Calçado. Micam arranca este domingo e até há uma nova marca presente

Com 25 anos de experiência na produção de calçado para senhora, a Deshoes, de São João da Madeira, aproveitou o estado de emergência para criar a sua marca própria. A YFF – Young Fashion Footwear nasceu em maio e está, a partir deste domingo, em Milão a apresentar-se ao mundo.

Ou, pelo menos, à Europa, já que este ano não se perspectiva que a Micam seja visitada por profissionais extracomunitários. “Não nos podemos deixar derrotar pela covid, nem ficar parados, de braços cruzados, à espera que nos cheguem as encomendas e, por isso, procuramos diversificar a nossa aposta e aumentar a base de clientes”, diz José Leite, responsável de comunicação da marca.

A YFF é uma das 33 empresas portuguesas que marcam presença na 90ª edição da Micam, a maior feira de calçado do mundo, que decorre em Milão até quarta-feira. Em simultâneo, a 22 e 23 de Setembro, há a Lienapelle, no mesmo local, o certame de componentes para a indústria do calçado, e no qual Portugal terá sete expositores. A nova insígnia, a única iniciante presente nesta edição, assume-se como uma marca de calçado “jovem, urbano e com um cariz de moda muito forte”, que pretende “conquistar novos públicos para a Deshoes, conseguindo obter mais encomendas e maiores e mais elevados índices de produtividade”.

Com 190 trabalhadores, a Deshoes facturou cerca de cinco milhões de euros em 2019. Este ano, apesar da pandemia e de ter fechado um mês por falta de matérias-primas, aderindo ao lay-off simplificado, José Leite garante que a empresa está “praticamente em linha” com o período homólogo. “Acreditamos que a YFF pode dar um impulso e ajudar-nos a chegar a esse bolo total do ano passado”, frisa. A cinco anos, o objectivo é que a nova marca possa contribuir com 2,5 milhões de euros de facturação, isto se conseguir chegar a mercados como os EUA e Canadá e o Japão, que são a meta, além dos países europeus.

Governo elogia resistência dos empresários

É habitual a presença de elementos do Governo de visita às empresas portuguesas na Micam, e este ano não será exceção. João Neves, secretário de Estado Adjunto e da Economia, e Eurico Brilhante Dias, com a pasta da internacionalização, vão a Milão “prestar o seu reconhecimento e estímulo” aos empresários portugueses, num período que todos reconhecem ser “particularmente difícil”. Em declarações ao Dinheiro Vivo, João Neves elogia a “capacidade de resistência absolutamente extraordinária” dos industriais e destaca o aspeto simbólico da sua presença nesta que é “a primeira grande feira internacional” em que as empresas portuguesas participam após o confinamento. “Mau seria que não pudesse estar, quando os empresários tiveram a coragem de ir à Micam em circunstâncias muito difíceis”, frisa.

Na última edição, em fevereiro, João Neves esteve em Milão e falou sobre a criação de instrumentos para combater as distorções ao comércio internacional. Ainda ninguém sonhava com a covid-19 e com a necessidade de encurtar as cadeias de fornecimento. Questionado sobre o tema, o secretário de Estado Adjunto e da Economia admite que a pandemia veio “tornar tudo muito difícil, até na gestão das questões europeias”, no entanto, garante que a questão foi reafirmada pelo ministro da Economia, Siza Vieira, no Conselho de Ministros da Competitividade da União Europeia. A intenção é que, na discussão que vai acontecer, no final do ano, sobre o sistema de preferências generalizadas – que, como o nome indica, dá acesso ao mercado europeu em condições preferenciais a alguns países em desenvolvimento, nos quais se incluem países asiáticos -, as questões sociais e ambientais sejam tidas em conta. “Não se trata de barrar o acesso ao mercado europeu – mau seria que Portugal, como grande exportador que é, não tivesse uma visão de mercado aberto -, os seus produtos não podem é aceder em condições preferenciais, quando se trata de países que se especializaram em actividade concorrenciais às nossas, com custos de produção muito inferiores, porque não cumprem as mesmas regras”, diz João Neves. E sublinha: “Acabamos de o reafirmar, com a força de sermos a próxima presidência da União Europeia”.

O governante lembra que a covid veio, precisamente, por à vista “algumas fragilidades” da estrutura industrial europeia e da organização “muito alongada” das cadeias de produção e logística e acredita que Portugal poderá tirar partido da procura por fornecedores mais próximos.

Outra das grandes preocupações dos empresários está nos seguros de crédito e corte de plafonds. João Neves reconhece que, em momentos de crise, a questão “se coloca com maior aquidade ainda”, já que as seguradoras assumem, por natureza, uma atitude de “muita prudência”, o que levou a uma redução a zero dos limites de crédito a alguns clientes das empresas portuguesas. A intervenção pública, neste contexto, “é muito difícil”, na medida em que o Estado “pode tomar mais risco nas operações, reforçando o mecanismo de solidariedade, como fizemos, para uma partilha de risco mais equilibrada, mas isso só funciona naqueles clientes em que a análise de risco ainda é positiva.

Este responsável promete “ir acompanhando a situação”, no sentido de procurar criar mecanismos que possam “responder melhor à situação”, mas admite que as próprias condições do mercado possam ajudar a ultrapassar o problema, já que os dados do retalho de junho, julho e agosto, mostram alguma recuperação. “Com um ambiente de negócios mais favorável, a questão dos seguros de crédito não é tão sensível. A grande dúvida é se a recuperação se vai consolidar e ser sustentável”, reconhece.

Industriais em busca de uma rampa de lançamento

Do lado das empresas, a expectativa para a Micam é que o certame possa ser “uma rampa de lançamento” do sector, que tem estado “bastante adormecido” nos últimos meses, fruto de uma redução do consumo que afetou toda a cadeia da moda, mas que regista, agora, alguma “reanimação” com o regresso às aulas. Um momento que obriga as famílias a renovar o guarda-roupa dos mais novos.

“Esperamos que a Micam seja uma espécie de momento de viragem”, diz o director de comunicação da APICCAPS, a associação do calçado, sublinhando que Portugal se preparou para situação como a atual nos últimos anos. “Os mercados estão menos sensibilizados para grandes investimentos e grandes compras, o que significa que terão de procurar operadores mais próximos e Portugal conta com unidades muito bem equipadas, muito modernas e altamente flexíveis, capazes de dar resposta rápida às necessidades dos clientes”, afiança Paulo Gonçalves.

Uma realidade em que a questão do preço, na qual as empresas portuguesas estão em desvantagem face aos seus concorrentes asiáticos, por exemplo, pode deixar de ser tão determinante. “Ninguém sabe qual vai ser o comportamento do mercado, eventualmente as grandes marcas estarão menos predispostas a investir e arriscar grandes compras à Ásia, privilegiando negócios de proximidade, em menores quantidades, e Portugal, apesar de ter um custo médio mais elevado, pode ser um player interessante nesta nova realidade”, frisa.

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