BCE quer esperar para ver. Já há vacinas, Brexit e Biden nos EUA, mas pandemia está muito pior

"Face ao agravamento da situação sanitária e ao regresso das medidas de confinamento, o BCE deve reiterar a sua capacidade para fazer mais", diz um analista.

Há pouco mais de um mês, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu manter os juros em mínimos históricos e reforçar a chamada bazuca de dinheiro ultrabarato (sobretudo os programas de compra de Obrigações do Tesouro) em mais 40%, em cerca de 500 mil milhões de euros. Desde então vários problemas ou incertezas foram clarificados, mas outros surgiram com maior violência.

Esta quinta-feira, o conselho presidido por Christine Lagarde deve deixar tudo igual e esperar para ver, referem vários analistas. A decisão será conhecida às 12h45, como é habitual, e explicada na conferência de imprensa que começa às 13h30 (hora de Portugal).

Como referido, há pouco mais de um mês as perspetivas sombrias que pairavam sobre a zona euro e a estabilidade de preços levaram o BCE a elevar o programa de compra de ativos (dívida pública e privada) no âmbito da emergência pandémica para um total de 1,85 biliões de euros.

Nessa altura, havia três pedras na engrenagem. As vacinas covid-19 ainda não estavam no terreno, ainda não era seguro que o então Presidente Eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, conseguisse chegar ao cargo, e não havia acordo final para a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit).

Estes três problemas, entretanto, dissiparam-se. As vacinas chegaram, Biden foi empossado esta quarta-feira e o acordo final do Brexit lá foi alcançado depois de anos de impasses, avanços e muitos recuos.

Há um mês, com a pandemia a ganhar força, o BCE decidiu prolongar o prazo do seu programa especial contra a crise pandémica até dois anos, pelo menos, até ao final de março de 2022 na melhor das hipóteses.

Depois disso, garantiu a instituição sediada em Frankfurt, os títulos na posse do BCE e que forem vencendo mantêm-se no balanço do banco central (serão reinvestidos) "até, pelo menos, ao final de 2023".

As taxas de juro de referência ficaram em mínimos históricos, em 0% e abaixo de zero.

O BCE notou na altura que a situação era grave e por isso avançou com mais artilharia de dinheiro pesado através de outros programas que tem no seu arsenal.

Entretanto, a situação sanitária piorou muito e a maioria dos países do euro voltaram a impor medidas muito restritivas de confinamento, com tudo o que isso significa para a atividade económica: eventualmente, uma nova recessão já no início deste ano.

Numa nota enviada aos jornais, Franck Dixmier, dirigente e especialista sénior em mercados de renda fixa (obrigações) da Allianz Global Investors (AllianzGI), refere que "as medidas anunciadas na última reunião do BCE em dezembro devem ser suficientes para garantir que os mercados se mantêm estáveis, embora o Banco deva deixar claro que pode fazer mais, se necessário."

Ou seja, a gestora de fundos não espera "quaisquer novos anúncios significativos na próxima reunião [esta quarta-feira]".

No entanto, Dixmier considera que "face ao agravamento da situação sanitária e ao regresso das medidas de confinamento, o BCE deve reiterar a sua capacidade para fazer mais, se necessário".

Lagarde deverá, pois, sublinhar a ainda melhor a ideia de que o BCE está pronto para agir até ser necessário e a economia e os preços serem relançados de forma sustentável e ordeira.

"O roteiro muito claro do BCE foi bem compreendido pelos investidores, conforme o demonstra a estabilidade dos mercados", diz o diretor de investimento da Allianz GI.

As últimas palavras de Lagarde fizeram saber, na visão do BCE, a crise pandémica deve levar dois anos a ficar resolvida, na melhor das hipóteses.

Em setembro, o BCE estimava que a situação pudesse ficar sanada em junho de 2021 (o programa especial de emergência pandémica era para terminar daqui a pouco mais de seis meses), mas aparentemente vai ser preciso mais nove meses para garantir uma saída convincente desta má situação, explicou Christine Lagarde, a 10 de dezembro.

Portanto, a desejada meta deslizou e o final desta crise, com uma retoma já a "ganhar raízes", só deve acontecer em março de 2022 (oficialmente, a pandemia começou em março deste ano), referiu a chefe do banco central do euro.

Questionada sobre porquê mais nove meses de bazuca de emergência, a resposta foi clara e óbvia: porque a crise a isso impõe.

"Temos razões para acreditar que, até ao final de 2021, com incerteza associada a isso, sejamos claros, iremos alcançar imunidade de grupo suficiente para podermos esperar que no final de 2021 a economia comece a funcionar em circunstâncias mais normais e que, em particular, o setor dos serviços não seja penalizado por muitas destas medidas de distanciamento social e restritivas", respondeu a ex-chefe máxima do FMI.

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