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António Bernardo: “O modelo económico e social europeu é um modelo de futuro”

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A Europa precisa de ter maior protagonismo, defende o responsável da Roland Berger.

António Bernardo, presidente executivo da consultora alemã Roland Berger para Portugal, Brasil, México, Angola e Moçambique, defende o modelo europeu. Mas avisa que só com liderança a Europa pode ganhar um maior protagonismo no mundo.

Há um abrandamento do crescimento económico mundial, as tensões comerciais entre os EUA e a China e a incerteza política em alguns países pesam na confiança dos empresários. Há o risco de haver uma nova recessão?
Não acho. Vai haver um pequeno abrandamento, mas não há razões estruturais para que haja recessão. Os fundamentais da economia estão bem, os EUA apresentaram um crescimento fantástico no último trimestre e a Europa, ao contrário do que se dizia, também apresentou no trimestre um crescimento acima do esperado. A médio prazo achamos que a economia mundial está relativamente estável e não prevemos uma crise como em 2008.

Na Europa, o crescimento dos riscos políticos é um fenómeno passageiro, ou pode ainda aumentar? E que impacto económico pode ter?
Temos de ultrapassar estes aspetos de pequena política e populistas, que estão a ter um efeito que aparece porque há uma classe média na Europa que tem sofrido e tem perdido poder económico. A Alemanha vai crescer e vai resolver um pouco do seu problema demográfico através da imigração. O mundo precisa da Europa. O modelo social e económico europeu – sei que é contra a corrente o que estou a dizer – é um modelo de futuro. Precisamos de conseguir um protagonismo mais importante da Europa. É com leadership? É. É com lideranças, com mobilização da população, comunicar à população de uma forma melhor, é verdade. No curto prazo acho que estes movimentos populistas vão ter efeito.

A Europa tem um elefante sentado no sofá, o brexit. Será que vai acontecer tal como foi pensado de início?
A minha ideia é que vai haver brexit, mas não vai mudar muito. E felizmente para ambas as partes, porque precisamos de um Reino Unido na UE. Sou completamente antibrexit. Acho que no final ambas as partes vão querer ter uma relação que seja positiva. Penso que o brexit não vai ser o bicho-papão que estávamos a pensar.

No Brasil, como está a assistir à fase pós-Bolsonaro?
O Brasil é um laboratório fantástico porque é uma economia extremamente rica, dez vezes maior do que a economia portuguesa e, por ser uma economia poderosa, aguenta muita coisa. O Bolsonaro, sendo um conservador, conseguiu formar uma equipa muito liberal a nível económico. O Paulo Guedes é um economista de Chicago muito liberal. Nós esperaríamos que já tivessem sido tomadas mais decisões, nomeadamente nas privatizações, em que achamos que há um potencial grande, vendas de ativos.

Vídeo: Empresas portuguesas têm vantagem inequívoca em Angola

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No caso de Angola, como vê as mudanças que ocorreram?
Vejo-as muito bem e estou positivo sobre Angola. Neste ano já lá fui três vezes. Acredito que Angola tem uma grande oportunidade. O que está a ser feito vai a tempo, mas não se pense que se vão resolver os problemas rapidamente. Como usamos as mais-valias do petróleo, quando elas existem, para fomentar a economia? Há 20 anos que vou a Angola e que se diz: “Vamos canalizar as mais-valias, criámos um fundo soberano”, mas depois nada acontece. Hoje vejo uma situação diferente. Acredito que Angola possa estar numa nova fase. Estamos muito envolvidos, queremos ser a vanguarda das empresas alemãs, o carro avançado. Vamos analisar, falar com empresários angolanos e com o governo para preparar a entrada destas empresas alemãs e está a correr bem. Há uma nova visão da Alemanha sobre Angola.

Quais são as principais áreas dessas empresas?
Angola tem um défice enorme em várias áreas, mas maior nas infraestruturas. Eletricidade e energias são básicas. Estradas, ferrovias e aeroportos são importantes. E questões de cariz social, como seja a educação, que é a mola para resolver todos os problemas.

Portugal tem algo a ganhar?
Portugal tem muito a ganhar, mas as empresas têm de ter uma visão de médio e longo prazo. A RB está em Angola para estar nos próximos 50 anos. Houve exageros de pricing, de preços que cobravam, era tudo fácil,… não só de empresas portuguesas mas no geral. As empresas têm de pensar que têm de ajudar a construir e a desenvolver o país. As empresas portuguesas têm uma vantagem competitiva em Angola inequívoca. Nós entendemo-nos bem, não somos arrogantes, somos sérios. Costumo dizer que somos os alemães do sul e os alemães concordam, acham que somos os latinos mais sérios e rigorosos.

Vídeo: Costa conseguiu “um equilíbrio fantástico”. Portugal é hoje um case study

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A evolução da economia portuguesa é positiva. Mas será sólida?
É muito positiva. Portugal está a passar para a fase do 4.0 e tem conseguido desenvolver-se de uma forma muito mais moderna, atraindo sobretudo o terciário avançado. Temos uma base de engenharia muito importante e estamos a criar bases de desenvolvimento em questões como mobilidade, tecnologia e outros serviços como o turismo, etc. Portugal tem tido uma performance muito interessante. Eu costumo dizer que Portugal podia ser a Suíça do sul. Mas deveríamos estar a crescer claramente acima de 2,5%, precisamos de ter uma estrutura económica diversificada, ou seja, não se pense que os serviços resolvem o problema. Temos de ter mais indústria, indústria não poluente e tecnológica. Podemos aumentar o nosso peso na agricultura. Conseguimos ter culturas que aparecem mais cedo no mercado. Estou muito positivo sobre o desenvolvimento de Portugal, sobretudo se conseguirmos implementar esta visão estratégica.
Mas temos uma economia assente em salários baixos e uma pressão sobre a classe média.

Ainda temos. Há um problema importante de desigualdade em Portugal que tem de ser combatido, mas isso só se consegue com crescimento económico. Estamos a atrair mais investimento internacional. Uma empresa de alta tecnologia alemã disse-me que 90% da investigação e do desenvolvimento foram passados para Portugal e só não passam 100% porque senão diziam que o produto era português e não alemão. Não é só produção de mão-de-obra barata. É verdade que ainda temos salários baixos, mas eu acho que há um grande potencial.

Vídeo: Portugal “ainda tem salários baixos” mas há um “enorme potencial”

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Esse desenvolvimento aconteceu nos últimos anos com uma solução política que foi nova em Portugal. Uma renovação desta solução seria uma boa ideia?
Tudo o que dê estabilidade ao país é bom. O primeiro-ministro conseguiu criar um equilíbrio fantástico. O governo anterior preparou, fez todo o trabalho difícil de preparar a saída da recessão, mas este governo fez esta arquitetura que funciona, e funciona bem. E hoje é um case-study na Europa.

Mas será que dá para fazer uma sequela desta geringonça?
Eu sou sempre mais adepto de um consenso ainda maior. Olho para Alemanha e acho interessante como é que eles conseguem fazer ali um centrão. Hoje já não há uma pressão tão grande, mas no início pensei que um centrão podia ser a solução, mas o primeiro-ministro mostrou que com um governo minoritário e com apoio parlamentar consegue aprovar as medidas principais e consegue um grande equilíbrio. Não me admiraria que pudesse haver uma repetição desta geringonça, talvez com uma arquitetura diferente.

Mas o governo tem tido um problema com o Novo Banco. Pode haver mais surpresas na banca?
Acho que a grande limpeza dos balanços dos bancos já se fez em grande parte, e bem. Não há economia saudável e que possa crescer sem ter bancos fortes. Acho que os bancos vão ter de entrar numa nova fase, e já estão a entrar, já se está a perspetivar uma nova fase de crescimento. Hoje estamos com 8,2% de malparado sobre o total de créditos, mas ainda estamos acima… e devíamos estar aí nos 5%. O que venha a fazer-se agora já é menos estruturante. É natural que ainda seja necessária alguma recapitalização, mas o pior já passou. E vejo iniciativas de modernização. Nos próximos seis a nove meses vão aparecer modelos de negócio na banca portuguesa muito inovadores – nós estamos a ajudar dois bancos – que vão estar ao nível do melhor que há globalmente.

Já acabou a concessão de crédito sem as devidas garantias?
Vemos uma grande preocupação agora nas análises de risco e eu concordo totalmente que se fizeram erros muito grandes na concessão de crédito, na análise de risco, em alguns casos até com influência política. Os bancos aprenderam a lição. A diferença entre depósitos e créditos há dez anos era mais de 120% e hoje está abaixo de 100%. Os bancos reduziram drasticamente o crédito.

O crescimento do turismo em Portugal vai estabilizar?
Não há necessidade de o turismo entrar em fase de estagnação. Fizemos os dois planos estratégicos de turismo para Portugal e três de Lisboa e estou muito orgulhoso. Há uma nova fase: mais qualidade, especialmente em termos ambientais e de território. Agora entramos na fase de maturidade.

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