Trojan Horse was a Unicorn. Tribo de criativos digitais garante emprego às grandes produtoras

Evento de entretenimento digital volta a Portugal na próxima semana após três anos de ausência. Vai nascer uma plataforma para gerir talento e um fundo de investimento de 10 milhões de euros. No fim de 2022 abre o primeiro laboratório, em Lisboa

Diogo Ferreira Nunes
André Lourenço Luís, fundador do evento Trojan Horse Was a Unicorn (THU) © Paulo Spranger/Global Imagens

Desde 2013, Trojan Horse Was a Unicorn (THU) foi sinónimo de uma experiência de seis dias para os talentos na área do entretenimento digital inspirarem-se com as pessoas que ajudaram a produzir os maiores sucessos de filmes, séries e jogos das últimas duas décadas. A tribo juntou-se nos primeiros cinco anos em Troia e, em 2018 e 2019, passou por Malta. O regresso a Portugal dá-se na próxima segunda, dia 20.

A pandemia, no entanto, permitiu ao THU transformar-se numa verdadeira empresa, com 30 pessoas a tempo inteiro. Garantir emprego às grandes produtoras mundiais e arrecadar dinheiro para reinvestir na tribo serão os principais objetivos. André Lourenço Luís é o português que fundou o THU e contou ao Dinheiro Vivo como está a contribuir para essa transformação.

"As grandes empresas, como a Netflix, HBO, Disney e afins estão desesperadas por talento. Ao mesmo tempo, começámos a perceber que havia várias lacunas na indústria ao nível do empreendedorismo, recrutamento, novos talentos, investimentos e falta de histórias. As empresas, como conhecem a comunidade do THU, estão a dar-me as condições para lhes poder arranjar os talentos."

As falhas do mercado serão resolvidas passo a passo. A comunidade de milhares de criativos do entretenimento digital levou oito anos a ser angariada e vai estar reunida na plataforma VILLAge. Acessível através de uma aplicação móvel e organizada como se fosse um jogo, a solução será a principal fonte de receita do THU graças ao patrocínio de grandes empresas tecnológicas. Mesmo antes do lançamento, já foram investidos 600 mil euros.

O lançamento de um fundo de investimento de 10 milhões de euros é o segundo passo e contará com a dona da SIC, a Impresa, como uma das participantes. "Pela primeira vez, Portugal tem um fundo para apoiar protótipos nas indústrias criativas. Apenas poderão candidatar-se pessoas da nossa tribo e, depois, as ideias vão entrar para um "lago dos tubarões", que designamos de Creators Circle".

Como num fundo de capital de risco, se os produtos começarem a ganhar dinheiro, o THU vai ficar com uma parte das receitas. "Podemos encontrar um novo Candy Crush Saga" , espera André Luís. Mas os ganhos depois serão reinvestidos na comunidade "e o próprio criador terá de apostar num futuro projeto, assumindo a passagem de testemunho. As pessoas que têm sucesso têm de dar de volta à sociedade".

Também para estimular a criatividade digital nos jovens entre 18 e 30 anos, até ao final deste ano, arranca a segunda edição da Sony Talent League. A iniciativa patrocinada pela tecnológica japonesa apoia projetos que cruzem áreas como filmes, jogos, animação, realidade virtual, música, fotografia, ilustração e storytelling. Os vencedores terão acesso a mentoria, financiamento e bilhetes grátis para os eventos do THU.

Quem procurar um emprego na área poderá participar, em dezembro, no Career Camp. Considerado o maior evento de recrutamento da indústria, vai juntar 50 empresas a 2500 talentos. O formato é remoto para estimular a participação de pessoas "que não se dão muito bem em ambientes muito aglomerados ou que simplesmente não têm dinheiro para comprar os bilhetes para o THU."

Em maio do próximo ano, o THU vai voltar a organizar o retiro de narrativas. A cidade de Kaga, no Japão, vai receber "as melhores mentes do mundo para perceberem qual será o próximo passo em termos de conteúdo". Apenas serão aceites duas centenas de participantes, que terão de inscrever-se e ficarão sujeitas ao escrutínio da organização.

A entrevista com André Luís foi feita na zona do Chiado, em Lisboa. No final do próximo ano será criado um laboratório para trabalhar os cinco sentidos. Com investimento de 1,4 milhões de euros, o espaço será desenvolvido em parceria com a Sony e ainda procura algum financiamento externo. "Poderemos acolher os lançamentos da empresa em Portugal e receber os artistas criativos, em 10 apartamentos de luxo, totalmente personalizados, no mesmo prédio. Também haverá programas todos os anos para capacitação de 30 jovens com necessidades especiais", revela.

Governo atrás do THU
Todos os novos projetos vão chegar ao mercado depois de a covid-19 ter impedido a realização do evento presencial no ano passado. 2020 acabou por ser "o melhor ano de sempre" para o THU: "Perdemos dinheiro sempre que organizamos um encontro presencial. Já é uma decisão minha, porque quero organizar tudo com grande personalização, mas não podemos aumentar o preço do bilhete", assume André Luís.

O evento saiu de Portugal em 2017, perante a falta de apoios do Estado. Mas o regresso às origens começou a ser discutido dois anos depois, através da ministra da Cultura. "Graça Fonseca nunca desistiu de me convencer a voltar cá. Foi preciso mais de um ano de conversa, de negociações e de me mostrar vontade. Fizeram-me acreditar que é possível criar uma indústria criativa em Portugal."

Depois de o THU ter conquistado dimensão internacional, não faltaram propostas do estrangeiro. "Madrid, Paris, Londres e outras capitais fizeram ofertas tentadoras. Financeiramente, seria um espetáculo e nem teria de me preocupar com a parte logística. Só que a experiência "fica melhor em sítios onde não há indústria e onde é possível acrescentar valor".

Na edição deste ano do festival, apenas estarão presentes cerca de 240 participantes e 30 oradores. As restrições sanitárias obrigaram o evento a voltar às origens.

Ainda assim, há novidades no Oásis, o espaço principal: parte da comida servida terá origem em quintas locais, os visitantes vão receber uma essência para "reconhecerem o cheiro do THU" e ainda serão colocados ecrãs gigantes pelo espaço, que vão mudando de cor para os participantes "ganharem energia e adrenalina". "É como se mudassem para um sítio completamente novo várias vezes por dia", explica o organizador.

O que não muda é a vontade de André Luís colocar Portugal na rota do entretenimento digital, uma indústria que deverá atingir neste ano receitas de 294,8 mil milhões de dólares (cerca de 250 mil milhões de euros).

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG