Crise política

António Costa: O euro “não é” uma questão resolvida

António Costa, primeiro-ministro. (Fotografia: Sacha  Steinbach/ EPA)
António Costa, primeiro-ministro. (Fotografia: Sacha Steinbach/ EPA)

"As classes médias sentem-se excluídas do sistema, deixam de ter expectativas de futuro e de progressão", disse em entrevista ao Público.

A questão do euro não está resolvida e o pior erro que se podia cometer seria assumir que os problemas estruturais da zona euro ficaram resolvidos, alertou o primeiro-ministro, António Costa.

“Esse foi o erro que nos acompanhou desde 2011 até 2011”, disse Costa numa entrevista ao jornal Público publicada este domingo.

Destacou que sem a correção das assimetrias da moeda única, “a zona euro será, mais uma vez, confrontada com uma crise”.

“O euro foi o maior bónus que a Europa ofereceu à Alemanha”, afirmou.

Sobre a crise política que se vive na União Europeia (UE), o primeiro-ministro apontou que “há várias linhas de fratura”, dos países mais antigos da UE, como a França, aos que aderiram mais recentemente. As causas da crise são diversas, adiantou.

“Há uma crise dos valores demo-liberais”, disse António Costa. Apontou o dedo “ao enorme aumento das desigualdades que se tem verificado desde a década de 1980 até agora e que atinge hoje violentamente as classes médias, que são o suporte sociológico das democracias”.

“As classes médias sentem-se excluídas do sistema, deixam de ter expectativas de futuro e de progressão, sentem que o processo de ascensão social se esgotou na sua geração e que o futuro dos seus filhos é uma vida pior”, afirmou.

Sobre a emergência de movimentos nacionalistas na UE, sublinhou que “tem correntes nacionalistas de diferentes naturezas que não se expressão necessariamente contra a democracia”. E fez a distinção entre nacionalismo e xenofobia: “tem manifestações de xenofobia que não são sempre coincidentes com o nacionalismo”.

E explicou que o crescimento de movimentos radicais “resulta também da perceção de que, no quadro dos partidos tradicionais ou dos partidos do centro, não há diferenças que possam gerar uma alternativa”.

“As pessoas têm de sentir que, dentro do campo democrático, têm as escolhas alternativas – sem terem de gerar movimentos como os Coletes Amarelos e sem terem de entregar o seu voto a partidos radicais ou entrarem em ruturas anti-sistema por via do nacionalismo”.

Para Costa, o tema dos imigrantes que atravessam o mar Mediterrâneo para chegar à Europa é “o tema mais difícil” que a UE tem para enfrentar nas próximas décadas.

Polémica dos impostos europeus

O primeiro-ministro defende a criação de impostos europeus bem como a ideia de uma política fiscal decidida, a nível europeu, por maioria qualificada.

“Porque essa ideia de que vamos perder a nossa soberania pelo facto de abdicarmos da regra de unanimidade é desconhecer que a nossa soberania é afetada por aqueles que, por razões geográficas ou económicas, se oferecem como porto de refúgio fiscal, limitando a nossa capacidade de poder jogar com as mesmas armas”, afirmou.

Justificou que, com a saída do Reino Unido da UE, vai haver menos receita, numa altura em se antecipa mais despesa. “A questão é saber que impostos europeus podemos criar”.

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