Reparação problemática reduz comboios na linha de Cascais

Desgaste acelerado dos rodados após intervenção da gestora ferroviária obriga CP a reduzir oferta numa das linhas mais procuradas do país

Diogo Ferreira Nunes
Linha de Cascais © Orlando Almeida/Global Imagens

Quem utiliza a linha de Cascais já reparou que há menos comboios. Nas últimas duas semanas, mais de 200 ligações foram afetadas por problemas com as composições da CP. A causa das anomalias, contudo, não está do lado da operadora, mas sim, da empresa que gere as linhas de caminho-de-ferro, a Infraestruturas de Portugal (IP).

Nos últimos meses, a IP fez uma reparação nos carris da linha de Cascais entre as estações de Caxias e Santo Amaro. Ao misturar carril novo com carril velho, a bitola ficou irregular e desviou-se ligeiramente dos 1668 milímetros regulamentados. Na mesma intervenção, houve vários lubrificadores de via que deixaram de funcionar.

O desgaste dos rodados foi muito mais rápido do que o habitual e a saliência na parte interior das rodas (verdugo) ficou mais pontiaguda, falhando os parâmetros definidos para impedir o descarrilamento das composições.

Fonte oficial da CP confirmou ao Dinheiro Vivo que tem registado "maior desgaste nos rodados das automotoras", o que "levou à necessidade de imobilização de material circulante". A transportadora garantiu ainda que a situação "não coloca em causa a segurança do serviço ferroviário" de uma das linhas mais utilizadas em Portugal.

A IP limitou-se a dizer que a situação "está identificada" e que está a trabalhar em conjunto com a CP para "ultrapassar a situação com a maior brevidade possível".

Enquanto a situação não fica resolvida, acumulam-se os problemas para os passageiros. Desde 6 de outubro que a CP tem reduzido a oferta, sobretudo nas horas de ponta, da manhã e da tarde. Quando é possível, a transportadora põe a circular entre Cais do Sodré e Oeiras uma automotora com quatro carruagens (UQE) em vez de duas automotoras com três carruagens (UTE).

O número de lugares diminui em praticamente um terço: uma UQE pode transportar, no total, 908 passageiros. Se duas UTE vierem em conjunto, a lotação aumenta para 1352 utentes.

Apesar da estratégia, há situações em que a empresa ferroviária tem suprimido comboios. Para evitar ainda mais problemas aos passageiros, os comboios que circulam entre Cais do Sodré e Cascais têm de fazer uma paragem extraordinária em Paço de Arcos.

Na mesma linha foram ainda mudados os isoladores da rede em Cascais. Mas o novo material não está preparado para lidar com a salinidade, o que está a acelerar a sua corrosão.

A linha de Cascais vai ser modernizada até ao final de 2023, num investimento previsto de 75,6 milhões de euros.

Quando as obras estiverem concluídas, a linha de Cascais vai migrar para o sistema de tensão que existe na restante rede ferroviária nacional, dos atuais 1500 volts em corrente contínua para os 25 000 volts em corrente alternada. Esta linha será alimentada por uma nova subestação de tração que será construída em Sete Rios e que terá capacidade para alimentar os mais de 25 quilómetros deste troço.

A modernização da linha de Cascais também contempla a instalação do ETCS, o sistema eletrónico de controlo de comboios; a renovação de estações e a respetiva ligação com outros modos de transporte; a reabilitação de taludes; a intervenção em passagens de nível; e ainda a preparação da ligação desta linha à restante rede ferroviária nacional - que só será concretizada mais perto do final da próxima década, ao abrigo do Plano Nacional de Investimentos.

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