Produções da Índia e Coreia substituem metais ucranianos usados na construção

Setor preocupado com possível paragem de produção das siderurgias europeias, nomeadamente das ibéricas, devido aos elevados custos da energia. Situação agravaria os já sentidos problemas de abastecimento.

Sónia Santos Pereira
Estruturas de betão armado, obras como as barragens e ferrovias necessitam de grandes volumes de aço e de produtos derivados. © Amin Chaar/Global Imagens

Depois de se ver a braços com a escala dos preços dos metais, o setor da construção enfrenta agora a urgência de diversificar os mercados de aprovisionamento devido à guerra na Ucrânia. "Muitos dos produtos em chapa vinham da Ucrânia, mas desde que começou a guerra vêm sobretudo da Índia e da Coreia", revela José de Matos, presidente da Associação Portuguesa dos Comerciantes de Materiais de Construção (APCMC). Manuel Reis Campos, líder da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), relata também a existência de "disrupções associadas a fornecimentos que vinham da Ucrânia, que obrigaram os agentes económicos a encontrar circuitos alternativos de abastecimento". O mercado tem direcionado a procura por aços e derivados para o Egito, Índia e China, adianta.

A falta de produtos metálicos é hoje uma preocupação nas obras, fruto de interrupções nas cadeias de fornecimento e dos tempos de resposta dos produtores. Como frisa Manuel Reis Campos, "têm ocorrido dificuldades pontuais nos mais variados tipos de materiais, incluindo o aço e os derivados, devido aos constrangimentos nas cadeias globais de produção e logística", a que acrescem as "oscilações diárias de preços, a escassez de produtos ou prazos de fornecimento anormalmente longos". Todos estes problemas tiveram início em 2020, com a pandemia, e o conflito na Ucrânia só veio agravar o contexto.

Reis Campos lembra que a cotação do aço em varão para o betão na bolsa de Londres situava-se, no final do terceiro trimestre de 2020, em plena pandemia, nos 455 dólares (464 euros ao câmbio atual), um valor apenas 3% superior ao verificado no fim de 2019. Porém, em dezembro de 2020, o preço fixou-se nos 594 dólares, 30% acima e, no final de 2021, a subida face ao terceiro trimestre de 2021 era já de 54%. Nos últimos meses, regista-se uma certa estabilização nas cotações mas, no entretanto, o euro começou a perder terreno face ao dólar. A título de exemplo, sublinha Reis Campos, a 21 de setembro confirmava-se uma variação nula em termos homólogos, mas "considerando a desvalorização cambial verificamos que, em euros, essa variação é de +17%".

Custos da energia

O horizonte apresenta-se incerto, com a ameaça do deflagrar de outros riscos que podem colocar em causa a execução das grandes empreitadas públicas e também privadas, numa altura em que ainda falta terminar o PT2020 e lançar as obras do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O mais sério, aponta José de Matos, é a possível "interrupção da produção por algumas siderurgias na Europa, nomeadamente em Portugal e Espanha, por causa do comportamento divergente entre a evolução dos preços do aço e os custos da energia". A ex-Siderurgia Nacional, agora Megasa, suspendeu no início de setembro, depois de uma paragem em março, a produção no período noturno devido aos elevados preços da eletricidade e do gás natural.

O aço e os produtos metálicos são essenciais ao setor. "Todas as estruturas de betão armado, estruturas metálicas e obras como as barragens e as ferrovias necessitam de grandes volumes desta matéria-prima", diz Reis Campos, lembrando que o aço e derivados têm uma utilização transversal nas obras, inclusive na reabilitação urbana. Para já, paragens de obras têm sido casos pontuais. "As empresas têm conseguido ultrapassar as dificuldades, quer relacionadas com interrupções de fornecimento ou prazos de entrega demasiado longos, quer relacionadas com a anómala subida de preços", sublinha.

Segundo José de Matos, não há escassez de aço nem de derivados e os principais armazenistas também não comunicaram roturas de stock. "A situação é perfeitamente normal", garante. No entanto, considera, como os preços estão em queda devido à diminuição da procura global e aos stocks que, entretanto, se acumularam, podem surgir problemas como os empreiteiros deixarem as encomendas para o último dia para beneficiar de preços mais baixos causando stress nos fornecimentos ou, como já referido, e esse grave, a paragem das siderurgias.

Os custos da energia são o cerne da questão e transversais à produção de outros materiais imprescindíveis ao setor, como vidros e cerâmicas. De acordo com José de Matos, "existem muitos pequenos problemas de atrasos nas entregas desta ou daquela referência por parte dos diversos fabricantes, sobretudo devido a alterações nos planos de produção para minorar efeitos dos custos com a energia, ou devido a atrasos na chegada de equipamentos ou componentes importados, principalmente da China". Reis Campos reforça que as principais dificuldades "estão relacionadas com o preço e os tempos de entrega que prejudicam todo o processo construtivo e a conclusão das obras", representando encargos muito significativos, "com reflexos importantes na tesouraria das empresas".

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