Taxas de juro negativas do BCE acabam em setembro, diz Lagarde

Nova estratégia do BCE deverá ser conhecida em julho, aquando de uma nova reunião da autoridade monetária.

José Varela Rodrigues
Christine Lagarde, presidente do BCE © EPA/RONALD WITTEK

O Banco Central Europeu (BCE) estima subir a taxa de depósitos para valores positivos até ao final do terceiro trimestre, antecipando que a zona euro deixará de ter taxas de juro negativas em setembro. A previsão é de Christine Lagarde, presidente do BCE, de acordo com um texto publicado no site da autoridade monetária, no qual a economista francesa prevê, também, um aumento maior da taxa de depósitos se a inflação estabilizar nos 2%.

Segundo Lagarde, numa altura em que os juros estão em mínimos históricos, antevê-se o fim da compra de dívida no âmbito do programa regular de compra de ativos do BCE (APP-Asset Purchase Programme) "no início do terceiro trimestre", o que permitirá "uma subida das taxas de juro na reunião de julho". "Tendo em conta as atuais perspetivas, deveremos estar numa posição de saída das taxas de juro negativas até ao final do terceiro trimestre", lê-se.

Neste momento, a principal taxa de refinanciamento situa-se nos 0%, enquanto a taxa de juro aplicável à facilidade de cedência de liquidez está nos 0,25%. Mas a taxa de facilidade de depósito está por estes dias fixada nos -0,5%, o que significa que os bancos estão a pagar pelo dinheiro que têm dinheiro depositado no BCE. Esta taxa de facilidade de depósito está em valores negativos há quase oito anos como forma de levar os bancos a não guardarem o dinheiro e, pelo contrário, financiarem empresas e famílias.

Todavia, o cenário alterou-se e a política monetária "mudou significativamente" face ao contexto anterior à pandemia. A taxa de inflação homóloga acelerou 7,4% na zona euro, em abril (menos 0,1 pontos percentuais face a março). Na União Europeia, a inflação ascendeu a 8,1%. Numa altura em que o risco dos preços elevados é real, agravado sobretudo pela escalada dos preços energéticos e por disrupções nas cadeias de abastecimento, a evolução dos preços justifica a mudança para o BCE. Por isso, Lagarde conclui: "As ferramentas que estávamos implementando naquela época, destinadas a combater uma inflação muito baixa persistente, não são hoje as mais apropriadas".

O BCE terminou em março o Programa de Emergência Pandémico, mas continua em curso o referido APP, que é o programa regular de compra de ativos por parte do banco central. As aquisições líquidas mensais no âmbito do APP ascenderam a 40 mil milhões de euros em abril, segundo o anunciado na última reunião do BCE. Em maio, prevê-se que as compras totalizem 30 mil milhões de euros e, em junho, 20 mil milhões de euros em junho.

Os analistas têm antecipado uma aceleração do fim do programa de compras de dívida e subida dos juros, algo que o BCE também tem sinalizado. O artigo desta segunda-feira da presidente do BCE evidencia que o banco central poderá agir com mais força.

"Se virmos que a inflação estabiliza nos 2% no médio prazo, uma normalização progressiva das taxas de juros em direção à taxa neutra será apropriada". Não obstante, Lagarde, refere que "a normalização" da política monetária "deve ser cuidadosamente calibrada" face às condições que as economias europeias atravessam. Isto, porque o BCE é "sensível a movimentações passo a passo, observando os efeitos na economia e nas perspetivas de evolução da inflação, enquanto as taxas de juro vão subindo", num contexto de "choques de oferta" e restrições provocadas ainda pela pandemia e pela guerra na Ucrânia. "Mas também não estamos perante uma situação direta de excesso de procura agregada", escreve Lagarde.

"A próxima fase da normalização terá de ser guiada pela evolução das perspetivas de inflação a médio prazo", realçou a líder do BCE, explicando que "o ritmo e dimensão dos ajustamentos não podem ser determinados ex ante ".

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