"Artistas têm imensa dificuldade em aceder aos apoios anunciados"

Promotora da iniciativa RHI considera que há mais medidas que podem ser tomadas para ajudar a classe atística, para além de apoios a fundo perdido.

Ana Ventura Miranda, fundadora do Arte Institute - uma organização sediada em Nova Iorque que promove artistas e projetos de arte contemporânea portuguesa -, e impulsionadora da iniciativa RHI - Revolution, Hope, Imagination, diz que os apoios anunciados pelo governo para os artistas, fortemente afetados pela pandemia, não estão a chegar às pessoas. "Grande parte dos profissionais das artes e contribuintes deste setor têm imensa dificuldade em conseguir aceder a esses apoios anunciados e diria, até mesmo, a candidatarem-se", diz em entrevista ao Dinheiro Vivo.

A segunda edição do RHI realizou-se este mês entre os dias 18 e 25, percorrendo 11 cidades do país com palestras, workshops/webinars e espetáculos para "promover novos modelos de negócio para as artes e cultura contemporânea". Em cinco workshops, a Caixa Geral de Depósitos mostrou como construir projetos artísticos que sejam relevantes para as empresas. E há empresas dispostas a financiar propostas artísticas, e não são apenas as grandes.

A Costeira - Engenharia e Construção considera que "para as pequenas e médias empresas, poderá ser o segredo para o sucesso. O mercado está saturado e os clientes cada vez mais exigentes, daí haver a necessidade de os negócios se destacarem para chamar a atenção dos consumidores. O patrocínio da arte é uma via para conseguir esse destaque, da empresa transferir os seus valores, tudo isso contribui para a empresa se diferenciar das demais", diz Augusta Costeira, administradora executiva da empresa, em declarações ao Dinheiro Vivo.

Ana Ventura Miranda faz o balanço da segunda edição do RHI.

Que balanço faz da edição deste ano da RHI em termos de interesse e participação?

Este ano a participação no evento foi maior, tivemos mais público e o público foi muito mais interventivo e participativo, com diversas questões e com muita vontade de saber mais. Pensamos que estes fatores se prendem com duas questões essenciais: a situação atual na área da cultura e a falta de respostas por parte de quem de direito; e o facto de esta ser já a segunda edição do evento e de as pessoas terem acompanhado o nosso trabalho não só no RHI em setembro 2019, mas também nos meses anteriores atá à pandemia e já durante a pandemia, no RHI Stage - em que em dois meses e meio apresentámos diariamente espetáculos de artistas de todas as áreas, e em que o trabalho dos artistas podia ser pago pelo público através da app RHI Think, valorizando assim o seu trabalho.

Que tipo de público atraiu a iniciativa?

O RHI atraiu sobretudo profissionais das artes e cultura, empresas e organizações culturais privadas e governamentais.

Que apreciação faz do panorama artístico nacional nesta altura de pandemia? Muitas dificuldades?

São imensas as dificuldades e muito escassas as respostas concretas e que realmente chegaram às pessoas. Tem havido muita informação divulgada pela tutela que fica aquém do que está a acontecer de facto. No entanto, e no que diz respeito à classe artística especificamente, ficaram “a nu” muitas das suas fragilidades que já existiam antes da pandemia e que estão agora amplificadas. Tem que se capacitar esta classe com mais ferramentas, tanto a nível do digital como da parte de angariação de fundos e de outros recursos que não sejam os estatais. Este será talvez um momento de oportunidade para um novo posicionamento da classe artística.

Que soluções foram discutidas para ajudar os artistas?

Foram apresentados vários projetos da sociedade civil que lançaram iniciativas concretas para que os artistas pudessem continuar a trabalhar e ser remunerados, como o caso do RHI Stage, “Teia 19” e “P´la Arte”. Foram ainda ministrados workshops de como construir uma proposta atrativa para uma empresa, de marketing digital e de fundos da Europa Criativa e da AICEP. Houve ainda a apresentação, por parte de várias cidades, de exemplos de resposta à pandemia e de apoio aos artistas locais, para que se pudessem trocar ideias e encontrar soluções. Por fim foram apresentados movimentos de artistas que se estão a organizar para consolidar uma posição de defesa dos direitos dos artistas.

A covid obrigou o setor a procurar formas inovadoras de chegar ao público e de gerar receita?

Sim, a covid obrigou todas as áreas da sociedade a procurar novos caminhos e adaptarem-se à nova realidade. A área das artes não foi exceção e o digital passou a ter um papel ainda mais fundamental na promoção do trabalho artístico e na ligação direta entre o artista e o seu público.

As medidas públicas para apoiar o setor estão a ajudar? O que seria preciso mais?

Do meu ponto de vista tem sido maior a preocupação em passar mensagem à comunicação social e à sociedade civil, de que estão a ser dados vários apoios aos artistas e ao setor, do que os apoios que na realidade estão a chegar às pessoas. Grande parte dos profissionais das artes e contribuintes deste setor têm imensa dificuldade em conseguir aceder a esses apoios anunciados e diria, até mesmo, a candidatarem-se.

Seria preciso, por exemplo, apostar em formação remunerada em áreas como o marketing digital para capacitar os profissionais das artes e cultura. Tem sido feito para tantas áreas, como por exemplo o turismo, porque não para o setor das artes? Poderia haver programas do IEFP que, através de módulos, dessem essa formação. Simultaneamente poderiam ainda ser criados mecanismos nessa remuneração que envolvessem o tecido empresarial local, que através de vouchers poderiam beneficiar dessas remunerações aos artistas. Haveria muitas iniciativas a tomar que fossem além de apoios a fundo perdido, mas para isso, era preciso que a tutela compreendesse melhor a área que está a tutelar.

A visibilidade internacional dos artistas portugueses está a aumentar?

Nos últimos anos a visibilidade dos artistas portugueses tem vindo a aumentar e em diversas áreas, como o cinema e a música. Apesar deste travão que foi a pandemia, penso que lentamente retomaremos o posicionamento que já tínhamos alcançado. Há que saber olhar e aproveitar as oportunidades que estão a surgir com esta situação e tentar implementar novas formas de trabalho e de mentalidade mais pró-ativa e agregadora de todos.

 

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