Comissão Europeia

Bruxelas. Recessão de Portugal em 2020 vai ser pior que a depressão de 1928

Foto Mega Paolo Gentiloni

Na Grande Depressão do início do século XX, Portugal colapsou 9,7%. Bruxelas diz que este ano economia vai afundar 9,8% e volta a divergir da Europa.

A recessão deste ano em Portugal vai ser mais violenta do que na Grande Depressão, que começou com um enorme colapso da economia logo em 1928 e se propagou em 1929 com a derrocada das bolsas dos EUA e com níveis de desemprego explosivos em vários países do mundo industrializado. Os dados para a recessão em Portugal (relativos a 2020, o ano do novo colapso) vêm das novas projeções intercalares ontem avançadas pela Comissão Europeia (CE).

Para Bruxelas, a economia portuguesa vai afundar 9,8% este ano (ou mais já que os riscos são excecionalmente negativos e incertos), valor que supera a contração de 9,7% em 1928 (que marca o ponto de partida da Grande Depressão). Este último valor consta nas séries históricas publicadas pelo Banco de Portugal (“New estimates for Portugal’s GDP: 1910-1958”) e nas séries do economista Angus Maddison, publicadas pela OCDE (edição de 2003).

Ontem, soube-se ainda que Portugal sofreu a maior revisão em baixa da Europa para a variação anual do produto interno bruto (PIB) entre maio e agora — no caso em apreço, a maior revisão em alta da recessão prevista para 2020 — o que faz com que a economia volte a divergir de forma significativa face à média europeia, mostra a Comissão Europeia, que atualizou projeções para os 27 Estados da União.

Depois de quatros anos de convergência real, algo que foi bastante celebrado pelo atual governo, a economia portuguesa caiu por terra com esta crise (muito por causa do turismo a mais, observou o comissário europeu da Economia) e assim vai divergir da média europeia durante pelo menos dois anos.

Mais. A recuperação dos danos provocados este ano pela crise pandémica também deverá ser das mais curtas. Depois de perder 9,8% do PIB em 2020 (em termos reais, face a 2019), Portugal só vai conseguir recuperar 6% no próximo ano. Fica assim 3,8 pontos percentuais aquém de um crescimento que podia apagar o rasto de destruição histórico esperado para este ano.

Pior só Itália. Vai ter a maior recessão da Europa em 2020 (contração de 11,2%) e em 2021 só recupera 6,1%. Ontem, os chefes de governo dos dois países (Giuseppe Conte e António Costa) encontraram-se em Lisboa para concertar posições e tentar sair deste buraco.

Cálculos do Dinheiro Vivo com base nestas novas previsões intercalares mostram ainda que a projeção anual para a economia portuguesa em 2020 foi, de todos os países da União Europeia, a que mais se degradou desde maio (previsões da primavera, também da CE). O corte chega a 3 pontos percentuais em apenas 3 meses.

Fonte: Maddison, Angus (OCDE, 2003) para os dados até 1960 e Comissão Europeia (2020) para dados desde 1961. Cálculos DV

Fonte: Maddison, Angus (OCDE, 2003) para os dados até 1960 e Comissão Europeia (2020) para dados desde 1961. Cálculos DV

Comissão prevê recessão de 9,8%, Governo diz 6,9% no OE

E agora a CE aparece como a instituição mais pessimista das que já fizeram cenários macro desde que a pandemia desabou sobre as economias.

A recessão que Bruxelas prevê para Portugal em 2020 compara, por exemplo, com a quebra de 6,9% prevista pelo governo em junho (e na qual assenta o novo Orçamento do Estado suplementar).

É também mais grave que a contração de 7,5% projetada pelo Conselho das Finanças Públicas, que a descida de 9,4% estimada pela OCDE e pior que o afundanço de 9,5% calculado pelo Banco de Portugal. Todas estas entidades atualizaram as suas contas em junho passado.

O lastro pesado do turismo a mais

Em Bruxelas, o comissário responsável pelos assuntos económicos explicou que a diferença (a revisão em baixa) “deve-se a um desempenho pior do que o esperado no primeiro trimestre e a uma recuperação mais lenta do que o previsto no turismo estrangeiro, particularmente no número de voos, e também no atraso da reabertura da fronteira com Espanha, que só aconteceu há alguns dias”.

A forte revisão em baixa das projeções para o PIB português — a mais profunda entre os 27 países da UE, como já referido “confirma como a incerteza em relação aos voos e ao turismo global podem afetar particularmente economias muito dependentes do setor turístico”, observou Gentiloni.

O novo estudo da CE avisa ainda que “o desempenho económico deverá deteriorar-se a um ritmo muito mais acentuado, cerca de 14%”, entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, “refletindo contrações dramáticas na maioria dos indicadores económicos”.

Os economistas da Comissão reiteram que “o turismo foi o mais afetado e de maneira dramática, com as visitas a cair quase 100% em abril face ao ano anterior”. A confiança na economia (sentimento económico) também “caiu abruptamente de 105,7 pontos em fevereiro para 63 pontos em maio”, tendo depois recuperado parcialmente até 74,1 pontos em junho, enumera Bruxelas.

Coisas “positivas”, ainda que “temporárias”

“O desemprego permaneceu amplamente estável na faixa de 6,2% a 6,3% da população ativa em março e abril, pois os despedimentos temporários não tiveram um impacto estatístico imediato e os esquemas públicos de trabalho de curto prazo também ajudaram a compensar o choque.”

A CE não o diz explicitamente, mas já elogiou várias vezes o efeito benéfico do esquema de lay-off simplificado, que irá vigorar até julho, e tem ajudado a atrasar a subida em flecha do desemprego.

Bruxelas conclui depois que “com o início da redução do confinamento em maio, a atividade económica tem vindo a aumentar lentamente, mas para muitas empresas, como companhias aéreas e hotéis, espera-se que a atividade permaneça bem abaixo do nível pré-pandémico por um período mais prolongado”.

Além disso, os riscos que pendem sobre as atuais projeções são negativos “devido ao grande impacto do turismo estrangeiro, onde as incertezas no médio prazo permanecem significativas”, lamenta a Comissão.

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