Eurogrupo

Cadilhe. “Centeno pode trazer um avanço intelectual à construção europeia”

Miguel Cadilhe. Fotografia: D.R.
Miguel Cadilhe. Fotografia: D.R.

"É com agrado que verifico que Centeno está com vontade de mudar as posições da eurocracia, os conceitos que vigoraram até agora", diz Miguel Cadilhe.

Miguel Cadilhe, ex-ministro das Finanças de um governo PSD, fala sobre as implicações para o país e a Europa de Mário Centeno subir a presidente do Eurogrupo. Entrevista ao economista e membro do conselho de curadores da Universidade do Porto.

Que implicações decorrem da eleição do ministro Mário Centeno como presidente do Eurogrupo?

O Eurogrupo tem-se afirmado pela vertente substantiva e técnica/conceptual da política orçamental. Vejo que Mário Centeno tem ideias bastante assentes, sólidas. Concordo plenamente com aquilo que defende nos conceitos de produto potencial e saldo orçamental estrutural. Sabemos que este debate não é fácil e está no centro das novas discussões de vertente orçamental a nível europeu.

Portanto, vê de forma positiva.

É com agrado que verifico que Centeno está com vontade de mudar as posições da eurocracia, os conceitos que vigoraram até agora e que, sinceramente, precisam de ser revistos. Não são medidas observáveis, são umas criaturas dos economistas. Além das reformas de que se fala, acho que fazer esta revisão pode trazer vantagens para o rigor, a credibilidade e a saúde da política orçamental e das finanças públicas de Portugal. E já, agora, dos outros países do euro.

Portugal e as Finanças ficam obrigados a consolidar ainda mais as Finanças Públicas ou não?

Indiretamente, julgo que Portugal poderá beneficiar, não só pelo maior rigor e justeza destes conceitos e da sua aplicação concreta (porque são regras do Pacto de Estabilidade), mas também pelo facto de ser um ministro das Finanças português que traz esta discussão fulcral para a mesa do Eurogrupo e do Conselho. Melhorar estas medidas vai permitir à zona euro passar a uma etapa onde iremos ver maior adequação dos conceitos à realidade, coisa que hoje não acontece, evitando polémicas e jogos políticos desnecessários.

Centeno, o economista, é melhor para o cargo do que um político de carreira?

Penso que se Centeno iniciar essa discussão, como parece estar iminente, e sendo ele uma pessoa muito bem preparada tecnicamente neste domínio, julgo que poderá trazer um avanço intelectual à construção europeia. Sendo o Eurogrupo uma estrutura um bocado informal, que muita gente vê como politizada, então a via é afirmar-se pela consistência dos conceitos, da sua readequação. A oportunidade para o fazer é agora, que não estamos em tensão, numa crise. Tendo em conta o que foi a nossa história orçamental deste a adesão ao euro, julgo que Portugal precisa mais do que outros de um ministro das Finanças com o chapéu do Eurogrupo. Ter Centeno neste novo lugar vai fazer bem às nossas finanças públicas. Penso que terá de ser ainda mais exigente e rigoroso, de procurar mais verdade orçamental. Isto é o que eu sinto ou antecipo em termos gerais, mas tudo isto terá ainda de ser provado, claro.

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