a vida do dinheiro

Braga de Macedo. “Vivemos uma situação de anestesia, isto é sol de pouca dura”

Jorge Braga de Macedo. Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens
Jorge Braga de Macedo. Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens

Braga de Macedo diz que Portugal, hoje, lhe causa “perplexidade”, que a austeridade continua, mas sob uma máscara de “sorrisos”.

Jorge Braga de Macedo foi ministro das Finanças no início dos anos 90, na segunda maioria absoluta PSD, do então primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva.

Fez o serviço militar em Angola, viveu e estudou muitos anos nos Estados Unidos, morou em Paris, mas atualmente é entre Lisboa e Sintra que se move mais amiúde. Nos anos 90, foi um dos negociadores do Tratado de Maastricht e dos termos da entrada de Portugal na União Económica e Monetária, a zona euro.

Afastado da política ativa, está concentrado no ensino da Economia, nos estudos tropicais e na relação entre Portugal e as nações lusófonas e dirige o Centro Globalização e Governação, na Universidade Nova.

Nasceu em Lisboa, há 72 anos, a 1 de dezembro de 1946. É casado, tem duas filhas e um filho. E um novo livro sobre o ensino de macroeconomia.

Menos défice, menos dívida, menos desemprego, mais crescimento. É mérito do governo ou da conjuntura?

Com franqueza, a situação atual em Portugal é causa de perplexidade porque toda a gente parece estar com uma confiança no futuro que é desmentida, não só por uma indicação mais miudinha do que se está a passar, a ausência de reformas estruturais, a singular ausência de más notícias, como pela situação preocupante da Europa e mundial. As políticas terão de melhorar senão os países mirram ou desaparecem – estou a ser um bocadinho provocativo para responder à sua provocação. A situação em Portugal neste momento é “perplexizante”. Temos a consciência de que muitos dos problemas de 1992, que têm que ver com Maastricht e a União Europeia, são resolvidos de uma maneira lá fora e depois cá é o contrário. É a solução do governo nestes três anos.

O ambiente que se vive no país hoje é diferente do tempo da troika. Está mais leve. Mas continuamos a ser o país do trabalho precário, dos dois milhões de pobres, da gestão empresarial sem formação e familiar. Há um desfasamento entre a perceção e a realidade?

As perceções mudaram muito mais do que a realidade. Há muitos indicadores que vão dizer que a capacidade de o Estado resolver agora é inferior do que era nos piores anos da austeridade. Porquê? Porque se encontrou maneira de colar a austeridade à cara de um e sorrisos à cara de outro.

Um é Passos Coelho, outro é António Costa?

Pensei que estava claro. Eles não estavam sozinhos, havia mais pessoas. Há o ministro das Finanças e digo que nunca houve um que tivesse tanta força nos governos democráticos, e mesmo antes, como durante a troika. Estávamos debaixo de um programa de austeridade, com três organizações que não se entendiam bem. Era preciso uma visão e uma palavra única.

Continuamos em austeridade por causa de regras que têm de ser cumpridas, mas com um sorriso posto, é isso?

Certas regras, que antes se chamavam de austeridade, acabam agora por ser mais apertadas. Falo de muitos serviços públicos, a começar pela saúde, o ensino! Várias funções do Estado estão mais ameaçadas do que no período de ajustamento. Mas neste momento sorri-se, está tudo bem e qualquer pessoa compreende que pode fazer a diferença. O ponto é: quanto tempo demora essa diferença? E já vimos uma diferença clara entre o início deste governo, desta solução original, e a solução atual. O que acho curioso com a solução atual é que este ministro [Mário Centeno] parece não ter poder no sentido de ter as organizações consigo, mas a verdade é que ninguém lhe toca porque o primeiro-ministro não deixa. E isto aplica-se não só ao partido que está no governo, mas também aos outros, cujos ataques são quase lúdicos. Os dois partidos da esquerda [CDU e BE] que apoiam o governo PS dão as inquietações habituais, mas sem efeito prático. É essa a novidade. Não é bem um sorriso, mas é compatível com sorriso. Se se fizesse isto com uma cara carrancuda, estaríamos outra vez em austeridade. Mas assim está tudo bem, está tudo a sorrir.

O PSD tem hipóteses de vencer as legislativas contra esta nova forma de fazer política?

É evidente que há hipóteses porque as eleições são para isso, mas não há dúvida de que temos uma situação de anestesia relativamente às reformas estruturais que permitiriam a Portugal ser competitivo numa ordem global que está mais instável. Estamos neste momento no mapa, através do turismo e dos investimentos. Mas se os serviços públicos se deteriorarem, como tem acontecido nos últimos anos, isto deixa de ser um sucesso. Isto é sol de pouca dura. Falar de outros partidos neste momento até parece quase impossível, mas a questão é: há aqui um engodo, há uma diferença entre a perceção e a realidade, que é contrário ao que acontecia antes. Também havia uma diferença. Temos de agradecer ao Tribunal Constitucional por ter tornado as coisas muito mais difíceis, no sentido de se encarniçar relativamente aos trabalhadores, poupando parte deles, os funcionários, e considerando que isso era justo e igual, que não era. Foi discriminatório. Neste momento, reparem, não há problemas nenhuns, está tudo bem. E o economista que olha para isso duvida.

A carregar player...

Mas o maior partido da oposição tem força ou não? Como é que avalia a liderança de Rui Rio?

Não ia entrar por aqui.…Falei de sorrisos, falei de doutorados, em ministros. Tenho falado das coisas com tanta simplicidade e simpatia, para quê agora estar a picar?

Tinha de fazer a pergunta.

Tinha de ser, pois, mas compreenderá que eu sorria.

O crédito à habitação e ao consumo está a aumentar. Depois de uma fase de grande aperto dos bancos na concessão de crédito, as instituições financeiras estão agora, outra vez, a facilitar alguns tipos de empréstimos. Estamos a ver a história a repetir-se?

Isso é uma pergunta dramática. Aquilo que se esperava do esforço de ajustamento era que não voltasse a acontecer. Disse-o neste mesmo palco no dia da saída limpa.

A carregar player...

A 16 de maio de 2014, dia da saída do resgate, deu uma entrevista à TSF…

Na altura, parecia que o movimento de reformas nos ia permitir manter a competitividade – porque o primeiro problema não era o orçamento, era a dívida externa. E de facto aí mudou-se de regime, continuámos a exportar. Mas a dívida continua. A dívida pública e a privada. Outros países que têm dívidas privadas altíssimas, como a Holanda, fizeram as reformas que fez a Alemanha, que fizeram os países nórdicos. Porque é que nós não fizemos? A Irlanda teve aquele exagero bancário, mas também fez. Há países pequenos na União Europeia que conseguem duradouramente convencer. Mas Portugal está em muito maior risco de voltar a ter um problema, mesmo depois de tudo o que passámos. Nesse sentido há uma diferença radical entre o período mais tristonho e o período sorridente, porque este é mais anestesiante. Vai tudo correr bem… Oxalá!

A carregar player...

Relativamente ao potencial da economia. O fulgor que existe na inovação e no conhecimento não o convence? Não acha que pode ser por aí? E pelo turismo.

Houve aqui uma política de aumento do capital humano e do capital social que foi feita ao longo deste período todo, mesmo no período difícil de ajustamento, portanto, claro que se está a retirar frutos. Não há dúvida de que o capital humano está melhor, mas a ligação da investigação das universidades às empresas está muito atrás face aos padrões europeus. As reformas deram competitividade à Alemanha durante dez, vinte anos. Nós temos o turismo, que às vezes é de baixa qualidade. A melhoria do capital humano a que se assistiu ao longo destes anos foi muito importante, mas foi mais académica, no sentido de criar até excesso de doutorados, não houve uma ligação tão íntima como há noutros países. E depois havia esta ideia de que a pessoa que se doutorava por definição tinha de ter um emprego para a vida. Uma espécie de aristocracia operária.

A política do BCE de juros muito baixos é um perigo? Pode estar a fermentar bolhas?

Todas as grandes zonas monetárias têm vindo a abrandar, umas mais depressa do que outras. O BCE já está a dar sinais nesse sentido. A crise foi há dez anos e foi única. Foi a crise dos países que não podiam ter crise. E alterou muita coisa e estamos ainda longe de ver o fim. A situação mundial está de facto muito complicada. A questão na Europa, que é neste momento mais preocupante, não é a situação da zona euro, é mais a questão do modo como a Europa consegue chegar a decisões, num mundo que deixou de ter a previsibilidade da ordem internacional. A globalização, neste momento, está rodeada de uma insegurança que altera as relações económicas.

O Brexit é um desastre ou ainda pode ser gerível?

Chamo-lhe embuste. A probabilidade é de tal maneira horrível que não se consegue resolver o problema. Qualquer previsão neste caso é má. Custa-me muito imaginar uma saída sem acordo. É claro que também não vai ser um desastre fatal, mas dado que a Grã-Bretanha já disse que vai continuar próxima dos seus parceiros na parte da segurança e na parte militar, vemos até que ponto só uma pouca sorte eleitoral… O Brexit é um desastre. Para Portugal é mau, mas é sobretudo para Inglaterra que, isolada, não vai contribuir da mesma maneira.

Voltando à reforma do euro. Há falta de consensos para a completar. A Europa está preparada para uma nova crise?

É um perigo. É uma coisa parecida com o que estava a dizer de Portugal, triste comparação, triste sorte. De facto não se está a fazer as reformas. Como a conjuntura está boa, não há problema. O ano de 2017 foi extraordinário na zona euro. A arquitetura progrediu na parte orçamental, tem defeito naturalmente, mas a violação do Pacto não tem nada que ver com a violação do Pacto anterior. Na altura toda a gente achou naturalíssimo, mas aquela ideia de fazer as reformas da união bancária e da união do mercado de capitais, que eram essenciais para completar a arquitetura… Fez-se muito pouco, muito vagarosamente. É porque os alemães não querem nada ou porque os franceses querem demais que não se encontram.

A crise contribuiu para um maior interesse pelo estudo da economia?

A economia e disciplinas parecidas que envolvem atores racionais e que maximizam e que têm um comportamento estratégico estão muito mais generalizadas. Ao mesmo tempo que a cultura literária ou puramente científica se alargaram e aprofundaram, esta questão intermédia que é a economia dentro das ciências sociais está na moda.

Mas referia-me mais a uma questão de impacto no interesse da população em geral. Foi uma espécie de minimestrado em finanças públicas para todos. Será que isso motivou o interesse pelo estudo da economia?

Não vejo a coisa como um choque, até porque um mestrado, mesmo mini, pede alguma serenidade. A discussão de questões económicas deixou de ser tão afunilada. Nos EUA era comum que houvesse pessoas muito concentradas nas cotações das ações e nas obrigações e as pessoas pensavam na sua poupança, tinham literacia financeira. Isto aconteceu em Portugal mais tarde mas não diria… o que aconteceu foi que se percebeu que a economia não podia ser só para os economistas, tinha consequências políticas e sociais. O que é interessante em Portugal, ao contrário dos países anglo-saxónicos, é que não foi só por causa da poupança, também envolveu questões como a inovação, criação de empresa e mesmo que fosse um minimestrado não seria só de finanças, até porque o grande problema de Portugal, depois do défice externo, foram as finanças públicas e os mestrados em finanças são finanças privadas. A mim o que interessa é o ensino da macroeconomia.

Em relação aos nossos parceiros da lusofonia: há um novo momento na relação com Angola. O crescimento das relações com os países da lusofonia vai ser sempre o mesmo tipo de crescimento, muito relacionado com o petróleo, a construção, com a presença de grandes empresas portuguesas lá e vice-versa, ou há um novo modelo que se deve pensar para as relações económicas de Portugal e esses países?

As relações da CPLP só podem manter-se se evoluírem. Se for uma visão puramente do passado, qualquer que seja a coloração, mais internacionalista, mais colonialista, têm de se fazer coisas juntas. Os países estão a mudar muito. Alguns têm um problema de diversificação sério, outros têm problemas de segurança que os levaram a tentar reforçar a autoridade do Estado, e outros com problemas de coesão nacional, mas a questão para Portugal é muito simples: isto é que é um jogo de longa duração, um bocado como a Europa e quanto mais nós entramos na Europa, mais precisamos de levar a sério as relações que culturalmente são diversas mas que são igualmente importantes para a nossa política externa e para a população. Há um entrosamento da população com as questões lusófonos muito maiores do que com as questões europeias, portanto não merece ser visto como questão distante. E digo mais: a razão pela qual me pareceu importante falar da África do Sul é que o grupo de países que o rodeiam, em que Angola e Moçambique são os mais importantes, é uma parte da África que está a mudar bastante. E sem mudança essas relações não fariam sentido. Precisam é de mais atenção e não ser só uma atenção diplomática mas também das empresas. Uma coisa que se fez no anterior governo, que era um conselho de internacionalização da economia, que envolvia as confederações patronais e tentava aumentar a abertura da economia, teve sucesso mas não foi continuado. Não há a visão geral que havia relativamente à lusofonia ou mesmo ao comércio com países distantes. Foi quando a AICEP foi lançada e nunca mais atingiu essa significância na política económica do país.

Disse que gostava de falar do estudo da macroeconomia.

Este livro. A capa é vermelha, o título é longo: “Macro de economia aberta: ensino e prática depois de abril”. É sobre como se ensinou a macroeconomia graças a Alfredo de Sousa, uma publicação da Academia das Ciências de Lisboa, mas com o patrocínio do Banco de Fomento de Angola. Foi lançado na Academia, vai ser lançado na Nova, em janeiro. Já fui ao Porto lançá-lo, esteve lá o Cadilhe, autor de um capítulo. E, em Coimbra, escola, como sabe, com ideias muito contrárias às ideias da Nova, correu bem, estou vivo.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (Fotografia: José Coelho/ Lusa)

Marcelo promulga alterações à lei laboral

Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (Fotografia: José Coelho/ Lusa)

Marcelo promulga alterações à lei laboral

. MÁRIO CRUZ/LUSA

Bases para negociação “ainda longe do necessário”, avisa sindicato

Outros conteúdos GMG
Braga de Macedo. “Vivemos uma situação de anestesia, isto é sol de pouca dura”