores como Congo e Trindade e Tobago, por exemplo, segundo dados do INE.

Luís Reis Ribeiro
 © EPA/JAMES GOURLEY

O perfil do comércio externo de Portugal (mercadorias) com o resto do mundo sofreu alterações notáveis desde que começou a guerra da Rússia contra a Ucrânia.

O país está hoje ainda mais dependente face ao exterior, o défice comercial atingiu o maior valor das séries oficiais no primeiro semestre deste ano e novos parceiros comerciais surgiram do nada na corrida a mercados substitutos do gás e do petróleo russo.

De acordo com cálculos do Dinheiro Vivo (DV) a partir da base de dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), ontem atualizada (terça-feira), o défice comercial português (diferença entre exportações de mercadorias e importações) superou os 14 mil milhões de euros no primeiro semestre de 2022 (o maior valor em cerca de três décadas), impulsionado por um crescimento muito acentuado das compras ao exterior, que avançaram quase 37% face a igual período de 2021.

Em percentagem do produto interno bruto (PIB) previsto para este ano, o défice de primeiro semestre equivale a 6,1%, o maior desde 2008, estava Portugal numa vaga de endividamento que haveria de empurrar o país para a bancarrota.

O aumento na primeira metade de 2022 também é pronunciado porque o início de 2021 ainda foi muito marcado pelos constrangimentos da pandemia, limitando as trocas comerciais, mas quando de olha com maior detalhe para os trimestres deste ano percebemos que, depois do início da guerra na Ucrânia (a 24 de fevereiro), alguma coisa de fundamental mudou.

As exportações dispararam à boleia da forte subida dos preços dos combustíveis (Portugal exporta produtos refinados e estes valorizaram imenso), mas o valor gasto em importações aumentou muito mais.

No segundo trimestre, as compras de Portugal ao estrangeiro aumentaram quase 38%, sendo de relevar que as importações de combustíveis e lubrificantes mais do que duplicaram em termos homólogos (mais 163%), para mais de 5,5 mil milhões de euros em abril-junho.

Como referido, com a guerra, as empresas portuguesas e o próprio governo tiveram de fazer escolhas. Não havendo garantias de continuidade na energia vendida pela Rússia (que ainda flui, mas cada vez menos e estará por um fio) e com os preços a dispararem nos mercados, Portugal começou a procurar alternativas.

Isso é bem patente no levantamento feito pelo DV. Olhando apenas para o segundo trimestre e a forma como as compras ao exterior evoluíram face ao período anterior, quando ainda não havia uma guerra em curso, percebe-se que Portugal decidiu reorientar várias relações comerciais para amortecer ou evitar eventuais faltas de combustíveis, alimentos e componentes industriais.

As importações de Espanha aumentaram mais de 10% (mais 828 milhões de euros) à boleia de mais fornecimentos industriais e combustíveis.

As compras ao Brasil quase duplicaram (mais 89% ou 757 milhões de euros) essencialmente por causa do petróleo.

A República Democrática do Congo, que nem sequer contava como fornecedor de Portugal, faturou mais de 331 milhões de euros em combustíveis e lubrificantes.

Outro parceiro novo que apareceu no radar foi o território Trindade e Tobago. No primeiro trimestre quase não constava, no segundo, o INE indica que vendeu mais de 288 milhões de euros em petróleo.

Angola fortaleceu novamente o seu ascendente sobre Portugal, tendo as suas vendas mais do que triplicado. Foi essencialmente por causa da venda de mais 240 milhões de euros em petróleo. As vendas totais dos angolanos rondaram 337 milhões de euros entre abril e junho, segundo os dados do INE.

A Holanda também surge na lista de países com maior proeminência no avanço das suas vendas a Portugal depois da guerra começar. Aqui, a explicação do INE é que os holandeses estão a vender muito mais produtos alimentares e bebidas. O saldo nessa faturação foi de 85 milhões de euros face aos primeiros três meses deste ano, um aumento superior a 50% no segmento das compras alimentares.

O INE mostra ainda que a corrida às importações (totais) manteve uma tração elevada ao longo do segundo trimestre, ao ponto de estas terem subido uns estratosféricos 42% em junho último.

"Em junho de 2022, as exportações e as importações de bens registaram variações homólogas nominais de +37,1% e +41,6%, respetivamente (+40,7% e +45%, pela mesma ordem, em maio de 2022)", refere o instituto.

A subida dos preços puxou pelo valor final, seja do que foi exportado, seja dos produtos importados. "Note-se que os índices de valor unitário (preços) registaram variações homólogas de +18,6% nas exportações e +26,0% nas importações", observa o INE.

Efeito da inflação

"Ainda em termos nominais, são de salientar os acréscimos em ambos os fluxos dos Fornecimentos industriais (+29% nas exportações e +21,2% nas importações), dos Combustíveis e lubrificantes (+159,8% e +220,3%, respetivamente) e do Material de transporte (+60,6% e +46,1%, pela mesma ordem)", diz o destaque das estatísticas oficiais.

E mesmo excluindo Combustíveis e lubrificantes, as exportações e as importações estão visivelmente mais caras.

Em junho, "exportações e importações aumentaram 29,8% e 23,4%, respetivamente (+35% e +33,2%, pela mesma ordem, em maio de 2022)".

Uma vez mais, o INE explica que "os índices de valor unitário (preços) excluindo os produtos petrolíferos registaram variações homólogas de +13% nas exportações e +14,6% nas importações".

Ou seja, olhando para as trocas comerciais, percebe-se que há muita inflação nos mercados da energia, mas que esta também já está a contaminar os restantes mercados.

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