Austeridade em debate no luxo da Penha Longa

Mario Draghi é a figura central
Mario Draghi é a figura central

Ainda mal os 120 mil turistas que rumaram a Portugal para assistir à final da Liga dos Campeões deixaram Lisboa e a capital já está de novo na boca do mundo.

Troca-se, desta vez, o futebol pelas finanças – 150 líderes da
economia mundial, entre governadores de bancos centrais, líderes de
instituições financeiras internacionais, economistas e nomes
sonantes das universidades discutem em Sintra, na calma e
idílica paisagem da Penha Longa, “A Política Monetária num
Cenário Financeiro em Mudança”.

É o Fórum do BCE, a primeira de
várias reuniões dos bancos centrais da União Europeia, que terão
como palco Portugal, neste e nos próximos anos, num modelo idêntico
ao que a Reserva Federal de Kansas organiza periodicamente em Jackson
Hole. Para trás ficou já toda a polémica causada pelo facto de o
encontro destinado a debater os desafios que se colocam a uma Europa
em dramática cura de austeridade coincidir com o dia das eleições
europeias.

Leia também: BCE é 228 vezes maior que zona euro, mas até pode engordar mais

A reunião de três dias desenrola-se no Hotel da Penha Longa, um luxuoso palácio do século XIX, que tem a serra de Sintra como pano de fundo e 200 hectares de
quinta envolvente, que garantem recato e isolamento (ver fotolegenda)
– o mesmo local que, em 1999, recebeu o Clube de Bilderberg, o grupo
“secreto” de poderosos que todos os anos se reúne para falar do
estado do mundo. Foi precisamente por estar perto de um aeroporto
internacional, mas longe do bulício do centro da cidade, “uma
localização que promova a atmosfera descontraída e o diálogo
aberto da conferência”, que levou o BCE a optar por Sintra.

Entre os nomes mais sonantes presentes
na conferência contam-se Mario Draghi e Vítor Constâncio, os
números um e dois do BCE, Durão Barroso, presidente da Comissão
Europeia, e Christine Lagarde, secretária–geral do FMI – sim, os
credores do resgate português. Mas também virão a Portugal o
Prémio Nobel crítico da austeridade Paul Krugman, o vice-presidente
da Reserva Federal norte-americana Stanley Fischer, e líderes dos
quatro cantos do mundo: Qatar, Nova Zelândia, México ou China. Num
debate que se quer plural, podem ainda contar-se académicos de
Bruegel, Harvard e da Universidade de Londres. De Portugal, e
sublinhando desde já que serão poucos nacionais a marcar presença
nesta reunião, estarão responsáveis da Universidade Nova de Lisboa
e da Universidade Católica. Todos foram convidados pelo BCE e
pagarão uma entrada de 800 euros (sem IVA) para participar naquele
encontro. Com direito a refeição.

Com tantos ilustres, a segurança não
foi descurada, especialmente porque Lisboa está cheia de adeptos do
Real Madrid e do Atlético de Madrid, que vieram para a final de sábado. As autoridades farão um “reforço adequado a estas
ocasiões”, tendo, desde já, previsto o destacamento do Corpo de
Segurança Pessoal da PSP e dezenas de militares da GNR.

No Aeroporto
de Lisboa também será reforçada a vigilância, uma vez que estes
responsáveis deverão votar nos seus países de origem e só depois
seguem viagem. A ANA não prevê qualquer reforço adicional no
aeroporto – até porque já se mantém de prevenção desde esta
sexta-feira. Por saber fica apenas se haverá perímetros de
segurança ou escoltas especiais como aconteceu quando Angela Merkel,
em 2012, veio a Portugal abrir uma conferência para investidores no
Centro Cultural de Belém.

A organização irá assegurar toda e
qualquer movimentação destes ilustres, estando previsto o
transporte desde o hotel – que, apurou o Dinheiro Vivo, será
dentro e fora daquele espaço – até à conferência.

Tal como o hotel que os recebe, também
as refeições serão luxuosas (estão incluídas nos 800 euros pagos
como ingresso), mas pouco se sabe sobre a ementa. As indicações são
apenas para que se aproveite a ocasião para fazer uma pequena mostra
da gastronomia nacional, “embora atendendo aos gostos pessoais de
cada convidado”, apurou o Dinheiro Vivo.

Serão três dias de forte sigilo e
restrições, que irão dificultar a vida até à própria
comunicação social. Está acreditado um contingente de 70
jornalistas, mas estes só poderão acompanhar o evento através de
videoconferência. Junto dos participantes estará apenas um pequeno
grupo exclusivo convidado pelo BCE, maioritariamente composto por
agências noticiosas internacionais. Dos portugueses, só a Lusa
poderá estar presente. Tudo em nome do debate sereno de uma solução
para uma Europa conturbada.

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