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Augusto Mateus. Economia nacional está “a meio” da transição

(Diana Quintela / Global Imagens)
(Diana Quintela / Global Imagens)

Estudo do economista para o Millennium BCP conclui que ainda há vários desafios a enfrentar para que o crescimento seja duradouro

Um estudo do economista Augusto Mateus conclui que a economia nacional está “a meio” da transição para um novo paradigma competitivo mas que é preciso reforçar várias áreas, nomeadamente as exportações, setores de atividade de bens transacionáveis e a inovação e conhecimento.

O estudo, realizado para o Millennium BCP e divulgado esta segunda-feira na conferência Crescimento da Economia – Mitos e Realidades, visava analisar as realidades e os desafios de um crescimento da economia nacional reduzido, que levou a que se interrompesse o processo de convergência europeia da economia nacional.

Para Augusto Mateus, Portugal tem sofrido um “crescimento diminuído” e uma “recuperação tímida”. “Na última década do século XX e início do século XXI a Europa fica para trás no crescimento mundial e Portugal fica para trás na Europa”.

A economia nacional, lê-se no estudo, “encontra-se no início de uma recuperação económica ainda tímida e limitada, no plano conjuntural, e a “meio” de uma transição relativamente longa para um novo paradigma competitivo, imposto pela concorrência com a aceleração da globalização, o alargamento da União Europeia” e ainda por condições macroeconómicas, nomeadamente o regime da União Económica e monetária.

Economia a meio da transição

Assim, o estudo conclui que a economia nacional está “a meio” de um processo de transição para um novo paradigma competitivo, processo esse que é importante concluir “com sucesso e o mais rapidamente possível”.

Existem três áreas essenciais onde se ganha ou perde a superação da crise. É preciso reconhecer que as principais dificuldades da economia portuguesa não correspondem tanto a problemas de produtividade física mas sobretudo a problemas de posicionamento nas atividades com maior relevância.

Por outro lado, é preciso alargar e sistematizar um conjunto de iniciativas de desenvolvimento tecnológico para a produção de bens e serviços transacionáveis – que ainda estão muito fragmentadas na economia nacional.

É preciso também intensificar a participação na globalização, através de um reequilíbrio entre ameaças e oportunidades, “reconhecendo a reorientação da economia portuguesa para fora mas a partir de dentro”.

A recuperação económica em curso, diz o estudo, só será efetiva e duradoura se forem acentuadas e priorizadas as suas dimensões estruturais. Ou seja, não aproveitar apenas a recuperação económica europeia mas também avançar com a “correção progressiva dos principais défices competitivos”, obtendo assim ganhos de produtividade e recolocar a economia portuguesa em linha com o nível médio de desenvolvimento da União Europeia.

Augusto Mateus exemplifica que “Portugal partilha com os países de Leste um crescimento significativo, que tem a ver com certos setores produtivos, mas ficamos aquém dos que têm uma maior alavancagem do crescimento através da criação de emprego e dos ganhos de produtividade”.

O estudo conclui que esta recuperação económica está dependente da afetação de recursos às atividades de bens e serviços transacionáveis. “A promoção efetiva da competitividade só poderá ter sucesso se for estritamente articulada com a promoção do reforço de diversificação da economia portuguesa”.

Este reforço deve ser entendido como um esforço “de natureza global”, através de vários esforços concretos: a intensificação do ritmo de inovação e diferenciação, através da tecnologia e criatividade, para melhorar a posição do país na cadeia de valor e os modelos de negócio dos setores mais relevantes para a economia nacional. Por outro lado, é preciso estruturar a consolidar as atividades emergentes, nomeadamente o que está relacionado com a inovação e tecnologias de informação.

Será também necessária a valorização económica nas fileiras de produção em setores como o turismo, as agroindústrias e as indústrias florestais. No turismo, exemplifica Augusto Mateus, “há imensa inovação”.

Para Portugal ser competitivo é necessário também aumentar a eficácia geradora de riqueza suportada pela qualidade dos modelos de negócio, pelo dinamismo dos mercados de distribuição e venda e pela adequação dos processos de acesso à tecnologia e conhecimento.

Como fazer durar a competitividade?

Segundo o estudo apresentado, a competitividade da economia nacional só será duradoura se for baseada no reforço da capacidade de concorrência das empresas portuguesas. E os salários desempenham aqui um papel relevante.

Em Portugal, diz o estudo de Augusto Mateus, os salários do trabalho pouco qualificado “perdeu completamente, ao longo das duas últimas décadas, a atratividade que detinha”, devido ao alargamento dos países que fazem parte da União Europeia.

Assim, será preciso conciliar um menor nível salarial do trabalho qualificado e altamente qualificado com a proximidade dos níveis educacionais e de eficiência na utilização de novas tecnologias quando se compara com os países com economias mais industrializadas e desenvolvidas.

Ou seja, uma “competitividade-valor” que vai obrigar a um novo equilíbrio entre inovação e diferenciação com novas reformas para acelerar os novos princípios de atratividade e competitividade no comércio e no investimento internacional.

O novo equilíbrio exige uma combinação entre conhecimento, cultura, património e criatividade, com a intensificação da especialização internacional da economia portuguesa.

Por fim, deve haver um esforço do lado das exportações portuguesas, não só para o crescimento da economia mas também para a criação de emprego mas esse crescimento depende de uma eficiência colectiva apoiada por redes empresariais colaborativas e pela partilha de experiências, custos e riscos. O processo será facilitado também se houver aglomeração (clusters) entre empresas, universidades, centros tecnológicos e não só em ações centradas em empresas, produtos e setores individuais.

Augusto Mateus defende, em jeito de conclusão, que “temos tudo o que precisamos para orientar o país para um surto de crescimento económico que valha a pena”. Surgem, defende, “novos fatores competitivos”.

“É preciso que façamos uma primavera que não precisa apenas uma dúzia de andorinhas precisa de 90% de pássaros”, exemplifica.

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