BCE apoia alívio da dívida grega, mas não um haircut à FMI

Mario Draghi (BCE), François Hollande (França) e Alexis Tsipras (Grécia)
Mario Draghi (BCE), François Hollande (França) e Alexis Tsipras (Grécia)

A Alemanha, através do seu ministro das Finanças, continua a insistir na ideia da saída temporária da Grécia da zona euro. O presidente do Banco Central Europeu (BCE) quis por um ponto final na conversa: "a Grécia é e continuará a ser um membro da zona euro". Mais: Draghi defendeu um "alívio da dívida" dentro das regras europeias.

Na questão da sustentabilidade da dívida, Mario Draghi faz eco das propostas recentes da Comissão e da cimeira. Haircut é que não terá pernas para andar, como está patente no comunicado da cúpula do euro, de 12 de julho. E ao contrário do que deseja o FMI.

Depois a questão da integralidade do euro. Ontem de manhã, em entrevista à rádio alemã Deutschlandfunk, Wolfgang Schäuble tornou a insinuar que a Grécia não deve conseguir sobreviver na moeda única com uma dívida gigantesca e que o melhor seria o país sair temporariamente da área da moeda única.

Poucas horas depois, em Frankfurt, Mario Draghi, com quem Schäuble terá tido discussões desagradáveis ao longo das últimas semanas e sucessivas reuniões do Eurogrupo, lembrou ao governante que existe um Tratado e que à luz dele “temos um mandato para cumprir”. A integralidade da zona euro deve ser preservada.

Alívio à moda europeia

O banqueiro central italiano reconheceu que há um problema grave com a sustentabilidade da dívida grega. Nesse sentido, “é necessário um alívio de dívida”, uma ideia que, disse, nem sequer é controversa dentro da Europa.

Ora, a posição comum dos líderes do euro (cimeira), na qual Draghi tem assento, já admite “medidas adicionais” como “períodos de graça e de pagamento mais longos”, mas nunca cancelamentos da dívida (haircuts) como prefere o FMI. “Não poderão ser feitos cortes nominais na dívida”, vinca bem o texto final da cimeira da segunda-feira passada.

O mesmo que dizer que cortes no capital em dívida estão mesmo fora de questão.

Anteontem, a Comissão Europeia juntou-se ao coro europeu. Disse inclusive que a dívida grega só é sustentável com “uma alteração de perfil muito substancial”, sugerindo “maturidades mais longas para os empréstimos existentes e novos”, “moratória nos juros” e “financiamento a taxas AAA”.

Alívio à moda do FMI

A missão do FMI na Grécia advoga que a dívida grega é “altamente insustentável”. Embora admita um alívio como querem os europeus, o Fundo diz que a situação é tão grave que isso só vais servir para adiar a resolução do problema.

“A dívida da Grécia só pode ser tornada sustentável através de medidas de alívio que vão muito além daquilo a que a Europa está, até agora, disposta a considerar”, acrescentou a equipa do FMI no estudo divulgado terça à noite.

Assim, o ideal era enfrentar já o monstro e cortar no capital. Mas só na parte da dívida à Europa. FMI e credores privados devem ficar fora desta equação, defendeu a missão há duas semanas, sugerindo um haircut de 53 mil milhões.

Sete mil milhões já para Atenas

Entretanto, Atenas está sem dinheiro e precisa de, pelo menos, sete mil milhões de euros para pagar ao BCE a 20 de julho e ao FMI. É o empréstimo ponte.

O Eurogrupo aprovou a verba, extraída do antigo Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (MEEF) que tinha 13 mil milhões lá parados. Só que este fundo pertence aos 28 membros da UE. É importante ter a aprovação dos Estados não-euro, como Reino Unido, Dinamarca ou Suécia. Todos eles levantaram problemas, mas a zona euro e a Comissão já garantiram que o fundo europeu permanente (MEE ou ESM) pode ressarcir o dinheiro caso alguma coisa corra mal. Parece que já há fumo branco.

Além disso, a Grécia tem de pagar o que tem em atraso ao FMI (desde 30 de junho) para que a instituição se mantenha a bordo do novo resgate. Ontem, Schäuble revelou outra dificuldade: segundo a Reuters, disse ao Parlamento alemão que o FMI não deve participar na primeira tranche do terceiro resgate grego, a desembolsar em meados de agosto. O FMI quer garantias sobre a sustentabilidade da dívida e o compromisso do Governo nas reformas prometidas. Quer esperar até ao outono.

Mais 900 milhões do BCE para a banca

Entretanto, Draghi anunciou o reforço da linha de emergência (ELA)da banca grega, em 900 milhões de euros ao longo desta semana, para 89,9 mil milhões. Uma forma manter os bancos à tona, mas que ainda assim terão de ficar fechados até sexta-feira, podendo abrir na segunda de manhã, disseram as Finanças helénicas.

O controlo de capitais (limites aos movimentos, aos depósitos, às transferências) devem continuar ativos até meados de agosto. Antes, é preciso recapitalizar os bancos em cerca de 25 mil milhões de euros.

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