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Azeites e vinhos portugueses escapam a castigo de Trump

Ilustração: Vítor Higgs
Ilustração: Vítor Higgs

Apesar de não afetar tanto as exportações quanto se temia, efeito das taxas preocupa agricultores e empresários.

Desta vez, o pior não aconteceu (para Portugal). As duras tarifas de Trump às exportações europeias para os Estados Unidos entraram ontem em vigor, castigando com taxas de 25% produtos como queijos, manteigas e outros laticínios portugueses, carne de porco, frutas e alguns tipos de marisco. Mas a lista deixa de fora o azeite e, sobretudo, os vinhos, permitindo aos produtores nacionais respirar de alívio numa altura em que os Estados Unidos se tornaram, fora da União Europeia, o nosso principal destino de exportação.

No ano passado, Portugal vendeu aos Estados Unidos 2,8 mil milhões de euros, mais 3,1% do que em 2017, tornando o país no quinto cliente das exportações nacionais. Ora os produtos saídos das empresas com maior peso nessas vendas escapam ao castigo de Donald Trump (entre as empresas que mais vendem para o lado de lá do Atlântico contam-se a Amorim, Petróleos de Portugal, Bosch, Browning Viana, Continental, Hovione, IKEA Portugal, Navigator e Netjets). São apenas afetados 0,08% das nossas vendas. E nos bens agrícolas, o peso é de 1,6%.

Tendo em conta o valor das exportações para terras do Tio Sam, o efeito do agravamento das taxas é limitado: segundo cálculos do economista francês Eric Dor, da escola de gestão IESEG, não chega a 3 milhões de euros.

Ilustração: Vítor Higgs/Animação: Nuno Santos

Ilustração: Vítor Higgs/Animação: Nuno Santos

Alívio, não despreocupação
“Se do ponto de vista político a questão é muito relevante, no que respeita ao setor dos laticínios, o impacto é pequeno”, admite também Fernando Cardoso, secretário-geral da Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite. Ainda assim, o setor agrícola não está descansado. “Taxas de 25%, mesmo só para alguns produtos, é um mau princípio, que vai trazer constrangimentos às empresas e a alguns setores da atividade agrícola”, afirma Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP).

As preocupações são partilhadas por Bruno Bobone. “Ainda que Portugal não seja extraordinariamente afetado, estamos perante uma nova fase isolacionista que sempre esteve ligada a períodos de crise”, sublinha o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP), lembrando que o crescimento pós-segunda Guerra Mundial foi todo “baseado na promoção do comércio internacional livre, sendo os EUA o seu principal promotor”. Esta mudança de postura está a “provocar nos países e empresas uma enorme angústia sobre o futuro da economia”, diz. E ainda que admita que o presidente americano pode reverter a decisão, deixa um conselho: “Temos de nos concentrar no que está ao nosso alcance mudar, por isso, diria aos empresários portugueses que sigam o caminho de internacionalização com a coragem com que o começaram e descubram mercados alternativos. Se os EUA voltarem atrás poderemos sempre recuperar a posição, se não, teremos onde colocar os nossos produtos.”

A solução não escapa aos agricultores, mas se também Oliveira e Sousa o recomenda, lembra que isso não é simples nem imediato. “Entre 2014 e 2018, Portugal exportou para os EUA mais de 325 milhões em produtos agrícolas. É o nosso décimo mercado e tem um potencial muito grande.” Por isso mesmo, diz ser imperativo que Portugal defenda o reforço da posição negocial da Europa como grande bloco económico. “Acreditamos na capacidade de os agricultores portugueses encontrarem mercados alternativos, mas isso leva tempo e requer investimento.”

Da disputa aeronáutica à guerra comercial
O agravamento das taxas alfandegárias por parte dos Estados Unidos surge de uma disputa com 15 anos, envolvendo alegados apoios estatais à Airbus, provocando uma situação de desequilíbrio ou concorrência desleal da fabricante aeronáutica europeia, relativamente à congénere americana Boeing. Reconhecendo razão a Washington, a Organização Mundial do Comércio (OMC) autorizou a aplicação das tarifas suplementares a alguns produtos vindos do espaço europeu, como compensação.

“Durante muitos anos, a Europa alimentou a Airbus com subsídios massivos, com grande prejuízo para a indústria aeronáutica americana e os nossos trabalhadores”, sublinhou Washington quando saiu a decisão final sobre o caso, congratulando-se com a possibilidade de recuperar o prejuízo agravando taxas alfandegárias sobre alguns produtos. “Os Estados Unidos podem solicitar a autorização do Dispute Settlement Body para tomar contramedidas em relação a Bruxelas e a certos Estados-membros, conforme, num montante total que não exceda os 6,8 mil milhões de euros”, lê-se no relatório da OMC.

Era a validação de que o presidente americano precisava para avançar com as medidas de retaliação. Medidas que a comissária europeia para o Comércio, Cecilia Malmström, considerou “míopes e contraproducentes” e, apoiada pelo ministro francês das Finanças, Bruno Le Maire, avisou que, indo por diante, levarão a uma resposta da União Europeia à medida.

O problema britânico
É num Reino Unido já em papas com o brexit – marcado para 31 de outubro e quase certamente sem acordo – que o impacto é mais duro, com perdas da ordem dos 1,2 mil milhões de euros/ano, segundo a seguradora de crédito Euler Hermes (seguem-se França, Alemanha, Espanha e Irlanda). Da lista de Trump fazem parte os biscoitos e o whisky escocês, o bacon irlandês, mas também a lã e a caxemira, o que está a deixar o setor têxtil com os nervos em franja.

A “enorme frustração” expressa pelo grupo Walpole – que inclui mais de 250 marcas de luxo, como Burberry ou Alexander McQueen – ao Guardian é disso bem representativa. Com cerca de um quarto dos bens de luxo produzidos no Reino Unido a ter os EUA como destino, o jornal britânico adianta que o agravamento das tarifas é visto em Londres com “enorme preocupação”, numa fase em que “o país já lida com tamanha incerteza política e económica”. Com a sustentabilidade de muitas empresas posta em causa, o Reino Unido pediu mesmo uma exceção para os seus bens poderem escapar a um castigo que “nada tem que ver com os produtores britânicos”.

Por cá, a visão não se distancia muito. “Não podemos ter medo nem parar o caminho que tem sido o grande sucesso da economia portuguesa”, defende Bobone. “O comércio internacional será sempre o nosso futuro, o que pode variar é o grau de dificuldade que teremos de enfrentar.”

Oliveira e Sousa concorda. “O comércio global deve ser livre e aberto, para que países e suas empresas possam prosperar com regulação e controlo, não com medidas protecionistas avulsas e díspares que fomentem uma guerra comercial que visa fins geopolíticos e não a prosperidade dos negócios. O estabelecimento de acordos como o CETA, assinado entre UE e Canadá e que prevê a defesa dos modos de produção europeus, é de extrema importância para evitar incertezas e garantir estabilidade”, sublinha o representante dos agricultores.

Enquanto a Europa se prepara para um rombo que pode aproximar-se dos 8 mil milhões de euros nas exportações, os próximos passos são antecipados pela Euler Hermes: “Bruxelas deverá retaliar pela mesma medida, impondo taxas que representam um bolo de 10,7 mil milhões.”

“A Comissão Europeia não tem outra opção senão retaliar”, confirmou ontem Cecilia Malmström.

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