António Fonseca: "Querem acabar com a raça dos bancários"

A banca enfrenta uma das maiores vagas de despedimentos dos últimos anos. Só no BCP, no Santander e no Montepio anunciam-se mais de 2000 saídas. O Mais Sindicato, que António Fonseca preside há um ano, tem 38 mil associados e apresenta-se como o maior do país, resultando da fusão de várias organizações do setor. O profissional, que trocou a Caixa Geral de Depósitos pela atividade sindical há quase duas décadas, lamenta o que a carreira se desvalorizou. E garante que, "se fosse hoje, não escolheria ser bancário".

O Mais sindicato vai conseguir reduzir os despedimentos em vista na banca?
Não sei se conseguir, mas temos negociado, nos últimos anos tem sido uma luta constante. Neste ano, por exemplo, o Santander, que tem feito isto com alguma discrição e temos estado praticamente todas as semanas a falar com a administração; muitas vezes conseguimos encontrar soluções. Muita gente tem projetos fora e estamos disponíveis a ajudar quem queria construí-los, mas outros não têm nada e temos de respeitar e ajudar. Criámos uma equipa que trabalha nisso diariamente, com uma linha exclusiva SOS Laboral, com telefone dedicado e um jurista que faz o primeiro rastreio - e a continuação por telefone, digital ou entrevista presencial.

Esta vaga acentua uma tendência de anos de emagrecimento de quadros. Mário Centeno disse nesta semana que as reestruturações com redução de força de trabalho são uma tendência global e já houve 1220 saídas em 2020. Como lida com isto?
Com muita preocupação. Na última reunião de direção, usaram uma expressão que subscrevo: alguém anda a tentar dar cabo da nossa raça. Preocupamo-nos com o tigre da Malcata, mas parece que querem extinguir esta profissão, que era muito bem aceite, reconhecida; os bancários eram reconhecidos nas suas cidades e têm denegrido essa imagem. Sabemos que o automatismo tinha de acontecer, a banca sempre esteve na crista da onda da tecnologia, mas tínhamos esperança de que outros lugares e recursos surgissem.

A digitalização destruiria uns postos de trabalho mas criaria outros.
Exatamente. A destruição de lugares que está em curso não está a ser compensada com novos setores e profissões. Isto é destruidor, porque há ainda o fator do outsourcing que os bancos vão usando para trabalhos que são bancários, a preços bastante mais acessíveis do que pagariam a bancários. Falamos nisso no comunicado que emitimos nesta semana: o setor tem de libertar-se do outsourcing e usar os bancários que tem.

Diz que a reestruturação dura e rápida surpreendeu. Houve formação para adaptar quem existe a essa nova realidade digital?
Não houve. Os bancos foram por um caminho em determinada altura de abrir balcões atrás de balcões e agora, um pouco também à conta da pandemia, em que os bancos apelaram ao afastamento de clientes dos balcões, foi a gota de água. Era uma situação que aconteceria naturalmente, mas podia demorar tempo - e criou-se a oportunidade. Uma das coisas que mais nos preocupam é a agressividade disto, com quantidades tão grandes de pessoas dispensadas. É assustador. Devia ser feito de forma progressiva. E as pessoas não foram preparadas para isso.

Mas hoje a maioria não vai ao banco.
É verdade. As tecnologias, as apps, o netbanking permite-nos não ir tanto ao balcão, mas elas não funcionam para toda a estrutura da sociedade. Nem toda a gente sabe usar redes digitais. Os bancos esquecem isso e há já regiões do país que não são servidas pela banca. Eu sou funcionário da CGD e a Caixa devia ter um papel utilitário e público - como há uns anos tinha, quando tinha de existir uma Caixa em cada sede de concelho; isso agora está posto de parte. Um banco público deve também incidir para fazer serviço público.

A saída das pessoas podia compensar-se adaptando-as a novos cargos e por deslocalização?
Exato. Se têm de fazer outros trabalhos, formem-nos e coloquem-nos noutras funções. São pessoas dos 45 aos 55 anos, não me digam que não podem reformular a sua forma de trabalhar. Só precisam de formação e ferramentas. Ninguém é velho aos 45 anos.

Como olha para o facto de estas reestruturações surgirem pouco depois de os principais bancos apresentarem lucros no primeiro trimestre? Até o Novo Banco teve resultados positivos.
Essa é a coisa que me parece mais descarada. As restruturações ainda se entendem com resultados negativos mas quando são positivos, há rácios positivos e mesmo assim tentam continuar esse ascendente à conta dos trabalhadores... Eu sei que as taxas de juro estão negativas, que os bancos têm de encontrar formas de ter lucros, mas a fórmula é sempre a mesma...

Os sindicatos bancários não são muito dados a opções mais duras ou radicais. Mas perante este cenário de despedimento de milhares de pessoas, a hipótese de greve continua fora do vosso horizonte?
Eu pertenço a um sindicato que tenta sempre o esforço de avaliar o pulso das pessoas. Não vale a pena propor ações que não são respondidas, marcar greve de dez dias e as pessoas nem um dia fazerem. Temos de sentir o que esperam os nossos sócios. Valorizamos sempre por isso a negociação e enquanto não se esgota esse caminho não partimos para a rua só para marcar terreno sindical. Mas estamos a entrar num túnel sem saída e se tiver de ser, vamos para a rua.

Nesta semana anunciaram uma manifestação e o pedido de audiência ao primeiro-ministro (PM), numa situação inédita de todos os sindicatos do setor.
É verdade e estou contente porque se fez história nesta área sindical, com todos os sindicatos de todas as famílias político-sindicais representadas. O Mais anda há seis meses, a negociar com o Santander, fizemos tudo o que podíamos, mas quando nos ameaçam com despedimento coletivo não podemos aceitar. Temos de reagir e utilizaremos todas as formas de luta. As que apresentámos nesta semana são essas: a tentativa de chegar ao PM para o sensibilizar e uma ação de rua para sensibilizar o governo e toda a população para que estejam connosco, porque estamos a ser agredidos violentamente.

Já tem data?
Tem e será em breve. Não digo a data porque acordámos só divulgar depois de as autoridades se pronunciarem, mas será ainda na primeira quinzena de julho, ao final do dia.

A digitalização, que acelerou com a pandemia, implica uma redução continuada dos quadros dos bancos. Ser bancário está a deixar de ser atrativo?
Está. Eu se tivesse 20 anos, idade com que entrei para o banco, não voltaria a ser bancário. Naquela altura, a remuneração média era simpática. Nos últimos anos - já fiz 30 de banco - deixou de ser atrativo economicamente, no ambiente de trabalho... Os bancários hoje são violentados com objetivos comerciais. E dou uma palavra especial aos trabalhadores de redes comerciais, que são os que mais sofrem com estes assédios. São assediados a toda a hora com objetivos. E o valor que se recebe não é minimamente atrativo. Um jovem licenciado que entre para a banca recebe 800 euros. Não é, para quem trabalhou, estudou, se licenciou, um valor razoável. Eu não seria bancário hoje.

O país tem falado muito de moratórias. Há bancários nessa situação?
Não, não tenho conhecimento de que tenham utilizado moratórias, até porque não houve lay-offs, não houve perda de rendimentos, e o crédito à habitação ajuda os bancários - é algo positivo. Os bancos estiveram sempre na primeira linha. Fala-se de médicos, enfermeiros, mas nós continuámos de portas abertas a trabalhar, porque as pessoas precisam dos bancos no dia-a-dia. Hoje temos proteções mas durante muito tempo os bancários nem isso tinham porque até o acrílico estava esgotado. Corremos muitos riscos no início. Hoje felizmente isso está acautelado e também há muita gente em teletrabalho.

No ano passado o encerramento do SAMS em plena pandemia foi polémico. O serviço de saúde já está a trabalhar normalmente?
Já, felizmente. Tivemos essa infelicidade de um pequeno surto no SAMS que nos assustou porque não se sabia ainda controlar e lidar bem e tivemos de fechar. Felizmente agora funcionam com normalidade, já fazemos tudo e com uma quantidade de cuidados que antes não tínhamos. Os beneficiários estão a voltar e paulatinamente estamos a recuperar - ainda não ao nível de 2009 mas a caminhar para a normalidade.

O Mais é sindicato e ao mesmo tempo patrão: emprega milhares de pessoas no SAMS. E já enfrentou greves. Estar na posição de patrão suaviza as exigências enquanto sindicato?
Não, mas não é fácil. Os sindicatos não nasceram para ser patrões, nasceram para falar com patrões, exigir, reivindicar. Mas todos os presidentes de Mais têm um lado de "Olívia costureira e Olívia patroa" e não é fácil este duplo papel.. A verdade é que mais nenhum sindicato no mundo criou um subsistema de saúde. Lá fora somos únicos; em encontros sindicais internacionais, dizer que temos hospital, ambulatório, postos clínicos, um subsistema de saúde que é marca de referência, é um orgulho. Como o é ter sócios com 90 e 100 anos: tratamos bem da saúde deles. Mas não é fácil, muitas vezes é o oposto. Durante seis meses, estive a negociar acordos de empresa como patrão e a seguir do outro lado a negociar como sindicato.

Mas é mais fácil entender o outro lado?
Sim, é. Não conseguimos contentar todos e uma das preocupações que tenho de ter é a sustentabilidade do SMAS, estou ali para gerir e servir os bancários, e tenho de fazer essa distinção.

As gestões dos bancos podem ter o mesmo discurso.
Claro que têm. Não é fácil, o ideal seria não ser assim, mas criámos o SAMS e temos de gerir a situação.

Quantas pessoas trabalham no SAMS?
1470.

E qual o vencimento médio?
Não sei dizer, mas temos um problema de gente a ganhar muito bem e outros mal. Há uma diferença grande e penso que é um processo que temos de encontrar para resolver este problema, porque é flutuante. Um dia pode ter-se 70, amanhã 90, porque temos enfermeiros, médicos, auxiliares, administrativos, etc. Os nossos trabalhadores sempre foram equiparados aos bancários: éramos um setor que vivia de certa forma com conforto financeiro. Hoje isso não acontece. E tive um papel ingrato nos últimos meses de tirar direitos aos meus trabalhadores, porque o SAMS concorre com outros parceiros de saúde e hoje há muitos. Quando o SAMS nasceu não havia parceiros, não Haia instituições públicas que fossem para nos de referência e por isso criámos o nosso subsistema.

E ainda faz sentido existir?
Claro, enquanto houver bancários faz sentido existir o SAMS. Se os bancários estão a reduzir-se temos de procurar outros setores, por isso se quiser ir ao SAMS vai ser bem recebida, bem tratada e voltar. Alguns bancários não adoram, porque era o setor dos bancários e famílias exclusivo. Hoje para sobreviver é preciso ir ao cliente particular também. Hoje atendemos de seguradoras, de ADSE, como do particular.

Há recibos verdes no SAMS?
Não. O único recurso em outsourcing é limpeza - há uns anos eram nossas empregadas mas hoje só usamos outsourcing aí.

Como olha para os casos que envolvem a banca nos últimos anos, como por exemplo a detenção de Joe Berardo?
Olho como qualquer cidadão. A minha opinião, aqui pessoal, é que a justiça tem de atuar sobre estas coisas, não podemos viver num país em que só os pequenos sejam castigados. A postura dessa pessoa acho-a vergonhosa e espero que este caso e outros que existem que a justiça atue e exerça o seu direito.

Teme que os trabalhadores da banca possam ficar mal vistos devido a casos como o BES, o BANIF, ou a concessão de crédito decidida em almoços de amigos?
Há que distinguir banqueiro e bancários. Não é de todo o mesmo. Os bancários recebem ordens, instruções, vendem produtos que lhes mandam e recebem remuneração. Isso ultrapassa tudo o que é dos bancários e eu não represento a classe dos banqueiros mas a dos bancários. Eu serei violentíssimo na minha opinião quanto a isso, parece eu andámos a brincar aos empréstimos, com tantas cautelas para emprestar 200 mil euros para um negócio ou uma casa e em milhões que cautela se teve? Não venham denegrir a classe dos bancários, que está fora disso.

Mas não teme o contágio?
Tenho a certeza que já aconteceu, o processo BES foi terrível para a nossa imagem. Eu já vendi produtos... mas não vale tudo. E as pessoas que vendem têm de ter essa noção, não valia pena é escamotear que muitas vezes as pessoas sabiam muito bem o que estavam a comprar, mas arriscam.

E os que estavam a vender, sabiam?
Sabiam. Os bancários hoje são perfeitamente elucidados.

E deviam então ser castigados?
Se enganaram as pessoas sim, mas tenho sérias dúvidas de que o tenham sido. Quando ganham dinheiro, não reclamam, mas quando corre mal... mas eu nunca disse a um cliente isto é certo ou isto não é certo. A pessoa decide. E muitas vezes sabiam o quê. Mas há produtos que nãos se vende a toda a gente, há que entender quem é a pessoa e se entende ou não o produto. Pode ter havido erros, pessoas que não foram corretas, mas a maioria dos bancários são corretos e explicam bem, e a decisão é das pessoas.

Como anda a literacia financeira na população portuguesa?
Ainda somos muito incultos nessa área. Vejo constantemente que as pessoas têm dificuldade em preencher um simples impresso e não é exclusivo de não ter habilitações. Há coisas práticas da vida que não se aprende na escola e devia. Ainda há muito pouco conhecimento principalmente na área financeira, e não há muita gente com capacidade para entender produtos às vezes altamente complexos. Até eu que saí da banca e tenho estado na estrutura sindical desde 2004 tenho dificuldade em acompanhar. Os produtos são completamente diferentes.

Regressando ao seu papel no MAIS, como olha o futuro da profissão?
Estamos a viver um dos piores momentos da história dos bancários e olho com preocupação, mas também fico otimista com decisões como a de juntar todos os sindicatos. Isto tem de ser visto como sinal de que banqueiros e administradores devem repensar o que estão a fazer, encontrar alternativas menos dolorosas e espero que o poder político interiorize as nossas preocupações.

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