Jean-Claude Trichet

As 10 dores de cabeça de Trichet

Trichet pode não voltar a subir juros
Trichet pode não voltar a subir juros

O Banco Central Europeu (BCE) deverá deixar hoje
inalterada a taxa de juro de referência para a zona euro. Depois de
há um mês ter aumentado de 1,25% para 1,5%, economistas e analistas
não esperam uma nova subida tão cedo. Que razões levam Jean-Claude
Trichet a não mexer nos juros, pelo menos por mais um mês?

Inflação, inflação, inflação – O principal dever do BCE é controlar a
evolução da taxa de inflação. No entanto, apesar de a inflação
continuar acima da meta de 2% do banco central – estava em Julho nos
2,5% – ela desacelerou em relação ao mês anterior, reflectindo já
os dois aumentos da taxa de juro feitos pelo BCE este ano. Os
principais produtos a empurrarem a taxa são os preços da energia e
das matérias-primas agrícolas.

Crescimento económico – O BCE pode optar por manter
as taxas de juro baixas para incentivar o crédito e o crescimento
económico. Foi o que fez entre os primeiros meses de 2009 e Abril
deste ano. Quando a Europa dava sinais de estar a regressar a um
crescimento económico mais robusto, os últimos dados apontam para
uma desaceleração, tanto na periferia, como no centro, em países
como a Alemanha.

Devagar e devagarinho – A Europa cresce a duas
velocidades: mais rápido no centro e mais devagar na periferia. O BCE tem, em geral, ignorado estas diferenças,
optando por tomar decisões com base no sistema no seu todo, o que
beneficia as economias do centro. No entanto, a economia alemã já não está a crescer a um ritmo impressionante, o que poderá levar Trichet a pensar duas vezes antes de
fazer o terceiro aumento em menos de seis meses.

Exportações- Uma taxa de juro de referência mais
baixa tende a controlar a valorização da moeda, favorecendo as
exportações. Quanto mais tempo o BCE mantiver as taxas de juro em
níveis perto de 1%, mais fácil será impedir o euro de valorizar
muito em relação às outras divisas e, por isso mesmo, ajudando a
competitividade dos países da zona euro.

Sem pressão – Jean-Claude Trichet está perto de
terminar o seu mandato à frente do BCE. Se há altura em que o
presidente do BCE pode ser mais imune às pressões do centro da
Europa, é agora.

Independência – Durante este processo de recuperação
da crise da dívida na zona euro, a independência do BCE foi
colocada em causa quando decidiu comprar dívida soberana dos países
em dificuldades no mercado secundário. As duas subidas da taxa de
juros em Abril e Julho quiseram mostrar que o BCE está comprometido
com o controlo da inflação e não com objectivos políticos. Forçar
uma terceira subida tão cedo não é necessário para mostrar provar
independência.

Pressão política – Espanha e Itália estão sob
as luzes dos holofotes, sentindo a pressão que os investidores já tinham feito sobre Portugal, Grécia e Irlanda. A diferença é
que se tratam da terceira e quarta maiores economias da zona euro, o
que lhes dá uma capacidade muito superior para pressionar os
responsáveis europeus, que querem evitar a todo o custo mais um
empréstimo.

Bancos – Aumentar a taxa de juro faz com que os
empréstimos entre bancos se tornem mais caros, contribuindo para
fechar ainda mais o já restrito mercado interbancário. Se Trichet
decidir estender a actual taxa de juro durante mais algum tempo,
poderá facilitar a tarefa da banca nos próximos meses.

Famílias – Ver ponto anterior. Se o financiamento
fica mais caro, os bancos reflectem este aumento de custos nos seus
clientes. Claro que o contrário também se aplicar. Com a larga maioria dos créditos à habitação em
Portugal indexados à Euribor (cuja referência é a taxa directora
do BCE), manter as taxas de juro faz com que as prestações mensais pagas pelas famílias não voltem a subir, para já.

Peer Pressure – O que estão a fazer os outros bancos
centrais? A Reserva Federal norte-americana e o Banco de Inglaterra
mantêm a taxa de referência em mínimos, apesar dos dois aumentos
do BCE. Uma taxa de juro mais elevada numa região em relação às
outras pode ser uma desvantagem competitiva importante.

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