Costa Silva

“Apoios têm de continuar ou empresas entram em coma”

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Para evitar um drama maior, Costa Silva defende que os apoios se prolonguem até chegarem os fundos da Europa.

Disse que receava uma cascata de falências a seguir ao verão. Defende incentivos fiscais e parafiscais à absorção do desemprego decorrente da pandemia. Como se pode fazer isso?
Pensamos sempre que toda a modernização tecnológica vai ser positiva, mas ela vai criar mais automação e ter impacto sobre os postos de trabalho, vai substituir empregos. A minha ideia era haver um sistema de incentivos parafiscais ou fiscais que mantenham o emprego dessas pessoas enquanto são requalificadas para poderem ser reconvertidas para tarefas que têm grande valor social, por exemplo cuidar de idosos, limpar a floresta, o que for. O país não pode deixar cair de repente milhares e milhares de pessoas no desemprego. E o país tem hoje grandes dificuldades em adaptar-se e convergir no sentido de proteger os mais vulneráveis. Uma das coisas que esta crise revelou de forma brutal foi que muitas pessoas que têm direito a apoios sociais estão fora da economia formal e nem sequer conseguem aceder aos apoios a que têm direito. É um drama.

Propõe repensar todo o sistema de proteção social.
Temos um bom sistema mas tem de ser reconfigurado e integrar todos esses apoios. É por isso que o pilar social é fundamental, não podemos olhar só para a economia, temos de olhar para as pessoas, no centro do programa têm de estar as pessoas e as empresas que criam riqueza, desenvolvem a economia e depois fornecem toda a rede que suporta o desenvolvimento do país.

O lay-off devia prolongar-se?
É uma boa questão mas não gostava de me pronunciar sobre medidas que o governo está a tomar – e está a fazer muito bem nas medidas de emergência. Só alerto que se terminarem antes de os apoios europeus chegarem podemos ter um espaço entre a cessação dos apoios e a vinda dos fundos europeus – que provavelmente só chegam em 2021. É muito importante redesenhar esses apoios para impedir que a economia entre em estado de coma. Quando se fala em economia zombie pensamos: a economia está a funcionar a 70%; mas esquecemos que os 30% que não estão a funcionar têm um efeito brutal sobre tudo o resto. Há cadeias logísticas de abastecimento da produção que inquinam toda a máquina. E depois é muito difícil recuperar. A recuperação vai ser mais lenta por causa de tudo isso.

Apontou falhas na qualificação dos gestores portugueses. Temos maus gestores?
Temos excelentes gestores e temos gestores que não são excelentes. Há um universo de PME – a maioria das nossas empresas -, muitas de índole familiar, com qualificações que podiam subir muito. Esse aspeto é extremamente importante porque se um gestor não tiver qualificações adequadas tende a contratar trabalhadores que provavelmente também não as terão e criamos um ciclo vicioso. Dar a formação mínima em termos dos indicadores, dos processos de gestão, da análise dos projetos, da análise dos mercados pode sustentar o desenvolvimento da economia.

Esse também é um papel do Estado, assegurar a formação?
Não diria do Estado, mas se o Estado intervém numa empresa pode ter uma condicionante: há estes cursos que gostaríamos que fizesse.

Falou também na sugestão de um fundo soberano, um banco de fomento com possibilidade de o Estado entrar e ajudar a capitalizar empresas. É Estado a mais?
Não é Estado a mais quando olhamos para a situação da economia e vemos empresas críticas para o futuro do país, como uma Efacec.

Fez sentido essa injeção?
Faz, nessas situações. O Estado não se deve substituir às empresas, não tem de fazer o que as empresas fazem, ou escolher campeões globais, mas tendo em conta a situação de emergência que a economia vive, um instrumento público como um banco de fomento, um fundo soberano como o exemplo da Irlanda, que funciona muito bem… Tem de haver um instrumento soberano do Estado para intervir. Sou favorável à entrada no capital das empresas, sujeita a certos critérios de rentabilidade e plano de negócios com uma estratégia de saída quando as empresas se desenvolvem. Se não, vamos deixar cair empresas emblemáticas, gerar mais e mais desemprego e quando a economia recuperar, lenta e dificilmente, muitos destes setores são dizimados.

Devia ter sido esse o modelo na TAP, haver momento de saída?
Não queria comentar o caso específico. Nós temos de ter uma grande companhia, temos de ter um grande aeroporto até para aumentar a nossa conectividade. Acho que isso é quase indisputável nos dias de hoje.

Era inevitável o Estado intervir na TAP e fazer esta injeção?
Eu acho que sim.

Disse que os empresários não têm acesso aos fundos. Os bancos não têm cumprido o seu papel?
Estou preocupado com a nossa banca. Tudo aquilo que estudei e analisei e das discussões com os gestores bancários, penso que não pode haver uma economia saudável com uma banca doente. A nossa banca está ainda em processo de restruturação, melhorou significativamente, mas os indicadores de capitalização ainda são relativamente baixos. Somos dos únicos países europeus em que a banca é toda controlada por outros países.

Nomeadamente Espanha.
Nomeadamente Espanha. O que condiciona fortemente muitas destas políticas – e não há condições de concorrência leal dentro da União Europeia. A nossa banca é muito penalizada por isso. Por isso defendo a questão do level playing field dentro da união monetária e financeira. A banca portuguesa deve ter as mesmas condições para competir, não pode ser constantemente penalizada e discriminada. Porque tudo isso vai ter impacto em todo o funcionamento do país.

Na análise que fez à banca, vê esqueletos por sair do armário?
Queria reservar para mim tudo quanto analisei. Desejo o melhor para o país , que já está tão traumatizado com estes processos… Se analisarmos o percurso do país, é impressionante a destruição de valor de capital ao longo do tempo, a destruição de empresas que eram emblemáticas – é triste.

As empresas e a economia portuguesa conseguem aguentar até os fundos começarem a chegar?
Quero acreditar que sim, espero que estejamos todos atentos a isso e sobretudo ao nível do poder político, que as decisões sejam tomadas como têm sido. As autoridades têm respondido à altura, estão cientes de todos esses aspetos, genuinamente interessadas em desenvolver e desenhar modelos e programas que permitam ao menos manter a economia a funcionar até os fundos chegarem e acredito que podemos conseguir. Mas toda a atenção é pouca porque vivemos um período extremamente difícil e ainda vai piorar bastante antes de começar a melhorar. E este piorar está muito dependente de como vamos responder, de como é que os mecanismos vão funcionar e em que altura os fundos começam a chegar.

A recuperação começará já em 2021, será aquele famoso V?
Eu não acredito. Acho que será um U e a parte horizontal do U se calhar vai inclinar até começar a subir. A recuperação vai ser lenta. Temos simultaneamente o colapso da oferta e da procura. Tivemos a evaporação de setores completos de economia como o turismo, o transporte aéreo ou a produção automóvel – que me preocupa muito. E é por isso que defendo um plano especial para ajudar a indústria automóvel nesta fase, que é o do abate da frota mais antiga, substituindo por carros elétricos e híbridos. Era absolutamente vital estar em cima da mesa. Temos um excelente ministro da Economia que está muito atento a tudo isso.

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