Coronavírus

BCE dispara nova bazuca de dinheiro a custo zero para banca e empresas

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Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu. Fotografia: EPA/STEPHANIE LECOCQ

Quantitative easing engorda 120 mil milhões até final do ano e será mais canalizado para empresas privadas. Bancos vão poder falhar limites de capital

O Banco Central Europeu (BCE) decidiu manter as taxas de juro de referência inalteradas nos mínimos históricos, mas anunciou esta quinta-feira um pacote substancial de ajudas “temporárias” e de emergência para tentar responder à crise do novo coronavírus.

“Consideramos o choque atual severo, mas será temporário se as medidas corretas forem tomadas por todas as partes envolvidas”, designadamente os governos, com “respostas fortes” em termos orçamentais, pediu a presidente do BCE, Christine Lagarde.

Num outro comunicado enviado em simultâneo, o BCE também anunciou um “alívio” temporário das regras de capital e operacionais que os bancos são obrigados a respeitar de modo a conseguirem reagir melhor aos efeitos do coronavírus no sector bancário e financeiro.

Relativamente ao primeiro pacote, o que define diretamente os juros, trata-se, na prática, de uma nova bazuca de dinheiro ultrabarato, agora mais direcionada para as empresas privadas, designadamente PME (pequenas e médias empresas) e uma nova linha especial para apoiar os bancos da zona euro, anunciou a instituição esta quinta-feira.

Frankfurt decidiu, entre outras medidas que expandem o fluxo de dinheiro muito barato, aumentar de forma expressiva, em mais 120 mil milhões de euros até ao final do ano, o valor das compras de dívida (programa de compra de ativos, QE ou quantitative easing), “assegurando uma forte contribuição dos programas de compras do sector privado”.

Em comunicado, o banco central anunciou primeiro que “serão realizadas temporariamente operações adicionais de refinanciamento (LTRO) a longo prazo, para fornecer apoio imediato à liquidez do sistema financeiro da zona euro”.

Já as taxas de juro das principais operações de refinanciamento, as taxas marginais de empréstimo e as taxas de depósito aplicadas aos bancos do euro “permanecerão inalteradas em 0%, 0,25% e -0,5%, respetivamente”.

Mercados desiludidos com resposta de Lagarde

Os “mercados” reagiram a este anúncio do BCE de forma negativa porque estavam à espera de medidas muito mais musculadas para fazer baixar ainda mais o custo do dinheiro. Novos cortes nos juros, na taxa de depósito, por exemplo. Mais dinheiro do que o anunciado para o tal programa QE.

Muitos disseram que o BCE não está a fazer tudo o que é necessário para combater esta crise do coronavírus e que ficou aquém da resposta anunciada pelo Banco de Inglaterra, por exemplo.

Vários analistas estavam à espera de um novo corte na taxa de depósito (que é negativa) de -0,5% para -0,6%, o que não aconteceu. Isto depois de a Reserva Federal e de o Banco de Inglaterra terem descido diretamente as suas taxas de juro. O BCE fica assim isolado como o banco que nada fez agora neste domínio.

Mais dinheiro direcionado aos que precisam

O BCE diz que não nota sinais relevantes de tensão nos mercados monetários ou de escassez de liquidez no sistema bancário, mas em todo o caso estas novas LTRO “fornecerão um apoio efetivo em caso de necessidade”.

Este dinheiro será distribuído através de “leilão de taxa fixa com colocação total, com uma taxa de juro igual à taxa média na facilidade de depósito”, que é negativa (a taxa de depósito permanente continua em -0,5%).

Estas novas LTRO “fornecerão liquidez em condições favoráveis até à operação TLTRO III” que acontecerá em junho de 2020, diz o BCE.

Depois, nesse programa TLTRO III “serão aplicados condições consideravelmente mais favoráveis durante o período de junho de 2020 a junho de 2021 a todas as operações pendentes no mesmo período”.

O BCE diz que essas “operações apoiarão os empréstimos bancários aos mais afetados pela propagação do coronavírus, em particular pequenas e médias empresas. Ao longo deste período, a taxa de juro destas operações TLTRO III será 25 pontos base abaixo da taxa média aplicada nas principais operações de refinanciamento do Eurossistema”.

Anna Stupnytska, uma das economistas principais da gestora de fundos Fidelity, explica que o BCE “decidiu concentrar-se em áreas mais específicas, onde a ajuda será necessária”.

“A combinação do impulso ao programa de QE focado em ativos privados, juntamente as condições muito atrativas das TLTRO – nas quais os bancos serão efetivamente pagos para contrair empréstimos junto do BCE e depois emprestar ao setor privado – é inequivocamente um passo na direção certa”, acrescenta a analista.

Mais 120 mil milhões de euros para o quantitative easing

Além destes empréstimos aos bancos para que estes supostamente os canalizem para financiar empresas mais pequenas, o BCE anunciou um reforço do programa já de si enorme de compra de ativos, o QE ou quantitative easing.

Assim, o BCE avança agora com “um envelope adicional temporário de compras adicionais de ativos 120 mil milhões de euros que será adicionado até ao final do ano, garantindo uma forte contribuição dos programas de compras do setor privado”. Ou seja este dinheiro será mais usado para comprar dívida empresarial e privada aos bancos da zona euro em vez de dívida pública.

Recorde-se que as compras líquidas ao abrigo do programa de compra de ativos (asset purchase programme – APP) decorrem atualmente “a um ritmo mensal de 20 mil milhões de euros” e que o BCE “espera que estas aquisições decorram enquanto for necessário”.

O reforço de 120 mil milhões de euros até final de 2020 em combinação com o programa de compra de ativos (APP) existente “apoiará condições favoráveis de financiamento para a economia real nestes tempos de incerteza elevada”, disse Lagarde aos jornalistas, em Frankfurt, numa sala de imprensa com imensos lugares vazios (ao contrário do que é habitual) uma vez que vários jornalistas decidiram trabalhar à distância por causa dos riscos de contaminação do novo vírus.

(atualizado 16h50)

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