a vida do dinheiro

Carlos Silva. Empresas usam aumento de 0,3% do governo para travar salários

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Já há grandes empresas a seguir o exemplo do governo no aumento aos funcionários públicos, diz o secretário-geral da UGT.

Voltar com a palavra atrás não é impossível, mas é difícil. Carlos Silva, secretário-geral da UGT, diz que deu um murro na mesa para António Costa ouvir. Não se recandidata ao lugar em 2021, com o PS de costas voltadas para os sindicatos. O primeiro-ministro ainda não respondeu.

Acusa o PS de afastar-se do sindicalismo. Este PS, ou este governo, já não é dos trabalhadores?

O PS é o PS de sempre. As lideranças, a forma de estar, o cenário político e o cenário económico do país é que se foram alterando. Há um compromisso que importa respeitar no Parlamento. O PS decidiu por esse compromisso nos últimos quatro anos, continua a negociar à esquerda, e sabemos que parte desta esquerda tem uma posição muito anti-UGT. Quem não gosta de nós não gostaria de ver a nossa voz criticar, pôr em causa algumas das decisões da governação.

Sente que há muita gente no PS que não gosta da UGT?

Sinto que há muita gente hoje no PS que não gosta da UGT. Mas também o contrário é verdade. Há muita gente no PS que continua a gostar da UGT, nomeadamente, os sindicalistas socialistas.

Será uma circunstância passageira ou indica alguma alteração na própria posição do partido em relação à UGT?

A UGT tem um líder, que sou eu. Porventura, alguns no PS acham que devia ser mais dócil em relação às posições do governo e do PS no Parlamento. Nunca fui muito dessa docilidade. Nunca estive ao serviço – nem a UGT – de nenhum partido político.

Vídeo. “Não tive resposta de António Costa. Tenho sido crítico, a UGT não está na pasmaceira”

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Desafiou o primeiro-ministro a dizer-lhe olhos nos olhos se tem algum problema pessoal consigo. Já teve resposta?

Não tive resposta. Mas estas coisas têm muitos anos. Conheci-o na JS. Temos um percurso similar. Apoiei António José Seguro. Tenho estima e amizade pelo José Sócrates. São coisas que ficam. Fui efetivamente crítico da possibilidade da criação da geringonça no final de 2015, e tenho sido crítico em relação ao orçamento, em relação à valorização dos salários – que devia ser valorização e não é. A UGT não está na pasmaceira. Disse publicamente que se o primeiro-ministro receber a nossa central sindical, do ponto de vista estritamente institucional, não está a fazer nenhum favor. Está a cumprir uma ética institucional de receber os parceiros sociais, tal como faz o Presidente da República.

Será possível, afinal, recandidatar-se em 2021?

O murro na mesa é não me recandidatar porque entendo que houve aqui um divórcio. Na minha consciência, ninguém manda e ninguém dá ordens. Com este mal-estar tenho dificuldade em voltar atrás com a minha palavra.

Pretende levar o atual mandato até ao fim?

Não atiro a toalha ao chão. O meu mandato termina no congresso de abril de 2021. Até lá, cá estarei e quero desencadear a necessidade de se preparar a sucessão.

Tem nomes que gostaria que avançassem?

Tenho vários nomes que são conhecidos da grande opinião pública ou dos que ligam mais à vida sindical. O Sérgio Monte, que é do meu executivo; o José Abraão, que é secretário-geral da Fesap; os presidentes dos sindicatos dos bancários, que são dos mais poderosos sindicatos do país em termos de sindicalizados e em termos financeiros, Rui Riso e Mário Mourão.

Vídeo. 0,3% de aumento no Estado são uma anedota

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A ministra da Administração Pública reúne-se na segunda-feira de novo com os sindicatos da função pública e promete novidades sobre aumentos. O que é que espera desta reunião?

Espero que não desiluda os sindicatos. Nos últimos quatro anos e alguns meses, têm ido às reuniões da negociação só para fazer corpo presente. A negociação é fazermos propostas e o governo fazer contrapropostas, tentar negociar um denominador comum. Não tem havido. Tem sido uma imposição do governo.

O que está em cima da mesa são 0,3% de aumento. A ministra diz que poderá haver aqui margem para mais. Seria razoável sair da reunião com que valor?

É preciso é que haja um sinal de boa vontade para ir mais além. Efetivamente, 0,3% é uma anedota. É importante que saiam novidades e garantias da parte do governo, garantias com os sindicatos. É com os sindicatos que se tem de negociar salários. Se não, às tantas estamos a esvaziar de todo a concertação social e a negociação coletiva, e estamos a parlamentarizar tudo.

Há disponibilidade para mudar alguns escalões na função pública. Essa alteração deve incidir em que escalões?

Nos escalões mais baixos, que são frágeis. Só que depois de quase 11 anos sem aumentos salariais, os sindicatos têm vertido muito as suas preocupações em não deixar ninguém de fora. Achamos que todos devem ser aumentados, eventualmente, de forma gradual. Ou seja, quem ganha menos poder receber um aumento mais substancial e quem ganha mais não deixar de ser aumentado.

Governo está a “fazer de conta que é possível ter acordo” para os salários

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O governo quer chegar a um acordo sobre rendimentos na concertação social e avançou agora com a discussão para estabelecer eventuais referenciais setor a setor. Faz sentido?

Pode fazer sentido ao governo para justificar porque é que colocou 0,3% para a administração pública. O governo esquece uma coisa. Foram sempre os aumentos da administração pública que influenciaram o setor privado, e agora esta influência é negativa, é perniciosa. Na semana passada, duas grandes empresas com milhares de trabalhadores chegaram perante um sindicato nosso – a EDP apresentou uma proposta de 0,2% e a Brisa de 0,3%. Se o governo apresenta 0,3%, o que é que as empresas do setor privado vão dizer? Naturalmente que se refugiam no referencial da própria administração pública para aumentarem menos os trabalhadores.

A discussão começou com uma proposta mínima de 2,7%, que foi entendida como um possível referencial. Neste momento não há número algum sobre o qual discutir.

Aquilo que o governo queria inicialmente, e transmitiu, era que os salários melhorassem e crescessem acima daquilo que tem crescido a economia na Europa. Se a Europa cresce a 2% nós temos de crescer a 2,5%. Estamos a verificar é que a negociação coletiva está estrangulada. Não queremos continuar a ser os pobrezinhos. Gostaríamos de alavancar as nossas negociações em salários mais fortalecidos. O governo é que criou a expectativa, não fomos nós.

A metodologia para fixar referenciais no acordo de rendimentos poderá contar metade dos ganhos de produtividade em cada setor. É solução?

Quando são os próprios patrões a dizer na concertação social que é difícil medir a produtividade nos setores, quem é que vai aferir a produtividade na maior parte de setores e empresas? É o turismo? É a agricultura? Todos pagam baixos salários e todos querem continuar a pagar. Nenhum quer referenciais. O governo vem propor que, para se obter no final de março um acordo sobre competitividade e rendimentos, se discutam 11 matérias em três reuniões. Não é possível. É estar a fazer de conta que vai ser possível obter um acordo. Se era para dizer que não querem acordo nenhum já deviam ter dito. Vamos aguardar. Se nos agradar, subscrevemos. Se não nos agradar, não subscrevemos.

O mercado de trabalho tem dado sinais de alguma perda de fulgor. Isso pode tornar as negociações mais difíceis?

Estou convencido de que vai torná-las mais difíceis, sobretudo, na área de valorização de salários. Há sinais de abrandamento da economia. Há sinais preocupantes sobre como nos vamos acomodar na UE com a saída do Reino Unido. Há o problema dos fundos de coesão, com a Finlândia a impor uma perda de 12%. Há as eleições nos EUA no final do ano. Se nos disserem que todos podem espirrar e que não nos constipamos, ninguém acredita. Vamos discutir um acordo onde a questão dos salários é fundamental. Mas rendimentos não são só salários, também podem vir pela forma fiscal. Ouvimos dizer ao secretário de Estado dos Assuntos Fiscais que para 2021, até ao final do ano, poderíamos visualizar a hipótese de introdução de mais um escalão no IRS, a melhoria das taxas para aumentar a progressividade e dar mais rendimentos às pessoas. Os trabalhadores precisam é de ter mais rendimentos ao final do mês.

Quanto à eficácia que o acordo poderá ter, há um baixo peso de renovações na contratação coletiva que efetivamente produzem valorização salarial. Este bloqueio pode ser resolvido?

Só pode ser resolvido por intervenção dos patrões. Há quem discuta que essa matéria tem que ver com as questões da caducidade e do tratamento mais favorável. São questões ideológicas. Foram discutidas no caminho até à assinatura do acordo de concertação social [de 2018, para alterações às leis laborais]. Ficaram de fora por vontade do governo, dos patrões e da UGT. Entendemos que o que importa é que haja vontade das partes. E quem também nunca quer negociar da parte sindical também cá fica toda a vida amarrado a princípios doutrinários que não acompanham a modernização e a atualização do mercado de trabalho. Efetivamente, é preciso dar um sobressalto à negociação coletiva. E é preciso que o governo, quer através de portarias de extensão quer mesmo ao nível dos apoios às empresas, melhore a capacidade.

Este Orçamento do Estado é bom ou é mau para os trabalhadores portugueses?

Bom não é de certeza, garantidamente. Se fosse bom, não tínhamos feito com a administração pública uma greve. Não tinha havido concentrações. E a UGT não tinha tomado posições públicas, inclusivamente por unanimidade do seu Secretariado Nacional, rejeitando em absoluto e de forma liminar este Orçamento. Tem coisas boas? Todos os orçamentos têm coisas boas. Mas para os trabalhadores é um orçamento profundamente injusto e desequilibrado. Portanto, não somos favoráveis.

Será também por essa posição da UGT sobre o Orçamento que as relações com o governo estão tão crispadas?

Se calhar não estavam habituados a que a UGT tivesse esta posição de dar um murro na mesa. Mas é melhor irem-se habituando.

Sindicalista em rutura

Começou a vida política, antes mesmo dos 18 anos, na Juventude Socialista. Mais ou menos ao mesmo tempo do que António Costa, que não apoiou para a liderança do PS. Esteve ao lado de António José Seguro. Nas últimas semanas, o secretário-geral da UGT não tem poupado críticas a Costa e à proposta do Orçamento do Estado. Diz que o primeiro-ministro assinou os papéis de divórcio do sindicalismo socialista, na origem da UGT há mais de 40 anos. Carlos Silva está de saída, no termo de um segundo mandato na liderança da central sindical, em que sucedeu a João Proença. Natural de Lisboa, mas com fortes raízes beirãs, o sindicalista tem dito que o futuro pode passar pelo regresso aos balcões do Novo Banco, no Interior, em Avelar, em cujos quadros se mantém. A ser assim, vê em Sérgio Monte, adjunto, José Abraão, da Fesap, ou Rui Riso, sindicalista da banca, possíveis sucessores. O congresso de sucessão já está marcado para meados de abril de 2021. Será difícil voltar atrás, mas até aqui Carlos Silva ainda não disse que será impossível.

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