Coronavírus

Banco de Portugal. Recessão pode ir de 3,7% a 5,7% já este ano

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal na Assembleia da República. Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens
Carlos Costa, governador do Banco de Portugal na Assembleia da República. Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens

No mercado de trabalho, projeta-se uma queda do emprego de 3,5% e uma subida da taxa de desemprego para 10,1% em 2020, isto no cenário menos mau.

A economia portuguesa arrisca uma grave recessão este ano, que pode ir de uma quebra de 3,7%, num quadro moderado, a um colapso de 5,7%, num cenário mais adverso, projeta o Banco de Portugal (BdP), no novo boletim económico de março, divulgado esta quinta-feira. O desemprego vai regressar para valores acima claramente acima dos 10% já em 2020.

“As perspetivas para a economia portuguesa deterioraram-se abrupta e significativamente em resultado do impacto da pandemia Covid-19. A pandemia corresponde a um choque económico adverso com efeitos muito significativos e potencialmente prolongados no tempo em termos do bem-estar dos cidadãos e da atividade das empresas”, considera o banco central governado por Carlos Costa.

Os economistas do Banco avisam que mesmo os dois cenários obtidos não estão garantidos por causa da total incerteza que ensombra os próximos meses. “A incerteza exacerbada e a complexidade que caracterizam este exercício de projeção implicam que não seja possível apresentar um cenário mais provável para a evolução da economia portuguesa”.

Assim, o Banco de Portugal optou por elaborar dois cenários – um cenário base (menos desfavorável) e um cenário adverso (onde a pandemia tem efeitos mais devastadores).

“As projeções procuram ter em consideração o potencial impacto das políticas adotadas pelas autoridades nacionais e europeias em face do choque.”

Calcanhares de Aquiles: turismo, PME e pobres

O Banco alerta para o facto de Portugal apresentar “vulnerabilidades específicas face a um choque desta natureza”. Em primeiro lugar, “a importância do setor do turismo na atividade económica implica uma elevada exposição à redução esperada da procura global deste tipo de serviços, que será muito significativa”.

Depois um choque destes “coloca também dificuldades acrescidas ao tecido empresarial, dominado por empresas de pequena dimensão e com situação financeira relativamente frágil.”

“Finalmente, a elevada percentagem de famílias perto ou abaixo do limiar de pobreza em Portugal implica uma reduzida margem de absorção do choque perspetivado sobre o rendimento.”

Cenário base

Neste cenário menos agreste, em que as ajudas e os apoios públicos têm um efeito quase imediato no tecido económico e no mercado laboral, a economia afunda 3,7% em termos reais, este ano. Recorde-se que antes deste boletim e desta crise, o BdP projetava, em dezembro, um crescimento de 1,7% em 2020.

Aqui, “assume-se que o impacto económico da pandemia é relativamente limitado, o que decorre, em parte, da hipótese de que as medidas adotadas pelas autoridades económicas são bem-sucedidas na contenção dos danos sobre a economia”.

No ano que vem, a saída da crise acontece, mas ainda devagar. Os efeitos depressores parecem ser de facto duradouros. “A economia portuguesa apresenta um crescimento ainda fraco em 2021 (0,7%)”, diz o BdP.

Ainda em 2020, “projeta-se uma queda do emprego de 3,5% e uma subida da taxa de desemprego para 10,1% da população ativa em 2020”. “Refira-se que a evolução projetada para o desemprego depende crucialmente da configuração e magnitude das medidas de política que possam ser implementadas de imediato”, acrescenta o banco central.

Este ano, o consumo das famílias afundará 2,8%, o investimento colapsa 10,8% e as exportações afundam mais de 12%. As importações também devem cair quase 12%.

Fonte: Banco de Portugal

Fonte: Banco de Portugal

Cenário adverso

Mas com tanta incerteza e com o vírus ainda em fase de propagação exponencial, o banco central fez contas a um “cenário adverso”, no qual assume que o impacto económico da pandemia “é mais significativo devido à paralisação mais prolongada da atividade económica em vários países, conduzindo a maior destruição de capital e perda de emprego”.

Este cenário considera também “níveis de turbulência mais significativos nos mercados financeiros”.

Nestas condições, a recessão será “mais profunda”, com o PIB [produto interno bruto] a afundar 5,7% em 2020. Nos anos seguintes, a atividade económica recupera, prevendo-se um crescimento de 1,4% em 2021, diz o BdP.

“A taxa de desemprego aumenta mais marcadamente em 2020, para 11,7%, e apesar da redução esperada nos anos seguintes mantém-se em níveis superiores aos do cenário base (10,7% e 8,3%, respetivamente, em 2021 e 2022).”

O consumo privado pode diminuir 4,8% em 2020, até porque a queda do emprego é maior, o desemprego muito superior e as condições financeiras “mais desfavoráveis”.

Neste cenário adverso, o investimento colapsa 14,9% em 2020 face ao ano passado e assume-se que o mundo entra em recessão.

Neste quadro “de colapso do comércio mundial, a procura externa dirigida à economia portuguesa reduz-se mais significativamente e determina uma queda de cerca de 19,1% das exportações de bens e serviços em 2020”. As importações afundam 18,7%.

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Fonte: Banco de Portugal

(atualizado 14h45)

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