Bruxelas agrava projeção de contração em Portugal para 9,8%

Bruxelas espera agora uma contração em Portugal acima da média da zona euro e da UE. Há dois meses apontava para quebras abaixo da média europeia.

A Comissão Europeia agravou as previsões económicas para Portugal para este ano face ao impacto da pandemia do novo coronavírus, estimando uma contração de 9,8% do PIB, muito acima da anterior de 6,8% e da do Governo, de 6,9%. Retoma abaixo do esperado no setor do turismo e a reabertura tardia das fronteiras com Espanha pesaram no agravamento das previsões, apontou o comissário europeu, Paolo Gentiloni, em conferência de imprensa.

Bruxelas, nas previsões intercalares de verão hoje divulgadas, reviu em baixa as projeções macroeconómicas, já de si pouco positivas, da primavera para o conjunto da zona euro e da UE. Este ano a economia na zona Euro deverá contrair até 8,7% e crescer 6,1% no próximo ano, enquanto a economia da União Europeia (UE) como um todo deverá recuar até 8,3%, antecipando-se um crescimento de 5,8% em 2021.

Estimativas que indicam uma contração da economia “significativamente superior” às previsões intercalares da primavera, apontavam para uma quebra de 7,7% para a zona Euro em 2020 e 7,4% para a UE como um todo.

Bruxelas mostra-se particularmente pessimista com Portugal, agravando a projeção de recessão em três pontos percentuais, apenas ligeiramente compensada em 2021 com um crescimento de 6,0%, acima dos 5,8% antecipados na primavera. Embora mais pessimistas, as estimativas estão em linha com as mais recentes divulgadas pelo Banco de Portugal, que apontam para uma recessão de 9,5% este ano, com uma recuperação de 5,2% em 2021.

O agravamento da projeção sobre a evolução da economia nacional deve-se, sobretudo, a uma retoma abaixo do esperado no setor do turismo e pela reabertura tardia das fronteiras com Espanha, apontou o Comissário Europeu, Paolo Gentiloni, em conferência de imprensa.

“A diferença deve-se a um desempenho pior do que o esperado no primeiro trimestre e a uma recuperação mais lenta do que o previsto no turismo estrangeiro, particularmente no número de voos, e também no atraso da reabertura da fronteira com Espanha, que só aconteceu há alguns dias”, referiu o comissário.

A revisão em baixa das projeções para a evolução do PIB português “confirma como a incerteza em torno de voos e do turismo global podem afetar particularmente economias muito dependentes” do setor turístico, referiu ainda o comissário europeu.

“Penso que como enfrentar

é uma das missões da nossa estratégia de recuperação e dos nossos pacotes ”, diz.

Quando questionado sobre se as previsões hoje atualizadas serão tidas em conta na decisão sobre a alocação dos apoios aos Estados-membros, ao abrigo do proposto Fundo de Recuperação, Gentiloni disse: “a chave de alocação será discutida pelos líderes de todos os pontos de vista, incluindo este”, no Conselho Europeu de 17 e 18 de julho, no qual os chefes de Estado e de Governo da UE vão tentar ‘fechar’ um acordo sobre o plano de recuperação (que inclui o orçamento plurianual para 2021-2027).

“Com o confinamento a começar a diminuir em maio, a atividade económica está lentamente a retomar, mas para muitas empresas, tais como companhias aéreas e hotéis, é expectável que a mesma permaneça bem abaixo dos níveis registados antes da pandemia durante um longo período. O PIB deverá assim recuar 9,8% em 2020, antes de recuperar em torno dos 6% em 2021”, aponta a Comissão.

Impacto do turismo: "visitas a colapsarem quase 100% em abril relativamente a um ano antes"

Bruxelas deixou nas estimativas de verão conhecidas esta terça-feira um alerta claro para riscos acrescidos para a economia nacional “devido ao forte impacto do turismo estrangeiro”, setor “onde as incertezas no médio prazo permanecem significativas”.

“A atividade económica em Portugal inverteu-se acentuadamente em março, uma vez que a pandemia de covid-19 trouxe perturbações significativas, particularmente para a grande indústria hoteleira do país”, o que levou a que, no primeiro trimestre do ano, o PIB caísse 3,8% na comparação em cadeia e 2,3% em termos homólogos, apesar dos dados muito positivos nos primeiros dois meses do ano”.

“O turismo tem sido o setor mais dramaticamente afetado, com as visitas a colapsarem quase 100% em abril relativamente a um ano antes”, destaca.

A Comissão estima que, no segundo trimestre do ano, o desempenho económico se deteriore a um ritmo ainda muito mais acentuado, de cerca de 14% na comparação trimestral em cadeia, “refletindo contrações dramáticas na maior parte de indicadores económicos”.

O impacto da pandemia já se está a fazer sentir nos preços ao consumidor. Até junho, o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) caiu abaixo de zero, refletindo uma descida significativa nos preços da energia, compensando aumento dos preços dos alimentos, levando Bruxelas a esperar que a inflação “se mantenha moderada em 2020 e aumente gradualmente em 2021”.

A Comissão refere, como nota positiva, que a taxa de desemprego permaneceu globalmente estável - entre os 6,2 e 6,3% em março e abril - com os regimes de trabalho a curto prazo implementados pelo Governo a ajudaram a compensar o impacto da pandemia no emprego, mas também porque os despedimentos temporários não tiveram ainda um impacto estatístico.

Globalmente, Bruxelas aponta nestas novas estimativas intercalares uma contração em Portugal acima da média da zona euro (-8,7%) e da UE (-8,3%).

Há dois meses, nas previsões intercalares da primavera, apontava uma queda da economia portuguesa de 6,8%, contra 7,7% no espaço da moeda única e 7,6% no conjunto da economia da UE.

*Com Lusa

(notícia atualizada às 11h03 com declarações de Paolo Gentiloni)

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