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Brexit ameaça gripar exportações do setor automóvel

EPA/WILL OLIVER
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A produção automóvel mantém um forte dinamismo e até conseguiu resistir melhor do que os parceiros europeus à entrada em vigor das novas normas ambientais. Mas depende muito das componentes vindo do Reino Unido.

Uma saída desordenada do Reino Unido da União Europeia poderá causar ondas de choque no setor automóvel em Portugal e, por consequência, nas exportações nacionais. Em causa está o peso do conteúdo importado para a produção de veículos com origem em terras de sua majestade.

De acordo com a análise do Banco de Portugal à produção automóvel em Portugal, do Reino Unido chega 3,4% do conteúdo importado e uma saída sem acordo (hard brexit) pode causar perturbações na cadeia de abastecimento desses materiais às fábricas portuguesas. Os dados sobre a decomposição do conteúdo importado das exportações da indústria automóvel são de 2015, mas permitem perceber o impacto.

Um agravamento das taxas alfandegárias pelos EUA e a resposta da China e da Europa também pode ter efeitos. “Os riscos decorrentes da imposição ou aumento de tarifas às importações de automóveis, no contexto de uma escalada protecionista, contribuem também para tornar mais incertas as perspetivas para o setor”, refere o estudo, salientando a importância desta indústria para a economia portuguesa.

O supervisor lembra que “em termos nominais, o peso do setor no total da economia (valor acrescentado bruto) situou-se em 0,9% em 2017”, sublinhando a “importância relativa do emprego do setor no total do emprego”, que se situou em 1% em 2017.

Portugal resistiu à queda europeia…

O Banco de Portugal sublinha que a indústria automóvel conseguiu manter o dinamismo, em contraciclo com o resto da Europa. “As exportações deste setor mantiveram um contributo notório para o crescimento das exportações totais de bens em termos nominais no primeiro semestre de 2019, ainda que inferior ao ano anterior”. E tal ficou a dever-se à entrada em produção de novos modelos na fábrica da Autoeuropa, em Palmela, e da PSA, em Mangualde.

As exportações cresceram acima da procura externa, o que significa que houve ganhos de quota nos mercados externos e no entender do supervisor é “assinalável, já que ocorreu num contexto de perturbações do setor a nível europeu na segunda metade de 2018.” Em causa está a introdução nas novas normas sobre a emissão de gases poluentes (WLTP), que “condicionou a produção automóvel europeia em geral neste período, contribuindo para a desaceleração da atividade na área do euro.”

…mas não está a salvo das mudanças

Apesar do bom desempenho no ano passado e, em princípio na primeira metade de 2019, o setor pode não escapar ao “acentuar das políticas protecionistas” e à “desaceleração da economia global”, alerta o estudo. A que se junta o “esgotamento dos efeitos de procura adiada no período da crise por este tipo de bens”.

Mas se estas são preocupações de curto prazo, há outras mais estruturais, como a “redução tendencial da procura de veículos automóveis, dado o fraco crescimento populacional e a elevada densidade automóvel já existente”.

Os desafios estendem-se também às novas preferências dos consumidores por veículos elétricos ou híbridos, a mobilidade partilhada, a possibilidade de alterações regulamentares ou aumento das tarifas às importações automóveis.

São fatores que “assumem acentuada relevância no contexto do setor em Portugal, fortemente dependente de investimento estrangeiro e da procura externa”, alertando que eventuais decisões de redução da produção por parte das fábricas (que são apenas cinco) “podem ter um impacto macroeconómico relevante”.

Mas também há oportunidades com a reestruturação das cadeias de produção global. “O bom desempenho recente do setor apontam para a manutenção de fatores de competitividade da indústria nacional” e, por isso, sugere a importância de “continuar a promover um enquadramento institucional favorável à sua atividade.”

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