Banco de Portugal denuncia farsa nas exportações

Carlos Costa, Banco de Portugal
Carlos Costa, Banco de Portugal

Os maiores exportadores portugueses contribuem bem menos do que se pensa para o aumento da riqueza interna da economia, vulgo PIB, diz o Banco de Portugal.

O caso mais evidente é o do sector dos produtos petrolíferos refinados, onde a Petrogal (grupo Galp) é o maior ator: é o grande exportador por excelência, em peso e em dinamismo anual, mas importa tanto que acaba por quase anular o seu contributo aparente para a expansão anual.

No boletim económico da primavera, o banco central governado por Carlos Costa denuncia a situação, analisando o que aconteceu em 2013. “Por exemplo, os produtos petrolíferos refinados reduzem o seu peso (de 7,8% nas exportações nominais totais de bens para 1,9%) enquanto os artigos de vestuário registam um aumento (de 5,5% para 7,1%)”. É a diferença entre considerar-se a evolução normal – utilizada pelo Governo para se congratular pelo sucesso do ajustamento externo – e usar uma medida corrigida da dependência desses sectores às importações.

Também o contributo líquido dos refinados é muito menor. As exportações de bens totais avançaram 27,4% em 2013, sendo que o contributo oficial do sector em causa se saldou em 2,1 pontos percentuais. A medida corrigida baixa essa ajuda para apenas 0,5 pontos.

Vestuário vale mais que combustíveis

Naquele exemplo em concreto, torna-se evidente que o sector do vestuário está muito mais emancipado em relação às importações, é mais nacional que os outros. Portanto, ajuda muito mais do que se julga à retoma da economia. O seu peso (corrigido) no total das exportações de mercadorias até é superior ao do sector dos combustíveis.

Segundo o Banco de Portugal, “é possível constatar que nos últimos anos as exportações nominais de bens têm registado na maioria dos meses uma taxa inferior quando se leva em consideração os conteúdos importados”. E que “um determinado aumento das exportações terá um impacto maior no PIB se assentar em bens com menor conteúdo importado”.

Em termos mais agregados, o Banco mostra que o contributo para o PIB de mais de 30% das exportações portuguesas em 2013 está sobrevalorizado. A seguir aos refinados, os sectores mais inflacionados são: petróleo bruto e gás natural; produtos associados a serviços de saneamento básico e tratamento de resíduos; produtos da pesca e da aquicultura; e produtos químicos, diz o estudo.

Este enviesamento não é um exclusivo de Portugal, é uma consequência de o país estar inserido nas “cadeias de valor globais”, como também observa o Banco, mas levanta o problema de saber se a retoma em curso pelas exportações não será em parte engolida pela dependência que muitos exportadores nacionais têm face à produção importada, sejam produtos intermédios, seja a tecnologia que o país não fabrica.

Esse risco da retoma pelas exportações poder não ser sustentável até foi visitado pelo FMI já este ano, provocando reações muito negativas no seio do Governo. Paulo Portas, o vice-primeiro-ministro, chamou às exportações “o porta-aviões da recuperação”.

O BdP manteve as projeções económicas publicadas em março. A economia deverá crescer 1,2% este ano. As exportações ajudam com 2,1 pontos, mas as importações engolirão na íntegra esse ganho. O crescimento só acontecerá graças à procura interna (consumo e investimento).

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