BCE reage à guerra e à inflação com corte nas compras de dívida até junho, pelo menos

Taxas de juro de referência da zona euro continuam em mínimos, programa de especial de compra de dívida dedicado à pandemia (PEPP) será mesmo descontinuado no final deste mês, confirma o BCE.

O programa principal de compra de ativos do Banco Central Europeu (BCE), designado APP, vai ser reduzido já nos próximos três meses (abril a junho), as taxas de juro de referência da zona euro continuam em mínimos, mas o programa especial de compra de dívida pública e outros títulos dedicado ao combate à pandemia (PEPP) será mesmo descontinuado no final deste mês, como previsto, revelou esta quinta-feira o banco central liderado por Christine Lagarde.

Segundo Lagarde, "a invasão da Ucrânia pela Rússia", "a guerra da Rússia contra a Ucrânia", veio afetar muito negativamente a economia europeia e da zona euro, em particular, e está a levar a um aumento muito agressivo da inflação e da incerteza. Para arrefecer a inflação e estabilizar os mercados financeiros, o BCE decidiu acelerar o desmame dos bancos em relação ao dinheiro muito barato por si fornecido e rapidamente. De abril a junho, pelo menos.

O referido programa Asset Purchase Programme (APP), que também compra dívida pública, estava a absorver títulos detidos pelos bancos comerciais a um ritmo de 20 mil milhões de euros por mês até o BCE decidir acabar com o programa de compras de emergência pandémica (PEPP) na reunião de dezembro.

Nessa altura, antes da guerra, para não provocar um choque no mercado e compensar a descontinuação do PEPP (em março de 2022), o BCE decidiu que iria subir temporariamente o fluxo de compras de dívida do APP para 40 mil milhões de euros no segundo trimestre (abril a junho de 2022) e depois reduzir para 30 mil milhões mensais no terceiro trimestre.

E disse que, de outubro de 2022 em diante, o APP regressaria ao ritmo atual de compras de 20 mil milhões de euros.

Ora, tudo isto pode não acontecer por causa da inflação que disparou e está quase descontrolada, ameaçando o mandato do BCE, que é manter o ritmo dos preços da zona euro perto do eixo dos 2%.

Agora, com a ameaça da inflação muito elevada, o BCE decidiu ajustar imediatamente em baixa as compras entre abril e junho. Em abril, diz que mantém as aquisições líquidas de dívida pública e outros ativos nos 40 mil milhões de euros, mas em maio corta para 30 mil milhões e em junho para 20 mil milhões de euros.

Arrefecer uma economia em brasa e em guerra

Esta redução no ritmo de compras de títulos aos bancos é, na prática, uma forma de subir juros (torna o dinheiro mais caro uma vez que os bancos comerciais ficam com menos acesso a fundos ultra baratos do BCE).

Subindo o custo do dinheiro, o BCE espera arrefecer o avanço da inflação, que disparou com o encarecimento explosivo dos combustíveis (gás, gasolinas, gasóleos, etc.), mas também de outras matérias primas vitais, como cereais, outros alimentos, fertilizantes.

A presidente Christine Lagarde e os restantes governadores do BCE estão de facto muito preocupados com o rumo dos preços, que corrói o poder de compra das famílias e as margens das empresas, impondo custos de produção cada vez mais pesados e insustentáveis.

"A inflação pode ser consideravelmente mais alta no curto prazo", disse Lagarde.

No comunicado desta quinta-feira, o BCE também não se compromete com os 30 mil milhões de euros em compras por mês no terceiro trimestre acordados na reunião de dezembro. Diz que vai ver à luz dos dados que forem saindo.

E deixa claro que se as expectavas e perspetivas de médio prazo para a inflação "não enfraquecerem", então também acaba com o APP no terceiro trimestre.

(Atualizado às 13h00 com a correção de título e lead. Inicialmente escreveu-se que BCE reage à guerra com ligeiro reforço de compras de dívida, quando a ação do banco central é a contrária e às 14h00 com informação adicional e declarações de Lagarde)

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