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Banca pouco eficiente travou crescimento da economia

Carlos Tavares, ex-presidente da CMVM e antigo ministro da Economia
Carlos Tavares, ex-presidente da CMVM e antigo ministro da Economia

A economia acelera mais quando os bancos estão saudáveis. No entanto, a dimensão exagerada da banca e a sua má gestão não o permitiram.

Investiu-se mal pelo menos nos últimos 16 anos em Portugal e o encaminhamento do crédito para os setores menos eficientes (bens não transacionáveis, como a construção civil) acabou por contribuir para que a economia tivesse crescido menos 1,43 pontos percentuais por ano entre 2000 e 2015. Só neste último ano, o PIB seria superior ao observado em mais de 37,3 mil milhões de euros. Esta e outras conclusões estão contidas no livro “A Banca e a Economia Portuguesa”, da autoria de Carlos Tavares, ex-presidente da CMVM e antigo ministro da Economia, e Carlos Alves, professor da Faculdade de Economia do Porto.

Miguel Cadilhe

Miguel Cadilhe

A obra, apresentada esta quinta-feira na Fundação Júlio Resende, em Gondomar, conta com um prefácio de Miguel Cadilhe, ex-ministro das Finanças. Os autores tentam responder a uma questão chave: como se comportaria a economia se a eficiência do investimento igualasse o custo do investimento. A perda de 1,43 pontos percentuais por ano no valor do PIB remete para uma questão a montante: como foram geridos os bancos naquele período? “A crise financeira internacional de 2007/08 desnudou a desproporção dimensional entre os bancos e a economia portuguesa”, sublinha Miguel Cadilhe.

Perda económica dos acionistas

Capa livro Carlos TavaresUma das revelações mais surpreendentes do livro prende-se com a perda do valor económico que afetou os acionistas. A cada euro de capital próprio detido pelos acionistas dos bancos portugueses no final de 1999, apenas equivaliam, no final de 2015, 30 ou 34 cêntimos, consoante duas metodologias aplicadas. Todavia, no caso dos bancos europeus os seus acionistas conservavam ainda, respetivamente, 68 ou 73 cêntimos.

No período de 16 anos iniciado em 2000, ocorreu uma perda de valor económico de 40,8 mil milhões, correspondentes a 23,1% do PIB português, a preços correntes de 2015. Se restringida a análise aos últimos 8 anos (2008-2015), a perda de valor apurada ascende a 62,5 mil milhões de euros (34,8% do PIB).

A pressão das imparidades

Uma das formas que os autores utilizaram para olhar para o interior da banca consistiu em fazer alguns cálculos com a conta de resultados.



Segundo os autores, considerando a totalidade do período 1998-2015 verifica-se uma relação linear inversa quase perfeita entre o peso das provisões e imparidades no ativo e o peso dos resultados brutos no ativo. O que demonstra bem a importância das políticas de gestão dos riscos de crédito.

Afetando os custos de estrutura e outros (gráfico exibido acima), a verdade é que houve um sobredimensionamento da banca portuguesa, visível no número de balcões, de empregados e de caixas multibanco. Essa realidade data dos anos 90, segundo os autores, mas tornou-se um problema a partir do início da crise financeira. Entre 1997 e 2010, houve crescimento de quase 40% da rede bancária, valor líquido de racionalizações.

Relação com a riqueza das famílias

Uma outra forma de avaliar o provável excesso de capacidade do sistema bancário é através da relação entre os respetivos ativos e a riqueza das famílias. Considerando apenas a riqueza financeira (líquida de dívidas) das famílias, os ativos bancários representavam cerca de 194% do valor da riqueza das famílias em 1999, tendo aumentado até aos 317% em 2010, reduzindo-se depois até aos 226% em 2014. A Alemanha trilhou um percurso inverso ao de Portugal, como é visível no gráfico extraído de parte dos dados contidos no livro.



Os negócios ruinosos da banca

Porto , 13 / 01 / 2012 - entrevista a João Oliveira , antigo presidente do BPA ( José Carmo / Global Imagens )

João Oliveira

“Muitas das transações da banca estavam “fora do seu negócio principal” e deviam ter sido financiados por capitais próprios e nunca por depósitos – falhou a regulação entre 1995 e 2008”, sublinhou João Oliveira, ex-presidente do BPA, que também se juntou a Miguel Cadilhe na apresentação da obra. Os principais bancos portugueses encetaram uma estratégia de tomada de participações relevantes no capital de empresas não financeiras e também no capital de outros bancos. A tomada de participações diretas foi complementada pelos exageros na concessão de créditos para a aquisição de ações pelos acionistas de controlo ou de referência das empresas não financeiras em causa, conduzindo à amplificação do risco no balanço dos bancos.

Entre 1997 e 2015, o BES foi responsável pela maior perda global (cerca de 900 milhões de euros), essencialmente concentrada nas participações na PT/Pharol e na NOS/ZON/PT Multimédia. Por contraste, o Santander/Totta registou um resultado positivo (158 milhões de euros), muito por força do investimento e desinvestimento no BCP no final da década de 90 (ainda no âmbito do Grupo Champalimaud).



 

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