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Ângelo Ramalho: “Já negociámos a saída de 200 pessoas”

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Anunciou um despedimento coletivo e na quarta-feira enfrentará uma greve. Ainda assim, o CEO da Efacec prevê contratar 700 pessoas até 2020

A Efacec está em mais de 65 países e tem 70 anos de atividade, é liderada por Ângelo Ramalho, que no próximo dia 23 terá de enfrentar uma greve de trabalhadores. A agitação laboral e a estratégia da empresa dão o mote à conversa.

A Efacec conseguiu aumentar os resultados líquidos consolidados de 4,3 para 7,5 milhões de euros, resultados apresentados esta semana. O que é que explica estes resultados?

Antes de mais referenciar que 2017 confirma a competitividade e sustentabilidade da Efacec, não só pelo resultado líquido mas por uma série de indicadores que demonstram que a empresa hoje é já uma empresa de futuro. Em 2016, pela primeira vez desde há muitos anos, conseguimos resultados líquidos e em 2017 confirmamos esses resultados positivos. Em 2017 crescemos 22% em novas encomendas e foi um ano onde entraram cerca de 500 milhões de euros de novas encomendas e isto é falar do futuro da empresa. Melhoramos do ponto de vista das operações e da margem operacional e melhoramos o nosso ebita em cerca de 1 milhão de euros. No final do dia, o resultado líquido traduz também esta melhoria significativa da performance da empresa. Mas estes são ainda pequenos passos de um longo caminho que a Efacec está a percorrer.

Com pedras?

Tem pedras mas temos de as contornar. É um caminho da competitividade, do ponto de vista dos produtos e soluções que desenvolvemos, dos mercados em que estamos inseridos e dos concorrentes que temos de enfrentar, muitos que são multinacionais que têm negócio da dimensão do PIB português. Isto dá uma noção da grandeza das situações com que nos deparamos no dia a dia.

Uma dessas pedras tem que ver com a reestruturação. Quando é que a reestruturação estará terminada, e porquê a necessidade deste despedimento coletivo que foi anunciado?

A empresa está a crescer e também em número de pessoas. A Efacec é uma empresa de conhecimento que convertemos depois em tecnologias, que convertemos depois em serviços e projetos mas na base são as pessoas porque são elas que detêm o conhecimento e não as máquinas. 2018 é o primeiro ano de um processo de crescimento também em número de pessoas. Precisamos de mais competências e mais capacidade, precisamos de mais talento. Ao fazermos 70 anos chegamos aqui porque a empresa também é uma empresa de talento mas hoje no mercado competitivo, no mundo em mudança de paradigma, o talento é a questão estrutural na vida das organizações empresariais. Captar, desenvolver, reter talento e o talento não está só nas pessoas altamente qualificadas do ponto de vista académico – também os temos – está em todos os níveis da organização, mesmo ao nível do chão de fábrica. Neste processo de crescimento temos uma unidade de negócio que tem decrescido. Nos últimos anos a unidade de negócio de transformadores e em particular na linha de transformadores de potência teve uma redução de mais de 40% de mercado. 40% em 3 anos é uma violência do ponto de vista da redução de mercado. Esta realidade afeta todos os concorrentes em todas as geografias. Há concorrentes nossos que estão a fechar unidades industriais desta natureza na Europa.

Porque deixaram de ter procura?

Não os vou citar porque seria falta de cortesia da minha parte. Um deles foi em Portugal, uma fábrica de transformadores que fechou há dois anos. A fábrica de transformadores da Efacec tem todo o futuro se soubermos cuidar dela, se percebermos a realidade de mercado em que operamos e ajustarmos as nossas capacidades a essa realidade de mercado. É nesse contexto que num processo prolongado no sentido de maturado chegamos conclusão de que tínhamos 49 pessoas para quem tínhamos de encontrar um futuro diferente que não na unidade de transformadores. E desde há cerca de 2 anos, em programas de mobilidade interna que a empresa tem permanentemente abertos, procuramos realocar as pessoas noutras unidades de negócio e onde houvesse uma adequada adaptação de perfil da pessoa e da função em causa. Em contraponto com a realidade desta unidade de transformadores, a unidade elétrica está em crescimento exponencial e é em potencial um forte empregador. Resultou daqui que há um grupo de trabalhadores que se recusam a procurar uma solução alternativa para postos de trabalho que eles continuam a querer defender mas que em boa verdade não existem. Para essas situações anunciamos recentemente, numa situação bem ponderada, uma intenção de despedimento coletivo. Até lá há toda a oportunidade para conseguirmos encontrar consenso para resolvermos estas situações.

Esse despedimento anunciado era de 21 trabalhadores mas acabou de falar de 49. Haverá mais?

Estes 21 são o remanescente de um grupo de 49. Houve 28 com quem foi possível ou encontrar uma nova função dentro da empresa ou uma solução negociada para a sua saída que envolve um pacote negocial que os leva a uma nova condição de emprego que não será a Efacec.

O que está a dizer é que a empresa não teve alternativa e que avançou para o despedimento coletivo porque os trabalhadores não deixaram alternativa?

Em bom rigor é isso.

A empresa está disponível para voltar atrás na intenção do despedimento coletivo…

Não.

… se estes trabalhadores quiserem negociar?

Certamente que o processo de negociação está sempre aberto.

Para serem realocados ou para saírem da empresa?

Depende das situações, temos de ver caso a caso.

Se algum dos 21 trabalhadores mudar de ideias e quiser ser realocado, a empresa está disponível?

É importante que converse connosco.

O senhor garantiu que não ia haver despedimentos na Efacec. Aliás uma das críticas que lhe é feita, sobretudo por parte do BE, é ter dito no Parlamento que não ia haver despedimentos e agora haver um coletivo de 21 pessoas. O que aconteceu foi isto que acabou de explicar… não deu o dito pelo não dito?

O que disse no parlamento está disponível na internet, na íntegra. E eu não disse isso. O que disse foi que a empresa desenvolve todas as soluções negociais com vista a obtermos colocação ou saída negociada para cada um desses trabalhadores mas disse também de forma clara que usaríamos de todas as prerrogativas que a lei nos permite para que estas situações se resolvessem. O caminho foi claramente assinalado. Não há dito por não dito, não há informação e desinformação.

Acha que este processo dos 21 trabalhadores está a ser orquestrado pelos sindicatos? Nos 21 estão cinco delegados sindicais.

Não queria comentar isso porque obviamente que as comissões de trabalhadores e os sindicatos fazem o papel deles e é com toda a legitimidade e contra isso, nada.

Quando os sindicatos acusam a empresa de estar a fazer uma purga, isso merece-lhe algum comentário?

Deixe-me pôr a questão ao contrário. Porque as pessoas são sindicalizadas ou porque têm uma função numa comissão de trabalhadores não são elegíveis para programas destes? Certamente que não, certamente que não. O critério com que chegamos a este grupo de pessoas é um critério robusto e sobre eles faremos prova junto das entidades competentes que supervisionam estes processos.

Falando ainda da reestruturação, desde julho do ano passado terão saído cerca de 150 colaboradores da empresa. Qual é o número total que a empresa pretende reduzir?

A empresa não pretende reduzir…

Ou a substituir por novas competências?

A empresa está a crescer. Esta empresa de conhecimento que se posiciona para mercados cada vez mais competitivos com soluções cada vez mais desenvolvidas do ponto de vista de requisitos dos nossos clientes – estamos a falar numa indústria de tecnologia – impõe-nos primeiro que saibamos quais são as necessidades do mercado e tentar antecipá-las, de preferência, e desenvolvermos as nossas competências para lhes darmos resposta. Isto da gestão das pessoas é uma das atividades mais críticas nas empresas e tem de ser muito cuidada. O importante é em cada momento percebermos se temos as pessoas certas para os objetivos a que a empresa se propõe. Este processo passa sempre por reforço e competências, requalificação, formação.

Aproveito o momento para ilustrar o que estamos a fazer nessa matéria: este ano acabamos de anunciar a nova master academia Efacec, onde procuramos reforçar competências, do lado comportamental, da liderança e da gestão, das questões mais tecnológicas, mais até em sentido estratégico do que da tecnologia em si, as questões da diversidade, a igualdade de género são questões que hoje fazem parte das nossas preocupações e estão em mutação permanente. A mudança é a rotina de hoje e quem não compreender isto tem mais dificuldade em contribuir para o desenvolvimento das organizações e em viver dentro delas com níveis de ansiedade controláveis. O que queremos são pessoas de mente aberta, disponíveis para a mudança, que sejam elas próprias motores de mudança, líderes em processos de mudança e é com estes princípios que vamos procurando motivar e alinhar toda a gente para que todos os objetivos a que nos propomos vão sendo construídos dia a dia.

Os momentos bons são quando recrutamos, os menos bons são quando temos de fazer ajustamentos seja de que natureza forem. As pessoas quando chegam ao fim da sua vida útil saem das empresas porque se reformam, as pessoas algures durante a sua vida profissional fazem momento de inflexão e saem das empresas porque encontram projetos mais interessantes ou também as empresas e as pessoas chegam a acordo porque naquele momento os seus interesses não convergem e há uma situação negociada que os faz mudar de rumo. É esta dinâmica que temos de saber gerir de forma equilibrada porque quando se trata de pessoas, trata-se sempre do principal ativo das organizações.

O governo alargou a extensão do estatuto da empresa em reestruturação para áreas como a energia e a engenharia que previa a possibilidade de rescisão com 409 trabalhadores entre 2017 e 2019. Tendo em conta o que acabou de dizer posso deduzir que não conta rescindir com mais ninguém…?

Esse estatuto foi pedido em 2013 e terminaria em 2016 e nesse ano pedíamos a sua extensão até ao final de 2018 e de facto previa a possibilidade de negociarmos de forma amigável com 409 pessoas. Não chegaremos lá mas há um número significativo de pessoas com quem já negociamos.

O que é um número significativo?

Cerca de 200 pessoas. E o número que temos previsto para 2018 é este que já aqui falamos. Esse programa terminará no final do ano.

Já negociaram com cerca de 200 e contam chegar a quantas, não chegando às 400?

Os números são 200 e algumas pessoas.

Vai ficar pela metade, na prática?

Pouco mais de metade possivelmente. Devo sublinhar, uma vez mais, que são soluções negociadas e de interesse de ambas as partes.

Está marcada uma nova greve parcial para 23 de maio devido a esse despedimento. Que comentário lhe merece? 2017 e 2018 têm sido anos marcados por forte instabilidade laboral…

O comentário é simples. O direito à greve é um direito de todos os trabalhadores e nós temos o maior respeito por isso. Se me perguntar se as greves são justificadas, do meu ponto de vista não.

É parcial porquê? É só nos transformadores de potência que vai acontecer?

Não, é no sentido em que será de 2h no período da manhã e 2h no período da tarde. Está convocada e não se justifica, como não se justificaram as greves anteriores. Aliás tiveram uma adesão mínima e a empresa manteve a sua laboração normal. Bem sei que isto depois comentado entre os trabalhadores e de quem os representa tem uma perspetiva diferente.

Sem este processo de rescisões amigáveis e sem esta reestruturação, a viabilidade financeira da empresa ficava em causa?

Claro que sim. A empresa tinha e continua a ter, hoje com uma intensidade menor e num contexto de rotina, a capacidade de se adaptar às realidades de mercado que enfrenta, é público que a Efacec viveu um período de dificuldades prolongadas entre 2010 e 2015, que esteve em rutura, em falência técnica e é evidente que quando as organizações empresariais chegam a este limite, imediatamente a seguir são necessárias terapêuticas de gestão que as reavivem, que lhes criem dinâmicas novas e que as foquem em objetivos ambiciosos ajustados à capacidade da organização. Como vos ilustrei, são caminhos longos onde é exigido muito foco, muito alinhamento, muita perseverança e certamente que no percurso teremos momentos de discórdia mas o que interessa é o rumo que estamos a dar à organização. Depois desse período longo de depressão, a empresa hoje é já uma empresa de futuro. Dois anos consecutivos de resultados positivos, 2017 claramente melhor de 2016 mas ainda assim um pequeno passo para o que a empresa precisa para ser perene e para que algures daqui a 70 anos esteja aqui alguém a festejar os 140.

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