Brasil

Brasil produz 11 mil novos milionários no ano de todas as crises

Fotografia: Ueslei Marcelino / Reuters
Fotografia: Ueslei Marcelino / Reuters

Em época de impeachment e de estados a decretarem “situação de calamidade financeira”, há quem enriqueça no país.

Numa página, os jornais noticiam que o Rio Grande do Sul se tornou a segunda unidade federal do Brasil a declarar estado de emergência por, em virtude de um rombo colossal nos cofres, não conseguir pagar os salários da função pública e ser obrigado a fechar ou manter a meio gás, escolas, hospitais, esquadras de polícia e outros serviços. Antes, foi a vez do Rio de Janeiro.

Depois, chegará a hora de mais 10 ou 20, de acordo com os analistas. Umas quantas páginas à frente daquelas notícias, porém, surge outra em sentido contrário: o país produziu 11 mil novos milionários em um ano. Só sete nações no mundo criaram mais fortunas entre 2015 e 2016.

Os problemas da desigualdade crescente e da concentração de riqueza não são brasileiros – são mundiais. Mas no Brasil assume proporções sintomáticas: no ano em que uma presidente eleita (Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores) caiu, após impeachment que castigou a sua desastrada política económica, em que o desemprego atingiu 12 milhões de cidadãos, o PIB registou recordes negativos (contração de 3,8 em 2015 e de 3,4 prevista para 2016), o fantasma da inflação voltou a assombrar e a maioria dos seus 26 estados está em depressão, os milionários multiplicaram-se.

O estudo que sustenta estas conclusões foi efetuado pelo banco Crédit Suisse e divulgado, entre outros, no jornal O Estado de S. Paulo. O Brasil ficou entre as dez nações (oitavo classificado) que mais produziu milionários (detentores de fortunas acima de um milhão de dólares) entre 2015 e 2016 apesar de, ainda segundo o relatório suíços, “enfrentar sérias dificuldades orçamentais”.

“No curto prazo, os ganhos e perdas de riqueza têm mais a ver com fluxos de câmbio e ativos do que a criação de valor por via do crescimento”, adverte João Pedro Caleiro, na revista Exame.

Leia também: Michel Temer desfere gancho de direita no governo de Dilma

O estudo assinala também que “ativos financeiros representam 36% do património das famílias brasileiras” e que “muitos brasileiros tem uma relação especial com ativos imobiliários, especialmente em formas de terra, como proteção contra a inflação”.

O Brasil tem hoje, portanto, 172 mil milionários e 245 mil cidadãos dentro da camada de rendimento que representa aquele 1% da população mundial que concentra 50% da riqueza, ou seja, com salário anual na ordem dos 744 mil dólares. E, no entanto, 24 milhões do brasileiros seguem com renda inferior a 249 dólares ao ano.

O colunista do jornal Folha de S. Paulo Clóvis Rossi considera que estes números desfazem “a lenda da máquina oficial de propaganda de que a desigualdade no Brasil se reduzira substancialmente nos últimos anos”. Uma lenda, acuda, que vem desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, de centro-direita, e atingiu o pico da intensidade nas gestões dos petistas Lula da Silva e Dilma, de centro-esquerda.

O Brasil tem hoje 172 mil milionários. E, no entanto, 24 milhões do brasileiros seguem com renda inferior a 249 dólares ao ano

Rossi acrescenta dois outros estudos ao do Crédit Suisse. Um deles, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), onde se assinala que apesar do crescimento de rendimento dos brasileiros mais vulneráveis e extremamente pobres nos últimos 14 anos o fosso social não diminuiu. E outro, da empresa de pesquisas Ipsos, presente em 87 países, no qual os brasileiros são os segundos menos preocupados, só atrás dos cidadãos dos EUA, com o flagelo, histórico no país, da desigualdade.

“Até compreendo que a corrupção, a saúde e a violência ocupem mais a mente dos brasileiros mas não é justificável: afinal uma sociedade desigual é um sociedade doente, como afirmam os técnicos do PNUD”, completa o jornalista.

Acima do Brasil, entre as dezenas de países avaliados na produção de milionários classificaram-se só países de primeiro mundo, como o Japão, os EUA, a Alemanha, a Nova Zelândia, o Canadá e a Bélgica. E outro emergente, a Indonésia. Na América Latina, países com estruturas socioeconómicas semelhantes, como Argentina e México, regrediram no total de milionários. E o maior dos emergentes, a China, perdeu 43 mil nessa categoria.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Fotografia: Reuters

PME vão criar mais 70 mil empregos em Portugal

PCP

Subsídios por duodécimos no privado também acabam em 2018

Francisco Pedro Balsemão, CEO do grupo Impresa. Foto: DR

Impresa.Reestruturação já atingiu 20 trabalhadores. E chegou ao Expresso

Outros conteúdos GMG
Conteúdo Patrocinado
Conteúdo TUI
Brasil produz 11 mil novos milionários no ano de todas as crises