Arturo Bris:“Usamos Portugal como exemplo do bom aluno da competitividade”

O diretor do Centro Mundial de Competitividade do IMD acredita que Portugal está no caminho certo - mas aconselha a reforma do setor público.

Arturo Bris defende que o bom desempenho da economia não ficou a dever-se apenas a fatores externos como a política monetária do Banco Central Europeu (BCE), mas aconselha a reforma do setor público que ainda tem peso na economia.

Portugal caiu seis posições no ranking de competitividade. O que aconteceu?

Esta variação é muito natural. O que aconteceu com Portugal - e podemos verificar isso - é que melhorou muito. O governo de António Costa está a ter muito sucesso. O que acontece com o nosso ranking é que existe sempre um grande nível de entusiasmo quando as coisas estão a correr bem. O que aconteceu com Portugal é que o nosso inquérito resultou de uma série de opiniões positivas sobre o país. O país subiu do 39.0 para 33.0 lugar e depois acabou por cair o mesmo número de posições. Isto acontece sempre. O inquérito torna-se, digamos assim, mais realista, e não porque o país se tornou pior. O otimismo sobe muito, mas depois acaba por descer. Sucedeu com a Argentina, ocorreu com a Itália... Há um boom e depois um recuo.

O país está no bom caminho?

Sim, sem dúvida. Usamos Portugal como exemplo do bom aluno da competitividade. Tudo o que o país fez - baixar impostos, atração de capital, aumento da produtividade - foi tudo seguindo as regras...

É uma espécie de aluno perfeito?

Sim, sim.

Contudo, ainda existem algumas falhas que são identificadas no vosso relatório, algumas áreas em que é possível melhorar.

O país ainda está na cauda da nossa lista e, provavelmente, a melhoria mais importante não é tanto no setor privado. O setor privado em Portugal é, de facto, impressionante (valores empresariais, empreendedorismo, sustentabilidade, etc.). O problema de Portugal é o setor público: ineficiências e baixa produtividade. Como o setor público ainda tem um peso muito grande na economia, há lugar para maiores melhorias.

E teme que a composição do apoio parlamentar ao governo, com os partidos mais de esquerda, pode representar uma barreira para essas melhorias?

O que se torna difícil de explicar, pelo menos para nós académicos, é que o governo concretizou as medidas necessárias e ao mesmo tempo respeitou as diferentes ideologias. Julgo que o país, em geral, tem sido muito pragmático. E digo que é difícil de explicar, porque quando viajo para outros países e nos perguntam como é que Portugal conseguiu, a única explicação que conseguimos encontrar é cultural. Quando pergunto aos meus amigos em Portugal, respondem que o povo português tende a ser muito obediente, respeitando as regras. Não acredito em explicações culturais, mas neste caso é o que diferencia Portugal de outros países como Espanha. É o pragmatismo dos governos que tiram proveito dos bons momentos da economia.

Refere o facto de o país ter conseguido aproveitar os bons momentos, como a política monetária do BCE. Conseguirá manter essa capacidade?

O facto de o BCE ter indicado a manutenção da atual política é uma boa notícia para Portugal. Mas considero também - e isso é importante para a competitividade - que o país lançou as bases para se manter no bom caminho, independentemente da política do BCE. Por exemplo, a atração de capital estrangeiro, os incentivos fiscais para a criação de emprego, pouco têm que ver com a política monetária. A estratégia do BCE é importante para Portugal, mas mesmo sem essa ajuda, o país está no bom caminho.

Mesmo no mercado laboral? Ainda existem alguns problemas.

Sim, mas nem se compara com Espanha. Se acham que têm problemas no mercado laboral, olhem para o lado. Nas economias modernas temos legados. As forças sociais na Europa são muito fortes, e ainda bem que assim é. Mas ao mesmo tempo o governo está a fazer o que é correto.

Olhando para a União Europeia. O brexit e os potenciais problemas em Itália podem prejudicar a competitividade europeia e a portuguesa?

Não. Julgo que é exatamente o contrário. Não considero que os problemas em Itália sejam de grande magnitude, comparando com o que já aconteceu no passado recente: por exemplo, a Grécia ou as eleições em França e na Holanda. Os italianos são um pouco inconsequentes, no sentido em que tendem a dizer uma coisa e acabam por fazer outra. Que me lembre, em Itália nunca existiu um dilema em relação à União Europeia. Em relação ao brexit, sempre disse que seria benéfico para a Europa e não o contrário.

Em que sentido?

É benéfico do ponto de vista político, tornou a UE mais coesa. É benéfico do ponto de vista económico, porque a “lealdade financeira” dos Estados membros aumentou. Ninguém disse que queria sair da UE nos termos em que o Reino Unido o fez. Já identificámos os problemas e, no fim do dia, a economia europeia está muito menos exposta ao Reino Unido do que o contrário. Sempre disse que se pudesse votar no Reino Unido votaria pelo brexit. O Reino Unido é como o “marido chato” do casamento, que engana o parceiro e, além do mais, é insuportável. Por isso, depois do divórcio o cônjuge fica muito melhor. O Reino Unido não foi um membro leal da UE.

Retomando o ranking da competitividade. Os EUA deixaram de ser o país mais competitivo do mundo. Singapura ultrapassou...

Nos EUA há uma perceção muito negativa sobre a guerra comercial que gera instabilidade e incerteza, mas não será tão grave como se espera. Um aumento de 25 pontos percentuais nas tarifas entre os EUA e a China terá um impacto negativo no produto interno bruto norte-americano de 0,3%. Primeiro, porque a economia dos EUA não está muito exposta internacionalmente e, em segundo, a exposição à China não é assim tão relevante. Mesmo assim, o sentimento económico das empresas deteriorou-se. Em relação a Singapura, julgo que é muito fácil fazer um negócio no país. A competitividade não é nenhum mistério.

Todos os países da Ásia-Pacífico melhoraram a posição.

No caso de Singapura é preciso ter em atenção de que se trata de uma ditadura. Por exemplo, se comparamos com a Indonésia, a diferença é que em Singapura podemos implementar uma visão de forma mais fácil. Na Tailândia, também há outras forças. No caso de Singapura é muito fácil ser competitivo, não é surpreendente que tenha subido ao primeiro lugar.

O que é que torna uma economia competitiva?

Boas instituições, ou seja, regulação, leis da concorrência, acesso ao financiamento, instituições inclusivas e infraestruturas - físicas e educação (nós consideramos a educação uma infraestrutura intangível). Políticos somos todos nós, na medida em que nos pronunciamos sobre a nossa atividade, e eu procuro intervir na exata medida em que sou convocado.

*O jornalista viajou a convite do IMD

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