reunião BCE

Bancos podem vender ao BCE dívida pública que dá prejuízo

Mario Draghi
Mario Draghi

O novo programa de compra de dívida pública (quantitative easing) de 60 mil milhões de euros por mês até setembro de 2016, pelo menos, vai arrancar na segunda-feira e até permitirá comprar obrigações do Tesouro com taxas de juro negativas (mínimo de -0,2%), revelou ontem Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu.

Dito de outra forma, os bancos da zona euro vão poder vender ao BCE dívida que dá prejuízo (remuneração negativa) a quem nela investiu. Uma taxa de juro negativa significa que o credor está a pagar para emprestar ao Estado.

Paulo Soares Pinho, professor de Banca e Finança da Universidade Nova de Lisboa, prevê que os bancos comerciais portugueses sejam “pouco ou nada abrangidos pela medida“, uma vez que as OT portuguesas (entre os dois e os 30 anos de maturidade, o universo alvo do BCE) estão com taxas de juro positivas.

Já o mesmo não se pode dizer dos títulos de países como Alemanha, Finlândia, Áustria, que já fazem emissões com taxas abaixo de zero. “Esse critério é uma forma do Eurosistema poder comprar dívida de alta qualidade e risco zero, de maximizar o universo de linhas obrigacionistas ao alcance do novo programa de compra de títulos de dívida”, acrescentou Soares Pinto.

Ontem, Mario Draghi revelou, a partir de Nicosia, Chipre, que o limite mínimo para as compras será o da taxa de facilidade de depósito, atualmente em -0,2%.

“Como os bancos têm de pagar para poderem pôr o dinheiro no BCE [para as operações normais de liquidez], o BCE acabará por não perder nada nas compras de dívida com taxas negativas”, atirou o especialista da Nova.

Compras começam a 9 de março

Draghi disse que “começará a comprar obrigações do setor público no mercado secundário a 9 de março”, mas que “já se observa um número significativo de efeitos positivos na sequência da decisão de lançar as compras de dívida pública“, sublinhou. As linhas gerais foram anunciadas em janeiro.

Desde então, as taxas de juro soberanas do euro (com exceção da Grécia) acentuaram as descidas. Só para se ter uma ideia, a taxa portuguesa a dez anos negoceia hoje abaixo de 1,8%. Agora que se sabem mais detalhes do QE, os observadores dos mercados financeiros estimam que o euro caia ainda mais, o mesmo devendo acontecer com os juros das OT.

O programa, que injetará um total de 1,14 biliões de euros (no mínimo) em dinheiro fresco e ultra- barato nos bancos da zona euro, será tanto mais eficaz quanto mais os bancos se livrarem de dívida pública que atualmente remunera pouco ou dá mesmo prejuízo, usando o dinheiro novo do BCE para investir noutro tipo de ativos ou para devolver em forma de crédito à economia real (empresas). Assim esperam os banqueiros centrais do euro.

Até setembro de 2016, estimou na quarta-feira Cristina Casalinho, do IGCP, os bancos portugueses poderão vender ao BCE cerca 16 a 17 mil milhões de euros de dívida, recebendo em troca dinheiro (liquidez total) de Frankfurt. Poderia ser mais não tivesse já o BCE 14,9 mil milhões de euros em dívida portuguesa adquirida ao abrigo de um outro programa (SMP).

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Ilustração: Vítor Higgs

Indústria têxtil em força na principal feira de Saúde na Alemanha

O Ministro das Finanças, João Leão. EPA/MANUEL DE ALMEIDA

Nova dívida da pandemia custa metade da média em 2019

spacex-lanca-com-sucesso-e-pela-primeira-vez-a-nave-crew-dragon-para-a-nasa

SpaceX lança 57 satélites para criar rede mundial de Internet de alta velocidade

Bancos podem vender ao BCE dívida pública que dá prejuízo