Analistas: “Se risco político se materializar em risco-país poderá haver efeitos em cadeia”

Analistas comentam emissão de dívida de Portugal
Analistas comentam emissão de dívida de Portugal

Os analistas consideram que, no curto prazo, não existe o risco de instabilidade em Portugal apesar de um governo minoritário. No entanto, alertam que se o risco político se materializar em risco-país poderá haver vários efeitos em cadeia, como o acesso mais dificultado a fontes de financiamento.

“Numa perspetiva política existirá sempre esse risco enquanto durar esta legislatura”, diz João Queiroz. Em declarações ao Dinheiro Vivo, o diretor de negociação da Go Bulling – Banco Carregosa explica que “no caso dos temas mais relevantes como controlo da despesa e da redução do stock de dívida pública, diminuição do peso do endividamento face ao PIB, se houver dificuldades em se aprovarem medidas que as afetem, então teremos adicionalmente o agravamento do risco soberano”.

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Steven Santos salienta que “a curto prazo, o mercado não está a descontar uma maior ponderação do risco político, tendo reagido positivamente à vitória dos partidos mainstream, que pretendem respeitar os compromissos até agora assumidos em termos de política económica e orçamental”. Quanto a médio prazo, o gestor do BiG, considera que “a eventual instabilidade dependerá do resultado das negociações que, necessariamente, terão de acontecer entre partidos com ideias e objectivos diferentes”.

No caso de Albino Oliveira, o analista da Fincor também divide a sua análise entre o curto e o médio prazo. Se no primeiro caso “o risco estará provavelmente relacionado com a capacidade de a coligação de direita conseguir (ou não) formar governo e aprovar no Parlamento o Orçamento de Estado para 2016 (até 15 de outubro)”, já no médio prazo “poderá ter consequências no que se refere a limitar a capacidade de o governo em avançar com as medidas/reformas necessárias, o que poderá, por exemplo, ter eventualmente implicações em termos da revisão do rating da República Portuguesa para Investment Grade“.

Efeitos práticos da instabilidade

Albino Oliveira admite que os efeitos em termos práticos serão “provavelmente limitados”, não só porque “o enquadramento atual é agora de crescimento económico para Portugal e para a Zona Euro”, mas também “fruto da política monetária bastante expansionista do Banco Central Europeu, nomeadamente no que se refere ao programa de compra de obrigações soberanas em mercado secundário”.

Steven Santos considera consoante o desenvolvimento das negociações para formar governo, o maior impacto poderá traduzir-se “no agravamento dos juros da dívida no mercado secundário”. Mas “uma vez que o IGCP tem apostado no pré-financiamento e na captação de poupanças junto do segmento de retalho, não existe pressão para emitir nova dívida a curto prazo, pelo que não há preocupações para o mercado primário”.

Mais explícito, João Queiroz vai mais longe ao alertar que “se o risco político se materializar em risco país (risco da dívida soberana) poderá haver, teoricamente, vários efeitos em cadeia”. E que efeito são esses? “O aumento dos prémios de risco passa para o serviço da dívida, o acesso a fontes de financiamento fica mais dificultado, o sector bancário fica mais pressionado no acesso a liquidez, haverá porventura piores notações de risco do que as necessárias para ter acesso a crédito, maiores encargos para as empresas, e saída das empresas mais competitivas internacionalmente”.

Orçamento deverá ser aprovado

Apesar de minoritário, o governo de coligação deverá conseguir aprovar o Orçamento de Estado para 2016. “A tarefa é naturalmente dificultada pelo governo de minoria. Resta à coligação de direita estabelecer acordos com o PS, outro partido Europeísta e naturalmente interessado em manter uma evolução de redução gradual do défice das contas públicas e assim evitar um novo período de instabilidade, uma vez que o enquadramento da economia Portuguesa continua a apresentar riscos, tendo em conta os elevados níveis de envidamento público e privado”, prevê Albino Oliveira.

Por seu turno, João Queiroz salienta que tudo “deverá depender dos acordos que conseguir reunir e negociações que efetuar, tornando o racional muito mais político que económico”. “Ou seja, terá de estabelecer uma relação mais estreita com a oposição que permita que República possa avançar nos temas nucleares para se poder manter o apoio dos principais parceiros, o que é mais relevante se considerarmos as acuais incertezas que envolvem a economia global e Europeia”, explica.

Steven Santos qualifica de “grande incógnita para as próximas semanas” saber se “o apoio ao Orçamento de Estado vai ser conseguido”. “O cumprimento das políticas económicas acordadas com os parceiros europeus parece-me ser uma questão pacífica, devido à baixa expressão dos partidos eurocépticos na Assembleia da República”, estima.

Eleições antecipadas a caminho?

“Não é inevitável, mas pode ser possível”, admite João Queiroz, para quem “dependerá da aprovação e implementação das medidas cruciais para se expansão da economia e da inerente evolução da perceção do risco soberano”.

Albino Oliveira lembra que “o histórico de governação de governos minoritários em Portugal sugere que existe o risco de eleições antecipadas”. A confirmarem-se, as eleições antecipadas poderiam “trazer alguma volatilidade acrescida, embora provavelmente limitada pelas razões acima mencionadas: enquadramento de crescimento económico em Portugal/Zona Euro e política monetária bastante expansionista por parte do Banco Central Europeu”.

Steven Santos prefere deixar o aviso: “Embora ambos os partidos mais votados sejam mainstream e não partidos eurocépticos, o eventual overhang gerado pela divergência dentro do governo ou por eleições antecipadas poderá ter uma leitura negativa para os activos financeiros portugueses”.

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