Automóvel dá cartas na automação, mas futuro passa por indústria 'taylormade'

Nem só de robôs se faz a nova indústria. A customização ao gosto e necessidades dos clientes é já uma realidade

A indústria automóvel é um dos sectores mais avançados no domínio da robotização. Mais de 80% de todas as fábricas europeias de automóveis estão equipadas com tecnologia de automação e acionamentos, garante a Siemens. A integração de sistemas de TI utilizados no planeamento e produção fornece uma vantagem significativa na produção industrial e aumenta a competitividade, diz a multinacional que está na vanguarda da digitalização das empresas. Ou seja, na interação entre o hardware, o software e os serviços ao longo de toda a cadeia de valor industrial. E Melo Ribeiro, CEO da empresa em Portugal, destaca o caso da Masetari: “Em 2014, esta empresa celebrou cem anos de vida da marca, como também comemorou o melhor ano de sempre da sua história com as vendas do modelo Ghibli”.

E quem está já no bom caminho em Portugal? “Claramente as startups de nova geração, tanto as que produzem software para empresas como as que estão no mercado digital global”, diz Stephan Morais, da Caixa Capital. “As empresas maiores e de sectores mais tradicionais têm que integrar pessoas e métodos novos”, defende.

Mira Amaral não concorda. Há muito que o ex-ministro tem vindo a defender a ideia de um retorno à indústria, mas uma indústria que usa as tecnologias de informação, comunicação e localização mais avançadas e a robótica para desenhar, projetar e produzir artigos de acordo com as necessidades e gostos dos clientes, em pequenas quantidades ou até individualmente. Uma indústria “muito mais taylormade”. Mira Amaral garante mesmo que Portugal “está a assumir o seu papel à sua dimensão” e dá exemplos de sectores tradicionais, como os moldes, o vestuário, o calçado, o mobiliário ou a metalomecânica onde o conceito da nova fábrica do futuro já hoje é aplicado.

É precisamente porque a tendência vai no sentido da massificação da customização, sobretudo para os segmentos de maior valor acrescentado, que Alberto Castro não acredita que algum dia se assista a uma fábrica total e completamente automatizada nestas indústrias mais tradicionais. O caminho vai, precisamente, no sentido contrário. Toda a gente procura produtos muito personalizados.

E a verdade é que já hoje não faltam exemplos de fábricas de têxteis, vestuário, calçado ou metalúrgicas, entre outras, que estão entre as mais modernas do mundo. Os sistemas de desenho assistido por computador são já uma banalidade, os sistemas de corte a jato têm vindo a evoluir nas últimas décadas e a aposta, agora, é sobretudo na componente a jusante, tendo a fábrica permanentemente em linha com o seu departamento comercial de modo a otimizar os prazos de resposta. Mas é também na investigação, no desenvolvimento de novos materiais, na customização dos produtos.

Veja-se o caso da Kyaia, o maior produtor nacional de calçado, que tem uma solução personalizada de produção de calçado, à medida, em 24 horas. As encomendas são feitas online. Ou a LMA que se tem vindo a especializar no desenvolvimento de fibras têxteis de elevada performance, com as quais são feitos os fatos das principais forças de segurança na Europa ou os equipamentos de desporto de alguns dos atletas medalhados do mundo. Ou ainda a CEI - Companhia de Equipamentos Industriais que, embora seja líder mundial no fabrico de sistemas de corte por jato de água para a indústria do calçado, fornece vários outros sectores, como as rochas ornamentais, os componentes automóveis ou a indústria aeroespacial.

Segundo o estudo The Digital Enterprise: Europe and Portugal, que a Siemens encomendou à Deloitte para aferir a maturidade digital das empresas portuguesas comparativamente a 29 outros países, ficamos a meio da tabela, na chamada fase de transição. “Portugal tem um contexto razoavelmente bom para apoiar a transformação digital das empresas, mas estas ainda estão hesitantes em investir e em explorar as oportunidades digitais”, diz o CEO da empresa em Portugal. E quais são? “Permite obter ciclos de desenvolvimento mais curtos e económicos, aumentar a capacidade de lidar com produtos e processos de produção mais complexos, obter uma maior eficácia no uso de energia, e personalizar a produção em massa. Ou seja, traz mais valor acrescentado a um preço competitivo”, explica.

Para quem está, ainda, pouco atento ao que se está a passar, Stephan Morais recomenda uma mudança de atitude, de comportamento, mais investimento e uma exposição internacional muito maior. "Tanto os empresários como os colaboradores devem estar focados em aumentar a competitividade e dimensão das empresas para que estas consigam vencer este desafio que se avizinha. Em particular o foco em marketing e internacionalização com produtos verdadeiramente inovadores requerem que as empresas contratem pessoas mais qualificadas, o que representa um grande investimento mas que pode significar a diferença entre o sucesso ou o declínio irreversível", defende.

Este responsável lembra que a Caixa Capital intervém não só ao nível do investimento mas, também nas melhores práticas de gestão, apoiando no recrutamento, na definição de estratégia e na otimização do financiamento. "A nossa rede internacional de contactos e parceiros é uma mais-valia para o crescimento acelerado do negócio", frisa.

Bem posicionada para tirar partido da quarta revolução industrial está a Prodsmart. Gonçalo Fortes sabe que desperdício e eficiência são questões fundamentais numa indústria e, por isso, desenvolveu um sistema de gestão da produção na cloud, que elimina completamente o papel, fornece análises em tempo real e permite às fábricas reduzirem o desperdício em 80% e aumentarem a eficiência em 20%.

Um dos objetivos da Prodsmart, diz Gonçalo Fortes, é quebrar as barreiras da fábrica individual e criar um ecossistema de fábricas interligadas em toda a cadeia de valor, permitindo que todas trabalhem em conjunto de forma eficiente e se adaptem caso haja alterações no processo de alguma delas.

"Por exemplo, uma fábrica de biscoitos pode entregar os biscoitos que se partiram e que não servem para o seu cliente final a uma fábrica de iogurtes que os usa como recheio nos seus produtos. Se elas estiverem ligadas em rede, a segunda saberá sempre qual a quantidade de iogurtes que pode produzir com base no 'desperdício' da primeira. Queremos acabar com o stock no planeta e transformar a produção numa 'barra de download'. Esta interligação irá chegar até ao consumidor final, que poderá ele próprio despoletar o processo produtivo, influenciar os prazos de produção e acompanhar o processo com total transparência e total rastreabilidade dos materiais usados. Você poderá estar a beber café na sua pastelaria preferida e a fábrica que a fornece começará a produzir, sabendo sempre as necessidades dos seus distribuidores finais", explica Gonçalo Fortes.

Utopia? Talvez não. Isso mesmo está a ser testado em Munique, numa parceria com a Festo, o gigante da automação industrial e com a Universidade de Munique. Nos próximos seis meses, que Gonçalo Fortes espera que se transformem em vários anos, a Prodsmart está na Alemanha a ajudar a tornar a 4ª revolução industrial numa realidade.

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