Bruxelas foi negligente na Ucrânia

A mobilização durará 45 dias
A mobilização durará 45 dias

A sangrenta semana na Ucrânia vai terminar num registo de acalmia ao que tudo indica. Apesar do presidente Viktor Yanukovitch e a oposição terem chegado a acordo para convocar eleições antecipadas, ainda é cedo para dizer se a tensão social vai terminar nas ruas de Kiev.

Um dos grandes culpados da situação é a União Europeia, que negligenciou a situação financeira do país, atirando a Ucrânia diretamente para os braços da Rússia, defende o especialista em relações internacionais Bernardo Pires de Lima.

Apesar das mudanças que o acordo prevê, e mesmo que a oposição pró-Ocidente vença as eleições, a Ucrânia dificilmente saíra da órbita de Moscovo, diz o investigador do IPRI- Instituto Português de Relações Internacionais ao Dinheiro Vivo.

O acordo assinado entre o presidente e a oposição é para durar?

As propostas fazem praticamente o pleno das exigências da oposição. Admito que haja alguma suspeição em redor da concretização da palavra do presidente depois das tréguas.

Julgo que não há margem para a oposição para não assinar este acordo porque faz o pleno das reivindicações, sobretudo com a pressão que existe, neste momento de alguns países europeus, em particular da Alemanha, França e Polónia.

As ruas de Kiev vão acalmar depois deste acordo?

Este compromisso pode acalmar as ruas, mas há problemas de fundo na Ucrânia, e problemas institucionais que não ficar resolvidos apenas com este anúncio.

De facto, independentemente do governo ser de unidade nacional, de haver mais equilíbrio com o parlamento e de haver eleições que podem alterar a nomenclatura das elites políticas, o peso da Rússia na política ucraniana manter-se-á porque não há alternativa à política energética ao papel da Ucrânia nesse domínio energético

Podemos vir a assistir a uma guerra civil?

Acho que esse cenário é plausível, tendo em conta aquilo que estamos a verificar territorialmente, com metade do país, o Noroeste, a ser pró-ocidente, e a outra metade, pró-Rússia.

Leia também:Governo e oposição aceitam acordo

Quais as consequências para a União Europeia?

Pode vir a existir aqui uma espécie de mimetismo da situação ucraniana na Moldávia e na Geórgia que tem também princípios de acordos de livre comércio.

Vão-se sentar mais vezes à mesa com a União Europeia durante o ano e a Rússia pode vir a fazer exatamente a mesma pressão para que a Moldávia e a Geórgia não venham a assinar esse mesmo acordo.

Está aqui mais uma razão para a Ucrânia ter sido trabalhada com outra sensatez, exactamente pelo efeito colateral que pode ter naquela região mais a leste e também no Cáucaso.

Esta crise política podia ter sido evitada?

Quer União Europeia quer o FMI não capitalizaram aquilo que era uma situação limite das finanças públicas ucranianas. E quem o fez foi a Rússia.

O valor de que estamos a falar de bailout é inferior aquilo que o Facebook pagou pelas Whatsapp. Parece-me que houve aqui alguma negligência política do ponto de vista europeu e das instituições financeiras e internacionais tendo em conta a verba que era exigida a curto prazo para, primeiro fazer o resgate financeiro à Ucrânia e depois, a partir daí, convencer a Ucrânia a assinar o tratado de livre comércio.

A Ucrânia não assina o tratado de livre comércio, e essa é a razão pela qual estamos a falar destes mortos, desta crise toda, porque a Rússia se chega à frente com 15 mil milhões de dólares.

Do ponto de vista europeu, não é caso único, mas de um ponto de vista mais global, a forma como se encaram estes problemas de crise europeia, de uma forma um pouco negligente, só se actua, só se enfrentam as questões quando elas já estão extremadas.

Bruxelas deveria ter adotado uma atitude mais proactiva?

Parece-me que falta aqui alguma sensatez prévia e algum estudo prévio do ponto de vista de Bruxelas, uma visão de longo prazo das implicações.

Há muitas situações em que a União Europeia dá como garantida que o seu modelo continua a ser atractivo como era há 15 ou 20 anos atrás.

Isso já não existe porque há muitas alternativas ao modelo europeu e sobretudo porque, do ponto de vista russo, a Rússia injecta 15 mil milhões de dólares, mas não procura nem reinvidica nenhuma reforma democrática no país.

Nem a libertação de Yulia Timoschenko, nem o fim da corrupção das elites. Como a União Europeia não as faz, é natural que essa elite queira manter o poder sem proceder a reformas internas. É perfeitamente natural.

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