BCE

Rescaldo. Analistas desiludidos com falta de ação do BCE

Mario Draghi. Fotografia: REUTERS/Francois Lenoir
Mario Draghi. Fotografia: REUTERS/Francois Lenoir

Mercado esperava novidades sobre alterações à política monetária e alargamento do programa. Previsões de crescimento mostram estagnação.

Depois de muita expectativa em relação às alterações que o Banco Central Europeu (BCE) podia implementar na sua política monetária as novidades foram praticamente nulas, desiludindo o mercado.

Mario Draghi manteve as taxas de juro inalteradas e reforçou apenas que o plano de compra de ativos de 80 mil milhões mensais é para continuar e podia prolongar-se depois de março de 2017 mas garantiu que o alargamento do programa não foi discutido – apesar de ter revelado que os comités do BCE estavam a estudar outras opções de ativos que o BCE poderá comprar para ultrapassar a cada vez menor disponibilidade de ativos que são elegíveis para o programa de quantitative easing (QE) do banco central.

Veja o vídeo: Eu explico. O que é a bazuca e o Quantitative Easing.

Os analistas contactados pelo Dinheiro Vivo mostraram-se desiludidos com a ausência de indicações sobre o futuro da política monetária do BCE. “Alguns investidores esperavam um pouco mais do BCE já nesta reunião. No entanto, Draghi deixa tudo em aberto”, refere Eduardo Silva, da XTB. “O BCE quer confirmar a necessidade de se prolongar o QE e para isso irá naturalmente anunciar a continuidade com mais dados na sua posse”, acrescenta o analista, dizendo ainda que “uma primeira leitura sugere divergência e pressões de países como a Alemanha”.

Rui Bárbara, economista do banco Carregosa, diz que “a deceção, que foi notória, diz-nos duas coisas: primeiro, que os mercados estão excessivamente dependentes dos bancos centrais. Depois, que a política monetária, mesmo a não ortodoxa, já está muito esgotada, praticamente sem que restem alternativas”, frisando que o anúncio feito pelo BCE representa uma reafirmação dos planos em curso.

Para a equipa de research do BiG “o destaque acaba por ser a falta de novidades. A ligeira revisão económica em baixa era o esperado mas pensamos que os investidores esperavam algo de novo, fosse em termos de quantidade, extensão, ou mudança de regras/limitações do programa de compra de activos. Tudo o que Draghi entregou foi disponibilidade para tal, limitando-se a incluir a possibilidade de estender o horizonte do programa de compra de ativos para além de março de 2017”.

“Também ficámos um pouco desiludidos com a maneira como Draghi fugiu a grande parte das perguntas, dizendo que os temas ainda não tinham sido discutidos pelo comité”, frisa a equipa de research do BiG, dizendo que o BCE provavelmente deixará novos anúncios para “quando o mercado realmente precisar”.

Já Albino Oliveira, da Patris Investimentos refere que “o BCE permanece em “wait and see”, analisando a implementação do atual programa QE”. Draghi disse que o BCE faria tudo o que fosse necessário mas considerou que, de momento, as alterações não justificavam qualquer decisão relativamente ao programa de estímulos.

Os analistas da Capital Economics dizem que “alguns analistas, tal como nós, esperavam que o banco estendesse a compra de ativos por mais seis meses, até setembro de 2017, e o BCE não entregou isso. Além disso, Draghi não deu qualquer garantia forte de que um reforço da política monetária estava prevista para breve”.

“Esperamos que o BCE estenda o plano de compra de ativos até setembro de 2017 e que isso seja anunciado em dezembro ou até antes”, acrescenta a casa de investimento numa nota a que o Dinheiro Vivo teve acesso.

Já José Lagardo, da Orey Financial, desvaloriza: “o mercado tinha alguma expectativa nesse sentido, no entanto o BCE tem um mandato claro de estabilidade de preços. Com as projeções de inflação para 2017 em 1,3% e de 1,5% em 2018 o BCE uma vez mais não viu que existisse alguma urgência na alteração das atuais condições”,

Os analistas contactados referem que as previsões de inflação (que se manteve praticamente inalterada) e crescimento (revisto com uma baixa ligeira) são semelhantes às anteriormente divulgadas e, para Eduardo Silva, “podem obrigar ao prolongamento do programa, bem como questionar a eficácia do plano atual, que não tem servido de catalisador de crescimento ou inflação até ao momento.

Para Rui Bárbara, os dados confirmam que “vamos continuar com baixo crescimento na Europa”.

Já a equipa de research do BiG diz que “a revisão das estimativas de crescimento da inflação e crescimento acabam por não ser muito surpreendentes, em função da sua magnitude. Parece-nos que as diferenças em causa são relativamente subtis, ainda que acabem por espelhar um conjunto de riscos (tanto endógenos como exógenos) que pairam sobre a atividade económica da Zona Euro”.

Os analistas do banco destacam, neste ponto, “a relativa ineficácia do BCE no que respeita a tentativa do pick-up da inflação, o impacto do Brexit em curso, a extensão e dinâmica do ciclo económico vigente, isto para além da continuação de riscos políticos que poderão fraturar ainda mais a incipiente arquitetura da Zona Euro”.

José Lagarto refere que “a previsão para a inflação core foi de 1,3% para 2017 e 1,5% em 2018 que poderá ser um pouco otimista, considerando o cenário atual”.

“De uma maneira geral, por não alterar o enquadramento em termos de inflação e de crescimento que vinha já da reunião de junho. Ou seja, um ritmo gradual de crescimento económico e pressões inflacionistas modestas no imediato, com a expectativa em como a taxa de inflação irá gradualmente aproximar-se da meta de médio prazo dos 2% do Banco Central Europeu”, diz Albino Oliveira.

Ainda assim, e apesar da baixa inflação, todos os analistas contactados pelo Dinheiro Vivo afastam a possibilidade de ser usado o helicóptero de dinheiro (entregar dinheiro diretamente aos contribuintes).

O tom do presidente do BCE foi mais positivo mas cauteloso, dizendo que os sinais mostram que a politica do BCE está a fazer efeito – frisando que o financiamento à economia começa a ser uma realidade – mas que é preciso continuar atento ao comportamento da economia e da inflação, sobretudo no ambiente de baixas taxas de juro, que colocam muitos desafios ao setor bancário.

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