Money Conference

Bancos e fintech. O casamento ainda não é perfeito

(Orlando Almeida / Global Imagens)
(Orlando Almeida / Global Imagens)

Seis líderes de startups alertaram para a importância de unir a banca com as novas empresas financeiras

A relação começou tremida, com desconfianças de parte a parte. Dez anos depois do primeiro encontro, os bancos e as fintech, ainda não morrem de amores, mas começam a perceber aos poucos que a união tem pernas para andar. “Temos opiniões diferentes, mas estamos todos no mesmo barco”, lançou Sebastião Lancastre, CEO da EasyPay, durante o debate da Money Conference que deu voz às startups digitais da banca.

A conferência organizada pelo Dinheiro Vivo desafiou os “banqueiros” da era digital a responder às provocações lançadas pelos líderes dos grandes bancos nacionais. A alegada falta de regulação das fintech foi o tema que aqueceu o debate: “Essa conversa já cansa, porque nós somos regulados”, começou por defender Duarte Líbano Monteiro, country manager ibérico da Ebury, uma empresa espanhola de gestão de câmbios que abriu em janeiro um escritório em Lisboa.

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“A regulação dos bancos deve-se a problemas do passado. Serve para proteger os depósitos dos clientes e ajuda a banca em muita coisa. Mas não faz sentido as fintech serem sujeitas à mesma regulação, é como termos uma sala de aula cheia de alunos mal comportados que estão de castigo. Eu sou um aluno novo, também tenho de estar de castigo?”, questionou. O responsável não tem dúvidas de que “os clientes hoje estão mais satisfeitos com os serviços das fintech, porque são mais rápidos, mais limpos e mais baratos. E são seguras, porque têm regras, às vezes mais pesadas que as dos próprios bancos”.

 

A visão é partilhada pelo CEO da EasyPay: “Nós somos regulados tal e qual como os bancos. Mas somos mais ágeis e levamos a regulação ao limite, porque percebemos que os consumidores querem algo diferente”, sublinhou Sebastião Lancastre. É na percepção dessa vontade, defenderam em uníssono os seis líderes digitais, que está o muro mais difícil de derrubar entre a nova banca e a finança tradicional.

“Vemos com algum amargo de boca esta resistência dos bancos, porque desde 2009 que nos oferecemos para colaborar e durante este tempo todo eles assobiaram para o lado. Só agora, finalmente, começam a olhar a sério para as fintech”, considera Sebastião Lancastre. O CEO da EasyPay foi ainda mais radical ao afirmar, sem rodeios, que “o modelo atual dos bancos está morto”.

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Renato Oliveira não tem tantas certezas. O CEO da ebankIT, uma fintech do Porto que oferece serviços para a atualização digital das instituições financeiras, defende antes que “a banca deixou de investir nos últimos dez anos”, devido aos estragos provocados pela crise. Mas está agora a esforçar-se para “tentar recuperar o tempo perdido”. O responsável não tem dúvidas de que a banca “vai ter de ser muito mais ágil e investir muito mais dinheiro” se quiser apanhar o comboio da revolução digital.

Optimista, Renato Oliveira, prevê que o futuro passa pelo aprofundar das parcerias. “Vai haver um modelo híbrido, misto, entre as chamadas fintech e a banca tradicional”.

Para Miguel Duarte Fernandes, esse modelo há anos que faz parte do quotidiano. É o líder em Portugal da Paypal, a “mãe” das fintech, que desde 1998 oferece um serviço de pagamentos online. Em Portugal, tem 700 mil utilizadores. Para o responsável, a chave de uma boa relação com a banca é não olhar para ela como concorrência: “Trabalhamos e damo-nos bem com todos os players do sistema financeiro. Em Portugal temos uma parceria com o BPI e em Espanha com o La Caixa, por exemplo”.

Segundo Miguel Fernandes, a boa relação da PayPal com os bancos deve-se ao facto de, desde cedo, se ter estabelecido uma relação de dependência entre os dois serviços. “Os bancos começaram a ver que o PayPal servia para ajudar os clientes, porque acrescenta segurança e simplicidade às operações bancárias. E, enquanto os pagamentos continuarem a passar pelos bancos, através do crédito por exemplo, nós vamos continuar a trabalhar com eles. Provavelmente durante muitos anos”, antecipa.

Filipe Moura também não tem razões de queixa. O CEO da Ifthenpay, conhecida pelo serviço que gera referências multibanco, afirmou que “muitas vezes” os clientes da startup “até chegam aconselhados pelos bancos”.

A ameaça das big tech
O responsável identifica ainda outro ponto de contacto entre os dois lados da barricada: há um “inimigo” em comum que se chama big tech. São empresas bem conhecidas do grande público, ou não andassem nos bolsos de toda a gente. Por exemplo? Google, Facebook, Amazon ou Apple. “Essas empresas é que são a grande ameaça, tanto para os bancos como para as startups. Porque têm muito mais potencial para serem mandatadas pelas pessoas para movimentarem uma conta bancária”, explica.

Também Miguel Santo Amaro é um crente no potencial das sinergias entre a banca e as fintechs. O CEO da Uniplaces deu o exemplo do open banking. “A partir de agosto de 2019 vou conseguir criar um banco digital com licença na Europa por 5 mil euros por mês. O crédito vai ter de mudar em 2019 e isso é o presente, não o futuro. As fintech vêm com oportunidades gigantes para os bancos”.
Quanto a um possível salto da Uniplaces do universo do arrendamento para a órbita das fintech, Santo Amaro põe, para já, a hipótese de parte. “Houve um hype gigante em torno do blockchain e das moedas digitais no final do ano passado e chegámos a avaliar isso internamente. Mas agora as coisas estão mais calmas, não é a melhor altura para pensarmos em lançar uma criptomoeda. Vamos esperar por uma altura melhor para voltar a analisar”, revelou ao Dinheiro Vivo, à margem do debate da Money Conference.

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Foi também já fora do palco e dos holofotes que Sebastião Lancastre sugeriu o mote da próxima conferência. “Acho que seria interessante juntar frente a frente as fintechs com os bancos. Até porque nesta conferência, do painel dos banqueiros só ficou aqui um para nos ouvir. Os outros não querem saber o que temos para dizer?” desafiou o CEO da Easypay.

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