Tinta da China: 16 anos de independência num país de poucos leitores

A Tinta da China, uma editora independente, publica em Portugal autores como Ricardo Araújo Pereira, Dulce Maria Cardoso e José Pacheco Pereira.

Ana Laranjeiro
 © Leonardo Negrão/Global Imagens

Aos 16 anos de vida, a editora independente de livros Tinta da China navega por uma pandemia com gestão apertada de custos, num país onde a literatura não é tão relevante quanto em outros Estados do Velho Continente. Embora Bárbara Bulhosa, uma das fundadoras, considere que a "explosão" dos smartphones e das plataformas de streaming tenha sido a "maior transformação" que o setor atravessou nos últimos anos, a pandemia também deixa marcas. A menos de um mês do Natal, a líder da Tinta da China acredita que, sem condicionamentos ao comércio, a época pode ser interessante. Mas vamos por partes.

A Tinta da China nasceu em 2005 pela mão de Bárbara Bulhosa, Inês Hugon e Vera Tavares. "Trabalhei durante oito anos numa rede de livrarias - a Bulhosa Livreiros. Formei-me em História, fui trabalhar com livros e, em 2004, saí. Fui fazer uma pós-graduação em Técnicas Editoriais na Faculdade de Letras e decidi fazer uma editora", começa por contar Bárbara Bulhosa. Com um gosto pelos livros desde "muito nova", resolveu desafiar as duas colegas de faculdade - Inês Hugon e Vera Tavares - para se juntarem. Bárbara e Inês estavam desempregadas e optaram por utilizar o mecanismo de apoio que permite aos cidadãos receber o valor do subsídio numa tranche para criarem o auto-emprego.

"A Tinta da China surge como a possibilidade de criarmos o nosso próprio emprego. Como trabalhava há muito tempo com livros, tinha uma perspetiva comercial, o que foi importante, porque sabia o que queria e não queria fazer. Uma das competência que tinha na Bulhosa era a da importação" e, quando avançámos com a editora, "percebi que havia uma série de livros que poderiam ter vendas e que não estava a haver uma aposta no mercado português, pelo menos, com a perspetiva que tínhamos", conta.

O pontapé de arranque foi com livros de história militar e depois, aproveitando a febre dos blogues, partiram em busca de autores. "A explosão dos blogues tinha sido uns anos antes. Houve uma série de pessoas que seguia em blogues que convidei para publicarem, nomeadamente o Rui Tavares" e Pedro Mexia. "Foi assim que começámos: com autores portugueses da nossa geração - a geração de 70 - que não estavam ainda publicados, pelo menos, não de uma forma consistente, e também procurando explorar outras áreas que pensávamos que poderiam ter viabilidade comercial", sintetiza.

Atualmente, a Tinta da China tem um portfólio com dezenas de autores - portugueses e estrangeiros - que escrevem, por exemplo, poesia, romances, passando pelos clássicos e pelo humor. Alguns dos seus autores são bem conhecidos dos portugueses: além de Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira, Dulce Maria Cardoso e mais recentemente Mariana Mortágua, com um livro recente.

Desafios
Portugal é um país que lê pouco comparado com outros europeus. Ao longo de 16 anos, Bárbara Bulhosa reconhece que "várias coisas mudaram" e não apenas para a editora. "A pandemia é a mais recente. Antes disso, tivemos a explosão dos smartphones e das plataformas de streaming.

Acho que isso tirou público aos livros. As pessoas continuaram a consumir ficção e documentários, mas de uma forma diferente, e isso põe em causa o tempo que temos para ler", defende. "Essa mudança de paradigma foi a mais violenta para o leitor do livro. Do que assisti ao longo da minha vida, foi a maior transformação", acrescenta.

Tal como o restante setor do livro, a Tinta da China sentiu na pele os efeitos dos confinamentos. "Tivemos uma quebra brutal, deixámos de faturar durante meses", assume. Ao abrigo dos apoios por causa da covid, a editora recorreu à banca e parou a impressão de livros. Houve necessidade de "tomar medidas de gestão muito apertadas, de maneira a tentarmos passar aquela fase", e guardar exemplares para quando abrissem ter "bons livros para lançar".

Ao Dinheiro Vivo, antes do anúncio das medidas mais recentes - que ao contrário do ano passado não impõe limites horários ao comércio, nem de lotação -, Bárbara Bulhosa apontava que o Natal poderia correr bem se não houvesse receios no mercado. "A Feira do Livro correu lindamente. Muita gente a comprar. Acho que também porque durante muito tempo as livrarias estavam fechadas. Sentiu-se que havia uma adesão das pessoas que gostam dos livros. Se o Natal correr naturalmente isso vai acontecer", dizia. "Se voltamos a um confinamento ou a um semiconfinamento, se a pandemia voltar e as pessoas tiverem mais medo e não quiserem ir aos shoppings, aí, o Natal do livro poderá ser afetado", remata.

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