Angola

Cacau, café e petróleo. Angola é o que mais perde com desvalorização

A perda de valor do petróleo tem focado as atenções dos investidores e governantes políticos. No entanto, o ouro negro está longe de ser a única matéria-prima que está a desvalorizar: as soft commodities seguem o rasto e as divisas também recuam.

“As soft commodities estão, de modo geral, a seguir a tendência das matérias-primas mais relevantes”, conta ao Dinheiro Vivo Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB. Falamos, por exemplo, do gás natural, mas também do café ou  do cacau, elementos com muito peso nas economias da África subsaariana.

Angola é, para já, o grande derrotado, alerta o analista, lembrando que é o “o 16º maior produtor de crude, que perde 12% desde o início do ano;  o 67º maior produtor de gás natural que recua 20% e o 34º maior produtor de café, que perde 25% nos mercados financeiros”. 

“A dependência do país liderado por José Eduardo dos Santos destas matérias-primas tem levado ao natural abrandamento do seu crescimento. Por isto, é também natural que a capacidade de investimento em outros países diminua, as exportações portuguesas para Angola estão em queda há vários meses”, acentua o especialista, olhando não só para a capacidade de atrair capital estrangeiro, como também de investir em outros países, como Portugal.

O abrandamento generalizado do preço das matérias-primas resulta de vários fatores, desde logo do abrandamento da economia chinesa, afirma Pedro Ricardo Santos, recordando que ainda na semana passada a prestação do PIB chinês voltou a levantar receios. Pela primeira vez desde 2009 a barreira dos 7% foi quebrada em baixa. “A desaceleração da segunda maior economia mundial tem provocado uma redução na procura das principais matérias-primas, com o petróleo à cabeça”, conta o analista.

Neste sentido, são os países mais dependentes da exportação das commodities que mais sofrem.

O impacto do abrandamento chinês sai agravado ainda por outra via: fortes impactos no IDE – investimento direto estrangeiro daqueles países. Estima-se que nos últimos dez anos a China tenha enviado 67 mil milhões d euros para o continente africano, numa tentativa de alargar a sua escala de influência. “A mudança de paradigma no crescimento da maior economia mundial, para uma economia de consumo, tem mudado também a política de investimentos no exterior. A esse nível, também Angola é dos países mais prejudicados”, lembra Pedro Ricardo Santos.

O embaratecimento do café ou do cacau são alheios a estas movimentações. No caso do café, os fundamentais estão relacionados com a redução da procura. Como “os principais consumidores mundiais da matéria agrícola têm reduzido as quantias importadas”, os preços começaram a cair consistentemente. E esta queda não é de hoje.

O que são “commodities”?
Uma “commodity” é um recurso natural que pode ser processado e vendido. As commodities negociadas nos mercados financeiros incluem produtos agrícolas, metais, energias e minerais.

O cacau é diferente, conta o analista da XTB: “Apesar das fortes desvalorizações observadas no mês de Setembro, a verdade é que a matéria-prima teve um dos melhores segundos trimestres de sempre, com uma apreciação de  27%. A yield-to-date fixa-se nos 9%, contrastando de forma clara com as quedas de mais de 25% do café”.

MOEDAS MAIS FRACAS

A par das matérias-primas menos valiosas, também as divisas seguem em queda. Na semana passada, pelo menos nove países viram as suas moedas perder mais de 20% de valor face ao dólar americano.

“O fortalecimento do dólar e contínua depreciação dos preços das commodities primárias, que representam a maior fatia das exportações, são o maior motor para a depreciação das divisas africanas”, afirma a Control Risks, assumindo que “um largo número de países enfrenta o aumento da dívida pública, incluindo Moçambique e o Gana. A depreciação das suas moedas irá aumentar o serviço da dívida em moeda estrangeira, aumentando os riscos soberanos”.

Os analistas da Control Risks esperam contudo a reserva federal norte-americana possa alterar as taxas diretoras em dezembro deste ano,  permitindo uma redução da pressão sobre estas divisas durante os meses seguintes.

PROJETOS AMEAÇADOS

O enfraquecimento das matérias-primas é o primeiro fator para adiamento dos projetos de investimento já pensados para a África subsaariana. Miguel Azevedo, diretor do Citigroup para a África, lembra que “no curto prazo, vai assistir-se a uma tempestade perfeita”, que está longe de se resumir a Angola.

“Todos os novos projetos na zona Este de África, os meios para um futuro de crescimento, estão todos relacionados com as commodities. Em Moçambique é carvão e gás; na Tanzânia é gás; no Quénia é petróleo, gás e gasodutos ou oleodutos…Portanto tudo o que era novo e grandioso e que podia ajudar estes países a avançar ou tem a ver com o petróleo ou com outras matérias-primas”, afirmou, citado pelo Financial Times.

A grande dificuldade, dizem os especialistas, será encontrar financiamento. Mas, lembra Miguel Castro Pereira, da Abreu Advogados, “há boas oportunidades” ainda que em moeda local. “Deve haver uma alteração de paradigma para as empresas, especialmente as portuguesas. Existe liquidez em moeda nacional, no caso de Angola em qwanzas”. Isto facilita uma entrada em empresas locais, aproveitando o know-how próprio mas, ao mesmo tempo, utilizando os recursos locais, alerta.

Já conhece o exemplo da Mota-Engil?

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