Eurogrupo

Bagão Félix. “Centeno é uma espécie de seguro de vida para o país”

António Bagão Felix. Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens
António Bagão Felix. Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens

"Não será inocente a aproximação que Mário Centeno faz ao presidente francês Macron" antes de ganhar o Eurogrupo, afirma António Bagão Félix.

António Bagão Félix, ex-ministro das Finanças de um governo do PSD em coligação com o CDS, fala sobre as implicações para o país e a Europa de Mário Centeno subir a presidente do Eurogrupo. Antes das Finanças esteve com a pasta da Segurança Social. Entrevista ao economista, escritor e comentador televisivo.

Que implicações existem para Portugal com Centeno à frente do Eurogrupo?

Centeno a liderar o Eurogrupo é um acontecimento e um encargo muito positivo para Portugal na medida em que é a constatação de que o país tem percorrido, embora com as dificuldades que todos conhecemos, o caminho certo no contexto da união económica e monetária.

O ministro merece a distinção?

É o justo prémio para o ministro Mário Centeno. Vejo-o como uma personalidade sensível. Tem sabido cultivar uma certa ideia de entendimento entre países do sul e países do norte, tem tentado conciliar as duas partes. Pouca gente tem feito isso nos últimos anos, logo é um trunfo dele. Tem um capital de confiança elevado.

Havia mais candidatos.

Evidentemente que esta eleição não pode ser descontextualizada face ao conjunto de circunstâncias que acabaram por ajudar ao êxito da sua candidatura. Itália já tem um presidente no Banco Central Europeu e vai para eleições agora, Espanha quer um lugar na comissão executiva do BCE, a Grécia tem os problemas que tem, França é um país grande e o Eurogrupo tem a tradição de ser chefiado por nações pequenas, mais aptas a gerar consensos. Por exclusão de partes, foi Portugal. E bem, é o bom aluno da zona euro. Juntou-se aqui o útil ao agradável.

É bom para Portugal?

Ser presidente do Eurogrupo implica um aspeto que, pessoalmente, acho muito bom para Portugal: dificilmente se compreenderá que o presidente deste conselho não tenha a casa arrumada e não seja o primeiro a dar o exemplo no que respeita ao cumprimento das regras da zona euro, do Pacto. Perdoem-me o plebeísmo, mas termos Centeno é uma espécie de seguro de vida para o país relativamente ao cumprimento dos tratados orçamentais, das regras da dívida, do saldo orçamental, nos próximos anos. É um selo em prol da coerência. Para evitarmos aquela situação, se me permitem, do “bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz”. Não se pode pregar aos outros e depois não exigirmos o mesmo ou até mais a nós próprios. Julgo que podemos estar a entrar numa nova etapa, em que finalmente nós só temos verdadeiramente autoridade, se formos os primeiros ou os melhores a cumprir as regras.

As finanças portuguesas vão ser mais escrutinadas por causa disso?

Nesta etapa, o grau de exigência que pende sobre as finanças públicas portuguesas é bem maior, mas também há mais esperança e consciência de que os objetivos serão cumpridos. Haverá, claro, um escrutínio maior da nossa realidade interna, não tenhamos dúvidas.

O que terá levado à escolha de Mário Centeno, na sua opinião?

É positivo que o Eurogrupo seja, pela primeira vez, presidido por um ministro de um país do sul e pobre, ao contrário do que aconteceu com os seus antecessores, Jean-Claude Juncker, do Luxemburgo, e Jeroen Dijsselbloem, da Holanda.

Porquê?

Isto também me permite ter esperança que daí possa resultar um maior equilíbrio entre as naturais divergências e tensões que existem entre os países mais ricos e os outros, entre o norte e o sul. Esperança que esta dicotomia, que muito mal tem feito à zona euro, à construção e à ideia de Europa, se dissipe. Centeno, o ministro do sul, pode dar um contributo diferente e valioso na discussão e no que pode vir a ser a união bancária, o fundo monetário europeu, os novos instrumentos de emissão de dívida pública de nível europeu. Isto é, ser um português e não ser um alemão, traz uma sensibilidade diferente para o debate destes temas e é natural que se espere que, com um ministro do sul, todas essas propostas possam e devam ser discutidas de uma forma mais aberta.

Centeno aproximou-se de França, de Macron, para ter mais ascendente no Eurogrupo?

Centeno, ciente de que é de um país com menos poder, mas que quer fazer coisas grandes, não será inocente a aproximação que faz ao presidente francês Macron, que lançou o debate da reforma da zona euro. Isto é positivo, como é bom ter França, ter lá Macron, uma pessoa que parece sensível à ideia de que a Europa é um lugar, um projeto, solidário. Mais do que os seus antecessores no cargo, de direita ou de esquerda, que foram sempre muito soberbos, a Europa para eles era apenas o eixo franco-alemão. Isso parece estar a mudar, finalmente.

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