Trabalho

Automação ameaça 700 mil trabalhadores e os salários médios em Portugal

Fotografia: D.R.
Fotografia: D.R.

A McKinsey diz que, até 2030, 700 mil podem ficar sem trabalho em Portugal. Será uma "crise social gigantesca" se não forem tomadas medidas.

Perda de até 1,1 milhões de postos de trabalho (ou de 1,8 milhões, no pior dos cenários), urgência de reconversão das qualificações para 700 mil trabalhadores – que pode redundar numa “crise social de desemprego gigantesca” se nada for feito – e risco de apagamento dos salários médios. Este é o cenário médio a dez anos traçado para Portugal num estudo sobre o futuro do trabalho apresentado esta quinta-feira, no Museu da Eletricidade, pela Confederação Empresarial Portuguesa (CIP), encomendado à consultora McKinsey.

O estudo vê Portugal como um dos países mais suscetíveis à automação – 50% do tempo gasto nas tarefas laborais atuais pode ser automatizado com tecnologia – e antecipa, mesmo num cenário conservador (26% de automação do trabalho atual), a perda de mais de um milhão de postos de trabalho em vários sectores. Manufatura e comércio, com maior impacto. Há 700 mil trabalhadores que correm o risco de não se adaptarem à mudança.

No pior cenário, o da perda elevada de empregos, a produção fabril pode ter perdas de 261 mil postos de trabalho, havendo 37% do tempo trabalhado nas indústrias que pode passar a ser assumido por máquinas.

“Há uma série de funções que simplesmente desaparecem e das duas uma: ou as pessoas deixam de trabalhar ou vão ter de fazer qualquer coisa diferente”, alertou Duarte Begonha, partner da McKinsey Portugal que apresentou o estudo. Num cenário de adoção moderada de nova tecnologia, “há cerca de 700 mil pessoas que vão ter de encontrar nos próximos anos outra coisa que fazer”, indicou Begonha.

Para a McKinsey, é urgente iniciar as políticas de requalificação. “Se [estas pessoas] vão para o desemprego, vamos ter aqui uma crise social de desemprego de dimensão gigantesca”, afirmou o responsável da consultora no país, destacando quem Portugal surge no ranking internacional sobre investimento na formação ao longo da vida IMD World Talent apenas na 17ª posição. “Temos de pensar uma agenda de educação para adultos. O modelo clássico morreu”, defendeu.

Além disso, a atualização dos meios de produção pode trazer uma eventual ameaça à classe média portuguesa. Segundo a McKinsey, os resultados “sugerem que a polarização de rendimentos em Portugal pode ser intensificada”. “Não modelamos dinamicamente a forma como os salários poderão mudar em cada profissão em 2030. No entanto, com base nos salários atuais, concluímos que os postos de trabalho de remunerações médias caem em resultado da automação em resultado de alterações na procura de mão-de-obra”.

“A classe média saiu sempre a beneficiar deste processo. Será que desta vez vai ser diferente? É para isso que temos de nos preparar”, alertou Daniel Traça, da Nova SBE.

Para a consultora, a “revolução instantânea” que introduz novos processos tecnológicos com capacidade de computação avançada vai não só revolucionar a produção, mas a própria estrutura do mercado de trabalho. “As profissões com maior crescimento em Portugal tenderão a ser ou aquelas que oferecem menos remunerações – por exemplo, trabalhadores da saúde e dos cuidados à infância – ou algo bastante oposto: trabalhos com elevados níveis de remunerações, como engenheiros de software”, aponta o estudo.

Daniel Traça, diretor da Faculdade de Economia da Nova SBE, lembrou que anteriores revoluções tecnológicas no trabalho favoreceram, pelo contrário, a expansão de remunerações médias – com impacto também no processo político, e na expansão do modelo democrático a vários países. “A classe média saiu sempre a beneficiar deste processo. Será que desta vez vai ser diferente? É para isso que temos de nos preparar”, alertou

Não há “bola de cristal”, mas a McKinsey tenta fazer a estimativa com base em alguns fatores. Desde logo, uma análise do tempo gasto em tarefas repetitivas e automatizáveis em cada profissão e sector. O cenário médio antecipa que 26% do trabalho feito em Portugal poderá passar a ser feito pelas máquinas, mas há um cenário alternativo, também, que equaciona todos os obstáculos ao desenvolvimento tecnológico – regulação, custos de desenvolvimento, entre outros – e admite que a automação remeta à redundância apenas 2% das tarefas realizadas por humanos.

No pior cenário, o da perda elevada de empregos, a produção fabril pode ter perdas de 261 mil postos de trabalho, havendo 37% do tempo trabalhado nas indústrias que pode passar a ser assumido por máquinas. No comércio, a McKinsey antecipa a perda de 180 mil postos de trabalho, e na administração pública e governo há 115 mil empregos que podem ser apagados. São estes os sectores mais ameaçados. Já as funções de gestão – onde, de resto, Portugal despende apenas 6% do tempo, nos dados da McKinsey – serão as menos ameaçadas.

Apesar das perdas de postos de trabalho, a consultora admite que poderá haver capacidade para criar também novos lugares no mercado de trabalho, de 600 mil até 1,1 milhões. No estudo, um aumento de rendimentos, o envelhecimento e exigências de maiores cuidados de saúde, a educação, os gastos com tecnologia, o investimento imobiliário, em infraestruturas e a adoção de novas fontes de energia poderão gerar 600 mil postos de trabalho. Os restantes, poderão vir de políticas públicas e escolhas sociais, bem como da emergência de novas profissões.

Atualizado às 14h20 com o pior cenário de perda de postos de trabalho, de 1,8 milhões, previsto no estudo.

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