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Banca foi o único serviço a perder peso no emprego

Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens
Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens

Em quase duas décadas, comércio suplantou a indústria em importância laboral. Construção e agricultura tiveram perdas significativas de mão de obra

Ainda usávamos escudos no bolso e nem sonhávamos voltar a passar por uma ajuda externa e um período de austeridade. Nessa altura, no ano 2000, a indústria era o setor económico com maior peso no emprego, seguido do comércio, da administração pública, da agricultura e da construção, revelou esta semana o Eurostat, pormenorizando os diferentes ramos dos serviços, onde a banca se destaca pela negativa.

Quase duas décadas depois, em 2018, o panorama é muito diferente. Passou o comércio a deter o maior peso no emprego, seguido da administração pública, com a indústria a cair da primeira para a terceira posição. As atividades científicas e tecnológicas, de irrelevantes, passaram a ocupar o quarto lugar, e só depois surgem a agricultura e a construção.

Enquanto a indústria (-21,65%), a agricultura (-32,5%) e a construção (-46,0%) perderam importância significativa no emprego, no setor dos serviços todos os segmentos ganharam mais peso, à exceção da categoria dos “serviços financeiros e seguros”, na qual se inclui a banca, onde houve uma perda de 10,5%, de 2000 para 2018.

Outra particularidade no capítulo dos serviços tem a ver com as subidas expressivas que alguns ramos ganharam em quase 20 anos no mercado laboral: o segmento da informação e comunicação disparou 81,8% (a maior subida); o das atividades científicas e tecnológicas cresceu 64,78%; o comércio escalou 26,2%, assegurando-lhe a primeira posição; e o imobiliário aumentou 19,18%.

No período considerado, Portugal esteve sempre abaixo da média da União Europeia em todos os ramos dos serviços, com uma nova exceção: o comércio conseguiu suplantar essa fasquia no último ano e apresentou um peso no emprego acima da referência comunitária.

Já na indústria e agricultura, o país esteve sempre acima da média da UE, no que à importância do emprego diz respeito. Na construção não foi tão linear, uma vez que, no ano passado, ficou abaixo.

Para Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, “nos anos em apreço, a alteração da estrutura do emprego é o resultado de duas tendências. A primeira, mais genérica, evidencia aquilo que podemos designar por servitização da economia, à semelhança do que ocorre nos países mais desenvolvidos. A segunda, mais específica do caso português, reflete os ajustamentos ocorridos na sequência da crise por que passámos na primeira metade da década e que explicam a perda de importância relativa do emprego na construção e nos serviços financeiros”.

Em termos comunitários, o próprio Eurostat refere que “a mudança para uma economia de serviços é uma tendência de longo prazo já observada na UE na segunda metade do século XX. Em 2018, o emprego nos serviços representou 74% do emprego total na UE, em comparação com 66% em 2000, enquanto o emprego na indústria diminuiu de 26%, em 2000, para 22%, em 2018, e a agricultura caiu de 8% para 4%”.

O Eurostat refere ainda que, entre os Estados-membros, a percentagem do emprego agrícola, em 2018, foi mais elevada na Roménia (23% do emprego total), Bulgária (18%), Grécia (11%) e Polónia (10%), enquanto as quotas mais elevadas para emprego industrial foram observados na República Checa (37%), na Eslováquia (32%), na Polónia (31%), na Roménia e na Eslovénia (ambos com 30%). As atividades de serviços representaram 80%, ou mais, do emprego total na Holanda, Reino Unido, Bélgica, Malta, França, Luxemburgo e Dinamarca.

Quem gera riqueza

Na mesma publicação, o Gabinete de Estatísticas da Comissão Europeia divulgou dados sobre a evolução do peso dos setores económicos no Valor Acrescentado Bruto (VAB) e por aí percebe-se que o comércio nacional esteve sempre à frente, tanto em 2000 (com 22,7%) como 18 anos depois (24,9%), e sempre acima da média da UE (19,1%).

O segundo setor que mais contribuiu para o VAB foi o da indústria, no início do novo milénio, seguido pela Administração Pública, posições que entretanto se inverteram no ano passado.

Foi nos serviços que se deram os maiores aumentos de importância no VAB, com destaque para as artes (+26%) e para as atividades científicas e tecnológicas (+20,6%). As exceções vieram dos serviços financeiros e seguros (-15,5%), da informação e comunicação (-2,7%) e da Administração Pública (-5,4%), que perderam preponderância, à semelhança do que ocorreu na indústria (-8,8%), na construção (-47,3%) e da agricultura (-34,28%).

Relacionando o emprego e o VAB, Carlos Brito assinala “o forte crescimento do emprego científico e tecnológico, o que é bom pois potencia uma economia baseada no conhecimento”. Mas, por outro lado, vê “com muita apreensão que o crescimento do peso do emprego na Administração Pública não é acompanhado por um aumento do peso do respetivo VAB, o que denota que o emprego aqui criado é menos gerador de riqueza para o país”.

À escala comunitária, indica o Eurostat, os serviços geraram 73% do VAB total, em 2018, a indústria 25% e a agricultura 2%.

Peso do emprego
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