Portugal Mobi Summit 2019

Carregar na Mobi.e é três vezes mais caro do que em casa

Mobi Summit Portugal Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes

( Filipa Bernardo/ Global Imagens )
Mobi Summit Portugal Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes ( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

Ministro do Ambiente e da Transição Energética anunciou o fim das “borlas” na rede Mobi.e na abertura da conferência Portugal Mobi Summit 2019.

A era da mobilidade elétrica gratuita chegou ao fim em Portugal. Devia ter demorado apenas um ano e meio, mas acabou por durar mais de uma década, entre 2009 e a primavera de 2020. Será nessa altura, no segundo trimestre do próximo ano, que os cerca de 600 postos de carregamento normal da rede pública Mobi.e vão finalmente ser privatizados e passar para a mão de empresas que vão começar a cobrar aos consumidores pela energia elétrica abastecida.

Até ao final do ano o Governo vai lançar um concurso público para atribuir a concessão dos 600 a 700 postos de carregamento, divididos por 10 lotes (de 60 a 70 carregadores). “Que seja quem sabe vender eletricidade para automóveis que faça a gestão, a operação e o desenvolvimento da rede”, disse o ministro. A oportunidade de negócio é gigante para os 45 operadores de postos de carregamento que já existem no país, bem como para as comercializadoras de energia para a mobilidade elétrica (EDP, Galp, Prio, entre outras) e ainda para as empresas que se dedicam à construção e venda de carregadores elétricos, como a Efacec, a Schneider Electric, entre muitas, muitas outras.

Para Henrique Sánchez, presidente da UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos, são boas notícias, mas pecam por demasiado tardias. “As concessões já deviam estar todas atribuídas até ao final de 2019”, critica o responsável. Na prática, quem ficar com estes lotes de carregadores normais (divididos por regiões) terá de os substituir a todos por versões mais modernas. Os atuais, da Efacec, permitem fazer carregamentos mas estão completamente obsoletos e não comportam um sistema de pagamento à semelhança do que já existe há um ano, desde 1 de novembro de 2018, nos postos rápidos.

Dezenas destes postos que vão agora a concurso estão localizados em Lisboa (e inacessíveis) em parques de estacionamento da EMEL, o que obrigou a estabelecer um acordo com a empresa, que por sua vez se constituiu como operador de postos de carregamento para permitir o acesso dos utilizadores à infraestrutura sem ser obrigatório pagar também o parquímetro.

Contas feitas pela UVE no último ano, a um preço médio de 20 cêntimo por kWh (tarifa diurna), para um carro que consuma 15kWh para percorrer 100 km, a energia necessária para esta distância custa seis euros num posto rápido e três euros em casa. Se o carregamento for feito à noite, na nossa garagem, o custo cai para metade: dois euros para andar 100 km. A partir de abril de 2019 passaram também a ser suportados pelos utilizadores os carregamentos nos postos da rede Mobi.e localizados em espaços privados de acesso público, como parques de estacionamento de centros comerciais e grandes superfícies, sendo que aqui cabe aos operadores dos postos decidir se cobram ou não o valor da eletricidade carregada. No Lidl, por exemplo, os carregamentos são grátis, como forma de fidelizar o cliente.

Apesar do fim dos carregamentos grátis, o ministro garantiu que a mobilidade elétrica vai ser mais barata do que a gasolina e o gasóleo. Como? Com a maior produção de energias renováveis em Portugal, o que vai fazer com que “a energia seja mais barata” no futuro, garante Matos Fernandes. O ministro quer mais incentivos à compra de carros elétricos, além dos 3000 euros para os “primeiros veículos elétricos que foram atribuídos durante este ano e nos anos anteriores”. Na visão do ministro, em 2020 “esta medida tem de ser aumentada, não no valor individual mas no orçamento global para esta política”. Num cenário ideal, os cinco milhões de motores a combustão que hoje circulam em Portugal seriam substituídos por carros elétricos, mas Matos Fernandes admite que a descarbonização no setor dos transportes é a “mais complicada”.

Sobre a rede de carregadores, o ministro – que toma posse hoje com poderes alargados, à frente do novo Ministério do Ambiente e da Ação Climática – diz que “tem de crescer para satisfazer uma procura que será muito grande daqui a 10 anos”. Também na Portugal Mobi Summit, o CEO da EDP, António Mexia, aproveitou para anunciar que até ao final de 2019 a empresa vai passar de 40 para 130 carregadores (um ultrarrápido, no Estádio da Luz, 29 rápidos e 100 normais). Em 2020, este número vai mais do que duplicar, com a EDP a chegar aos 300 carregadores, na sua maioria rápidos, daqui a um ano.

“Oxalá fossem todos rápidos, seríamos um país à frente da Noruega. Mas é uma excelente notícia. O mercado está ativo, as vendas de carros elétricos estão a crescer, ano após ano, a três dígitos, os utilizadores têm uma rede pública e uma rede privada, há vários operadores privados a anunciar estações de carregamento. Isto vai permitir que a mobilidade elétrica continue a crescer”, sublinhou o presidente de UVE.

Tal como o ministro, também Mexia garantiu que o preço da eletricidade vai baixar, muito por conta das renováveis, que são a “fonte mais barata”. “Vamos ter preços da energia mais baixos para os consumidores. Os custos com o solar já desceram 80% e no eólico desceram 60%. Vamos ter de refletir isto nas faturas dos consumidores. Eletricidade vai ser mais barata, ponto”, garantiu. Na opinião do CEO da EDP “é preciso simplificar” a experiência de carregamento de carros elétricos. “Não é uma experiência digital. Ainda há um cartão físico, ainda é preciso estar registado antes para poder pagar” a eletricidade com que se abastece o carro nos postos de carregamento.

Vítor Machado, da Deco Proteste, concorda em absoluto. “O novo Regulamento para a Mobilidade Elétrica da ERSE é um pesadelo em termos de utilização para consumidores. Obriga a ter um contrato com um comercializador de energia, a ter um cartão. Há que pensar na experiência do utilizador: chegar, pagar com o smartphone e receber fatura no imediato, e não recebê-la em casa, passado alguns meses”, defende, sugerindo a criação de um “selo de eficiência energética para ajudar os consumidores na hora de escolher um carro elétrico”.

Já Hélder Pedro, presidente da Associação de Comércio Automóvel de Portugal (ACAP) mostra-se preocupado com a “falta de acessibilidade do consumidor a este tipo de veículos, que ainda não está democratizada, por razões financeiras”. De janeiro a setembro de 2019 foram vendidos 8.943 veículos elétricos em Portugal. Só em setembro saíram para as estradas mais 1.177 elétricos, um aumento de 65,5% face ao mesmo mês de 2018. “Um carro elétrico poderá ser 4 a 5 mil euros mais caro. Não é uma grande diferença. Temos carros elétricos novos a partir dos 20/25 mil euros e usados até abaixo dos 10000 euros, mas com menos autonomia. Mas já começa a haver um mercado de segunda mão”, garante Sánchez, apontando o dedo ao PNEC 2030 por não dizer nada sobre que impostos incidirão sobre a mobilidade no futuro. “Um estudo recente diz que mais elétricos nas estradas vai dar uma vantagem fiscal de 2,6 milhões de euros aos consumidores. O Estado vai perder dinheiro?”.

Na Portugal Mobi Summit, José Mendes, na sua última intervenção enquanto secretário de Estado da Mobilidade, disse que é necessária uma “nova geração de políticas fiscais para a mobilidade” mas que mantenha os mesmos níveis de receitas fiscais para o Estado cobrados aos veículos movidos a motores de combustão interna. No entanto, ressalvou que “não há nenhum projeto do Governo português no imediato para o fazer”.

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