dívida pública

BCE terá de comprar ainda menos dívida do que diz Draghi. E já em 2017

Mario Draghi. Fotografia: REUTERS/Kai Pfaffenbach
Mario Draghi. Fotografia: REUTERS/Kai Pfaffenbach

Standard & Poor’s e Ifo dizem que BCE terá de comprar menos dívida pública em 2017. Draghi vai reduzir para 60 mil milhões. S&P diz 40 mil milhões.

Duas influentes instituições – a agência de rating Standard & Poor’s (S&P) e o Instituto para a Investigação Económica (Ifo), sediado em Munique – preveem que o Banco Central Europeu (BCE) terá de reduzir ainda mais as compras de dívida pública e de ativos do setor privado neste ano ao abrigo do seu programa de expansão monetária (quantitative easing).

Em vez de cortar as aquisições mensais dos atuais 80 mil milhões de euros para 60 mil milhões a partir de abril, a S&P diz que é bem possível que a partir de junho o volume de compras de títulos (em que a dívida pública tem um peso de quase 70%) tenha de cair para 40 mil milhões de euros, ou seja, metade do volume atual.

Razão: a inflação está a subir, devagar, é certo, mas na Alemanha, a maior economia do euro, os aumentos são já muito mais inequívocos, podendo haver inclusive efeitos de segunda ordem relacionados com as atualizações salariais, argumenta a agência de notação financeira.

Jean-Michel Six, o economista-chefe da S&P para a Europa, defende que “estamos a antecipar, apesar das pressões crescentes que vêm da Alemanha, uma redução das compras muito gradual e cautelosa na segunda metade desde ano para, talvez, 40 mil milhões de euros ao mês”.

Até agora, o BCE só se compromete a comprar dívida àquele ritmo de 60 mil milhões de euros ao mês a partir de abril e até dezembro.

Jean-Michel Six vai mais longe. O BCE deve cortar mais nas compras, mas estende o seu programa de QE ao primeiro semestre de 2018. “Antecipamos um corte adicional na primeira metade de 2018”, mas “a magnitude desta redução irá depender das condições globais de crédito que prevaleçam na altura”.

Pressão para as taxas de juro subirem

Desde agosto que as taxas de juro da dívida pública portuguesa a dez anos (na altura estavam em 2,7%) têm estado a subir de forma persistente à boleia de rumores de que o BCE teria de repor o nível de compras nos 60 mil milhões de euros, anúncio que acabou por acontecer na reunião de dezembro último.

Se houver nova perspetiva de downsizing da expansão monetária, é previsível que haja novo agravamento dos juros da República.

Claro que Portugal não está sozinho, outros países também sentem o mesmo problema, a dependência face à máquina do dinheiro barato do BCE. Só que Portugal está pior porque tem uma dívida pública muito maior (130% do PIB), uma fatura anual de juros pesadíssima para o défice (8,3 mil milhões de euros) e enfrenta taxas de juro muito mais caras do que as de Espanha ou Irlanda no mercado secundário.

Ontem, a taxa portuguesa (obrigações a dez anos) estava outra vez a subir, tocando quase nos 3,9%. Quando o QE foi lançado, em março de 2015, os juros portugueses chegaram a cair para 1,5%. Hoje são bem mais do dobro.

A maior agência de rating também não está sozinha. O influente instituto alemão Ifo, que tem sido ferozmente contra o BCE andar a comprar dívida pública aos bancos (pois isso contamina o balanço do banco central com maus ativos, pondo em risco os contribuintes, designadamente os alemães), também defende que Mario Draghi deve ir mais longe e depressa na redução do QE.

Clemens Fuest, o presidente do Ifo, “lamenta que o BCE não tenha decidido reduzir as compras mensais para menos de 60 mil milhões já em abril. Teria sido melhor recuar nas aquisições mensais em dez mil milhões”, ou seja, cortar de 80 para 50 mil milhões.

E porquê? Fuest acredita que ”a inflação da zona euro irá aumentar para uma média anual de 1,5% em 2017, valor que está perto da meta do BCE – 2% -, o que enfraquece os seus argumentos em defesa das compras de obrigações soberanas”.

Na mais recente reunião sobre taxas de juro, na semana passada, o presidente do BCE, Mario Draghi, reiterou que o plano é continuar a comprar dívida até que a inflação suba de forma convincente e reiterada até ao limite de quase 2%.

Sem isso nada feito. Mas a verdade é que a partir de abril começa já a reduzir os apoios. Razão: “A inflação aumentou recentemente, em grande medida devido a efeitos de base nos preços dos produtos energéticos, mas as pressões inflacionistas subjacentes permanecem fracas.”

O economista-chefe da S&P fala mesmo de um “minichoque petrolífero”, numa subida de 110% nos preços do Brent “nos 12 meses que terminaram em 19 de janeiro”.

E apesar de a inflação sem petróleo (subjacente) “permanecer muito mais baixa”, Jean-Michel Six diz que, “como sempre, o diabo está nos detalhes”. “Há uma exceção” que baralha tudo isto. “Na Alemanha, todas as medidas de inflação estão a subir de forma consistente.” A Alemanha é o maior acionista do BCE e vale 30% da zona euro.

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